Vazamento do Facebook é somente pequena parte da guerra nas redes indonésias

Ricardo Pérez-Solero.

Jacarta, 21 abr (EFE).- A Indonésia, terceiro país mais afetado pelo vazamento de informação em contas do Facebook, trava sua própria guerra propagandística nas redes sociais que envolve grupos como o Ciberexército Muçulmano (MCA, na sigla em inglês), com conexões com o radicalismo islâmico.

Os servidores da empresa de consultoria política britânica Cambridge Analytica contêm os dados de quase 1,1 milhão de usuários indonésios, segundo o cálculo da empresa de Mark Zuckerberg, um número reduzido em comparação com o total de usuários no país asiático, que supera os 115 milhões.

As revelações fizeram com que o ministro de Comunicação e Informação, Rudiantara, exigisse no começo de abril uma auditoria interna do gigante tecnológico e que a Câmara Baixa convocasse uma audiência pública com representantes regionais e nacionais do Facebook.

"Enfrentamos agora as eleições de 2018 e as presidenciais de 2019. Como vocês podem nos convencer de que são neutros e que os dados dos usuários não vão ser usados por terceiros?", perguntou a parlamentar Evita Nursanty.

A preocupação de Nursanty pode ser motivada pelas recentes detenções em matéria de segurança cibernética que colocaram em evidência o ápice da influência dos grupos radicais islâmicos no país com maior população muçulmana do mundo; 88% dos seus 260 milhões de habitantes.

No último mês de março a polícia indonésia deteve 14 suspeitos de pertencer ao MCA, um grupo formado por células filiadas independentes sem uma estrutura fixa, acusada de disseminar notícias falsas e incitação ao ódio.

O coordenador regional da Rede para a Liberdade de Expressão no Sudeste Asiático (Safenet, em inglês), Damar Juniarto, disse que as atividades do MCA têm conexão com partidos políticos, grupos islamitas e membros do exército.

"Não é fácil para a polícia expor estes grupos. Posso entender a situação na qual estão porque o MCA também é apoiado pelo PKS (o islâmico Partido da Justiça e Prosperidade) e o (grupo islamita) FPI, Frente de Defensores do Islã", disse à Efe Juniarto, em entrevista por telefone.

O conjunto de habilidades do MCA inclui o "doxing", ter acesso à informação privada de alguém e expô-la com fins maliciosos ou hackear conta inativa ou de pessoas mortas para publicar conteúdo a partir delas, entre outros.

O coordenador da Safenet estuda o grupo desde que apareceu na sua forma atual entre 4 de novembro e 2 de dezembro de 2016, período no qual começaram os protestos contra o ex-governador cristão de Jacarta, Basuki Tjahaja Purnama, que foram liderados pelo FPI.

Purnama, mais conhecido como Ahok e parceiro político do presidente da Indonésia, Joko Widodo, foi indiciado em novembro de 2016 e condenado em maio do ano passado a dois anos de prisão por blasfemar contra o islã.

As manifestações uniram na defesa da religião muçulmana os rivais políticos de Ahok e os grupos islamitas, provocando sua derrota nas eleições para governador de Jacarta em 2017.

O governo indonésio reagiu potencializando os departamentos contra o crime cibernético das forças de segurança e com a criação da Agência Nacional do Ciberespaço e Encriptação, que iniciou suas atividades em janeiro.

Mesmo assim, Juniarto adverte que o MCA continua ativo, em particular nas províncias mais povoadas de Java Ocidental, Java Central e Java Oriental.

"Como as figuras políticas e fundadoras por trás do MCA ainda precisam ser reveladas, parece que vamos enfrentar dois anos turbulentos e divisórios no futuro", lamentou o especialista. EFE