Mundo x Suécia: Debate virtual sobre falta de hospitalidade gera crise de imagem para Estocolmo

A Suécia vem tendo meses ocupados com seu processo de adesão à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), pondo fim a décadas de neutralidade de Estocolmo. Como se as objeções turcas à filiação não fossem suficientes para aumentar a carga de trabalho, desde o fim de maio os diplomatas suecos precisam também consertar os estragos causados por uma peculiar crise imagética que fez a internet mundial se voltar contra o país escandinavo.

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Tudo começou no Reddit, onde boa parte dos debates da internet têm sua faísca inicial. A pergunta inocente, postada há duas semanas, indagava: “qual foi a coisa mais estranha que você precisou fazer na casa de alguém por motivos culturais ou religiosos?”. As respostas vão de viajantes que beberam água poluída achando se tratar de achocolatados a mal entendidos causados por barreiras idiomáticas.

Uma resposta em particular, no entanto, chamou atenção. Brevemente, o usuário Wowimtard lembrou sua ida à casa de um amigo sueco na infância:

“Nós estávamos brincando no quarto quando a mãe dele gritou que o jantar estava pronto. E, veja isso. Ele me pediu para esperar no quarto enquanto eles comiam”, escreveu. Terminou usando palavrões para descrever como achou a situação absurda. Pouco depois, outra pessoa contou que passou a noite na casa de um amigo sueco quando era criança, mas precisou esperar sozinho enquanto a família tomava café da manhã no dia seguinte.

Não demorou muito para que o assunto explodisse no Twitter. Usuários contaram que alimentavam seus amiguinhos suecos, mas que o contrário não acontecia quando os visitavam. Expatriados há anos no país disseram que só são convidados para jantar na casa de outros estrangeiros. Em uma das postagens mais populares, que inclui uma imagem com as duas primeiras histórias do Reddit, o autor diz não ter a intenção de julgar, mas questiona: “como você vai comer sem convidar seus amigo?”.

Para a rede social que respira controvérsias, foi um raro momento de união: a tradição sueca foi quase unanimemente criticada. Latino-americanos, africanos e indianos afirmaram ser impensável receber uma visita e não oferecer comida, ainda mais tratando-se de crianças. Excluir um convidado da mesa de jantar seria ofensa no Islã, que tem a hospitalidade como parte importante de sua cultura, lembrou outro. Chineses e coreanos expressaram sentimentos similares, contando histórias de serem forçados a comer para não ofender seus anfitriões, mesmo já cheios.

Um mapa que divide os países europeus de acordo com as probabilidades de um visitante ser alimentado por seu anfitrião também viralizou. Na costa mediterrâneo, a resposta é “quase sempre sim” e na Europa Oriental, “provavelmente sim”. Na Europa Central, “provável que não”. Já a Escandinávia aparece em vermelho: “muito provável que não”.

Estragos imagéticos

Vários suecos foram às redes explicar que sim, é comum encontrar quem não ofereça comida às visitas no país. Alguns disseram ser algo raro e outros, que nunca ouviram falar de algo assim. A cantora Zara Larsson foi ao TikTok esclarecer a situação:

— Quando era criança, era muito comum estar brincando na casa de amigos que te diziam: “vou jantar, volto em 30 minutos”. E te deixavam lá esperando na casa deles — disse a cantora de 24 anos.

Inevitavelmente, os internautas começaram a questionar os motivos dos suecos. Houve quem tachasse a cultura de “mesquinha” e chamasse os suecos de pão-duros. Mas os motivos da peculiar tradição também geraram curiosidade, ainda mais em um dos países com a renda per capita mais alta do planeta.

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Tradicionalmente, a Suécia é vista como um país defensor dos direitos humanos, vanguardista em políticas igualitárias e oásis do minimalismo. Nos últimos anos, contudo, tem aparecido no noticiário por sua controvertida resposta à Covid-19, disputa de gangues e atentados. Nem um deles, contudo, despertou tanta ira da internet quanto o imbróglio atual.

“Não acredito que o Reddit e o Twitter mudaram o jeito como o mundo olha para a Suécia”, diz um tuíte com mais de 140 mil curtidas. “Mais de 100 anos da Suécia sendo vista como um bom país para morar e uma captura de tela arruinou tudo."

A explicação para a aparente falta de hospitalidade sueca não é clara, mas há algumas teorias. Para Richard Tellstrom, professor associado da Universidade Sueca de Ciências Agrícolas, a discussão virtual revela “muito sobre nós mesmos e quem somos”.

Justificativa cultural

Ele explica que, por mais estranha que a tradição pareça para o resto do mundo, a prática não é um sinal de que os suecos são pão-duros. Ela diz respeito à maneira como as famílias se relacionam e à cultura de não ter dívidas com ninguém.

— Se seus filhos comem muito na minha casa, estará em dívida comigo. E isso deve ser evitado porque é ruim para nossa relação entre adultos.

De acordo com o professor, na mentalidade sueca, pode haver várias razões para não convidar à mesa os amigos dos seus filhos. Uma delas é que os responsáveis pela criança visitante podem ter planejado seu próprio jantar” — logo, oferecer comida “estragaria a oportunidade” da família se reunir. Também há uma aversão ao desperdício, e não é incomum que se cozinhe estritamente o necessário, sem que haja sobras para alimentar uma boca extra.

Também há razões históricas: quando a Suécia era muito mais pobre e a taxa de natalidade era maior, os pais que tinham dificuldades para pôr comida na mesa enviavam seus filhos para comer na casa de amigos. Por isso, o mero gesto de oferecer comida ao filho de alguém pode ser interpretado como um insulto:

— Oferecer é admitir que a outra família está passando por momentos difíceis — disse o historiador.

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