De musa e rainha a diretora de carnaval, cargo quase exclusivo dos homens na folia

RIO — Ela tem um metro e 65 de altura. E é puro poder. Musa do Salgueiro, Cris Alves já foi rainha do carnaval, rainha de bateria e viajou o mundo como profissional da dança do samba no pé. Agora, aos 45 anos, assume uma posição que, nas escolas de samba, é historicamente dominada pelos homens: tornou-se, em janeiro deste ano, diretora de carnaval da Acadêmicos da Diversidade, uma das 26 escolas que, neste fim de semana, desfilam na Intendente Magalhães, na Série Prata, a terceira divisão da folia carioca.

— Sou uma mulher negra, da comunidade. Nos concursos que participei ao longo da vida, sempre achei que disputar com beldades, às vezes meninas muito conhecidas, era um desafio enorme. Hoje, vejo que meu maior desafio é este. Comandar homens no carnaval às vezes é difícil à beça. Mas, com um jeitinho educado de ser, consigo fazer com que a escola ande. Estou indo bem — afirma Cris.

No cargo que ela ocupa, a responsabilidade é dar conta do todo de uma agremiação, como um elo entre os vários setores que põe um desfile na rua, do barracão aos ateliês de fantasias, passando pelos ensaios dos componentes. Por anos, era a função do saudoso Laíla, que comandou a Beija-Flor e, antes de morrer, a Unidos da Tijuca e a União da Ilha. Cris já era coordenadora da ala de passistas da Diversidade quando, em janeiro deste ano, foi convidada pela direção da escola a topar as novas incumbências.

— Para quantas ex-passistas e ex-rainhas eu não posso estar abrindo as portas? E quantos outros cargos nas escolas nós não podemos assumir? Na comunidade, ouvimos desde cedo que, depois de um certo tempo, vamos para a ala das baianas ou para a velha guarda. Mas há outros caminhos, podemos ir além nesse vasto mundo do samba. Podemos ser carnavalescas, diretoras artísticas, presidentes... — diz Cris.

De imediato, ela conta que bateu aquela insegurança, que a fez pensar que não tivesse experiência para o cargo. Porém, era ledo engano. Aos 5 anos ela já desfilava na ala das crianças da Acadêmicos do Cubango. Nos anos 1990, trabalhou como aderecista na Viradouro, onde também foi passista. Integrou, inclusive, a equipe campeã de Joãozinho Trinta no carnaval de 1997. Ao migrar para o Salgueiro, venceu duas vezes os antigos concursos de musa do Caldeirão do Hulk, da TV Globo. Em 2012, foi eleita rainha do carnaval do Rio, posto de majestade que ocupou também em folias na Suécia e na Alemanha. Como rainha de bateria, já esteve à frente, só para dar exemplos, dos ritmistas da Cubango e da Cabuçu. E essa é só parte do currículo que ela acumulou em sua vida de carnaval.

— Como coordenadora da ala de passistas da Acadêmicos da Rocinha, já cheguei a produzir as fantasias na minha casa — conta ela.

Para este carnaval, ainda sob o impacto da pandemia que impediu os desfiles de 2021 e adiaram os de 2022 para abril, ela conta que uma das grandes missões que tem enfrentado é a de convencer componentes a desfilarem na Intendentes.

— Não está diferente para ninguém. Precisamos trabalhar o emocional das pessoas. Ir de porta em porta chamando para desfilar, dizendo que há segurança para que as pessoas tenham confiança de sair de casa e se expor. É um carnaval de superação, um desfile para extravasar — diz a diretora.

E em sua escola, avisa ela, há espaço para todos. Como diz o próprio nome da agremiação, nasceu para ser o lugar não só da diversidade sexual ou de gênero.

— Este ano, por exemplo, teremos pessoas na frente da bateria cantando o samba em linguagem de sinais. Na Diversidade é assim. Nosso conceito é dar espaço a todos. Todo mundo é perfeito aqui. Qualquer pessoa pode virar destaque de carro alegórico, desfilar na bateria... Essa é a nossa diferença — arremata Cris, cujo sonho, para o futuro, é administrar uma escola de samba.

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