Murilo Benício sobre ser pai do próprio filho em ‘Amor de mãe’: ‘Fui o último a saber’

Naiara Andrade
1 / 6

1-Murilo-Benicio---Joao-Miguel-Junior

Murilo Benicio está de volta às novelas após cinco anos se dedicando a séries e ao cinema

No horário nobre e em família. Após cinco anos longe das novelas, Murilo Benício está de volta em “Amor de mãe” — história de autoria de Manuela Dias, sua namorada — como pai de Antonio Benício, seu filho na vida real. Emocionado com a oportunidade de presenciar a estreia do rapaz na TV, neste papo o ator fala sobre possíveis comparações com o rapaz; analisa seu personagem, bem-sucedido nos negócios mas perdido na vida afetiva; relata as primeiras experiências como diretor de cinema; e comenta o retorno de “Avenida Brasil” e “O clone” à TV, enquanto inicia o novo trabalho.

 

 

Você não fazia novelas desde “Geração Brasil” (2014)... Emendar duas séries (“Nada será como antes” e “Se eu fechar os olhos agora”) foi uma opção sua?

Não sei se foi natural ou planejado, mas foi acontecendo. Nesse intervalo, tive a oportunidade de dirigir dois filmes (“O beijo no asfalto” e “Pérola”). Novela dá tanto trabalho, que você fica até com medo de entrar em uma. É um ano de dedicação, em que não se tem vida. Mas estar fora me deu vontade de fazer de novo.

 

 

O que foi primordial para você ao aceitar fazer “Amor de mãe”?

Novela é um produto importante para a Rede Globo. Os atores não podem se distanciar tanto, e a emissora precisa dos bons profissionais. Apesar de o mundo estar mudando e as séries atacando, a novela ainda é o nosso carro-chefe.

 

Como analisa Raul, seu personagem?

Ele é um empresário bem-sucedido, que está repensando a vida, as decisões que tomou. Está num momento de viver diferente: por já conhecer o poder, procura a simplicidade. É aí que ele encontra Érica (Nanda Costa), e os dois se envolvem. Ela vem de uma realidade muito modesta, sem códigos sociais estabelecidos, onde o dinheiro é só o necessário para viver. Raul fica encantado!

Ele está em crise no casamento com Lídia (Malu Galli) e tem uma amante, Estela (Leticia Lima)... O cara vai ficar enrolado, não?

Engraçado... Ele é casado, tem amante e se separa porque se apaixona por uma terceira mulher. Mas eu não acho Raul mulherengo! Ele está num momento de tristeza... Se o cara tem uma amante é porque ele não está feliz. Estela é uma válvula de escape, mas ele vai se desvencilhar dela. Érica é tudo o que ele estava querendo, e esse encontro lhe traz brilho nos olhos. Malu defende tanto Lídia, personagem dela, que tenta me convencer de que Raul não vale nada (risos). Eu já acho diferente... Ele tem direito de buscar a felicidade de novo! Os dois foram casados por 20 anos, tiveram um filho, mas acabou.

Para construir esse homem, você pensou em alguma característica especial?

Não... Na verdade, Raul é um dos caras mais próximos a mim que já interpretei. De caráter, modo de pensar, inocência em querer o bem das pessoas e achar que tudo vai ficar certo. Desta vez, resolvi não me distanciar. Estou me emprestando mais a ele, sem me tapar tanto. Em “Amores roubados” (série de 2014), eu estava com uma barba gigantesca, usava sotaque... A gente costuma se apagar para virar outra pessoa. Agora, estou tentando atuar de modo simples e muito próximo a mim.

 

Você é curioso, gosta de saber o destino de seu personagem logo no início?

Nada! Eu nem ligo para o que vai acontecer, não pergunto. Pra mim, basta saber que o trabalho é bom. E já sei pelos capítulos que li. Está todo mundo feliz e empolgado com essa novela.

Você e Manuela conversam sobre trabalho em casa?

Não temos esse papo. Separamos vida pessoal e profissional naturalmente, não é nem uma questão proibitiva...

É a estreia de Antonio, seu primogênito, em novelas, no papel justamente de seu filho. A emoção é em dobro?

Antes de mais nada, já é o momento mais especial e importante da minha carreira. Mas fui o último a saber que ele tinha sido chamado pelo Zé (José Luiz Villamarin, diretor)! Antonio poderia ter me pedido pra arrumar um teste pra ele na TV, mas não. Quando recebeu o convite para a novela, ficou em dúvida, porque queria estar mais preparado. Aí, conversou primeiro com a mãe (a atriz Alessandra Negrini) e depois me ligou para saber o que eu achava. Falei: “Filho, um ator tem que pensar em fazer bons projetos, com pessoas interessantes. Você está entrando para a coisa mais importante da Globo, a novela das nove, num time que é uma seleção brasileira. Não tem o que pensar, tem que fazer! Depois a gente vê como vai ser esse lance de trabalhar junto”.

Você e Alessandra Negrini (mãe de Antonio) interferiram de alguma forma nessa escolha dele?

Zero! Nós só ajudamos a pagar as contas. Antonio faz teatro, ensaia, estuda pra caramba... Ele é formado, está vindo com estrutura. Não pousou aqui à toa e levou muito tempo para admitir que era isso o que queria. Tenho total certeza de que é muito autêntica a vontade dele de ser ator. Ser filho do Murilo Benício e da Alessandra Negrini não necessariamente é garantia de sucesso e dinheiro nessa profissão. Eu, pelo menos, fiquei com muito medo de ele achar que esse era o destino natural. Falo o tempo inteiro para os meus filhos (Antonio, de 22 anos, e Pietro, de 14, fruto da relação com a também atriz Giovanna Antonelli): a grande maioria das pessoas trabalha cinco dias da semana esperando os outros dois para se divertir. Meu conselho é: tente fazer o que você ama, porque vai acordar feliz toda segunda-feira. Não vai ter aquele negócio de “Graças a Deus, hoje é sexta feira”. Quando ouço isso, acho um absurdo!

 

Acredita que ele vai precisar de algum tipo de auxílio seu?

Acho que ele não vai querer que eu me meta. A última coisa que ele fez em São Paulo no teatro, não quis que eu visse. Eu respeitei, não fui. A gente fala sobre a profissão sob outros pontos de vista. Vamos juntos ao cinema e comentamos por que o filme ou o ator estão bons ou não. Acho, sim, que a gente vai estudar as cenas juntos. É um orgulho pra mim, que moro na Globo há 30 anos, poder estar recebendo Antonio e o apresentando às pessoas aqui. Posso ajudá-lo em tantas coisas teóricas e práticas com que eu tive dificuldade quando jovem... A começar pela temperatura gelada no estúdio, que me dificultava na emoção em cena. São coisas que fui aprendendo sozinho, ao longo dos anos.

As comparações podem incomodar?

Fisicamente, tem quem ache Antonio a minha cara. Já eu sempre o achei muito igual à mãe. No jeito, vi alguma coisa dele em vídeo, e ele tem uma personalidade muito própria atuando. Não acredito que vá ter comparação. Eu nunca entendi por que se dá um prêmio para um ator num festival. É tão subjetivo! Se você vê uma corrida, entende quem chegou em primeiro, segundo e terceiro lugar. Agora, atuação é algo muito pessoal. O que eu faço não pode ser feito por ninguém, embora outra pessoa faça a mesma coisa que eu. Entende?

E Pietro, seu caçula, já dá sinais de que quer ser ator também?

Ah, Pietro mora na brisa... Não quer nada com nada, bota no rosto aquele sorrisão lindo que puxou da mãe dele e conquista todo mundo. Estava no Tablado (curso de teatro) e saiu, porque estava atrapalhando o jiu-jítsu dele (risos). Ele só tem 14 anos...

 

Você tem se sentido realizado na função de diretor?

Com “O beijo no asfalto” (lançado em dezembro do ano passado), a gente não teve nem uma crítica morna. Recebi vídeos de pessoas aplaudindo o filme. Isso foi muito impactante pra mim. Não num lugar de vaidade, mas de falar “posso fazer isso”, e fiquei animado em continuar dirigindo. Sei muito menos do que os outros diretores de cinema, mas entendo muito o lado do ator.

Pensa em dirigir também na TV?

Televisão requer uma direção mais veloz. É uma carreira nova, ainda não estou pronto pra dirigir uma novela. Uma série, de repente, sim. Mas preciso ir devagar, adquirir mais experiência.

Agora, você se pega no set dando pitacos na direção alheia?

Não, de jeito nenhum! Inclusive, dou muito menos pitacos do que antes. Já os outros atores podem palpitar à vontade na minha direção. A melhor ideia vai sempre vencer, não importa de onde vier. Tenho vergonha de falar de uma atuação minha, mas não do orgulho que sinto de “O beijo”, porque ele não é só meu, foi um trabalho coletivo. Em “Pérola” (filme em montagem), Drica (Moraes, protagonista) me ajudou numa imensidão que ela nem sabe! É outro filme lindo! Eu queria lançá-lo no Dia das Mães (em 2020), mas é difícil, porque entrou a novela na minha vida e montar o filme virou hobby. Só faço quando posso.

 

Você não gosta de se ver atuando?

A maioria dos atores não gosta, na verdade. É que a gente espera atingir uma idade para parar de mentir (risos). Estou com 48 anos, já posso dizer que penso assim. Sinto prazer fazendo, mas não me vendo. Sou muito crítico, minha expectativa é tão alta que eu jamais vou alcançá-la. Então, eu nem vejo.

Você voltou a ser abordado nas ruas com a reprise de “Avenida Brasil” no “Vale a pena ver de novo”?

Eu nunca deixei de ser Tufão. Já fiz vários personagens de sucesso, que as pessoas chegavam a imitar, como Arthur Fortuna (de “Pé na jaca”, em 2006). Mas não tem jeito, é “Olha o Tufão aí!”. Voltou a novela, mas não mudou nada pra mim. Não sei se eles estão falando de antes ou de agora (risos).

E “O clone” também volta ao ar no canal Viva em dezembro...

Sério? Eu já estava em “Por amor” (exibida antes de “Avenida Brasil” no “Vale a pena ver de novo”). Não deveria estar fazendo “Amor de mãe”, né? Ninguém me aguenta mais! (risos).