Museu do Ipiranga se atualiza e discute representação dos bandeirantes para reabertura em setembro

A chegada de caixas e caixas de madeira com quadros, esculturas e outras peças se mistura ao som de máquinas e operários para anunciar que o acervo está de volta ao Ipiranga. O museu mais antigo de São Paulo se prepara para reabrir as portas em 7 de setembro, no Bicentenário da Independência, após quase dez anos fechado e uma ampla reforma. Durante o período, a sociedade mudou, debates se acirraram e a instituição busca se atualizar para a volta.

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De cara, na forma, com a triplicação da área de exposição, restauros minuciosos e a inclusão de recursos de acessibilidade. Depois, no conteúdo, com a concepção de mostras que pretendem provocar discussões sobre a representação de figuras históricas, inclusive presentes em obras do próprio museu.

A começar pelos bandeirantes, retratados em esculturas de mármore logo na entrada e na escadaria monumental que leva ao salão nobre da instituição também conhecida como Museu Paulista. As peças integram o Eixo Monumental, criado no Centenário da Independência, em 1922, e tombado, ou seja, ele não pode ser modificado.

— As pessoas iniciam a visita inescapavelmente pelo saguão onde estão os bandeirantes, depois a escadaria e o salão nobre — diz Vânia Carneiro de Carvalho, coordenadora-geral das exposições do Ipiranga. — E esta não é uma área tombada por ser resquício ou para legitimar uma atitude conservadora. É um documento tridimensional, criado nos anos 1920, de uma visão de formação do país e do papel de São Paulo. Mas, para a reabertura, era preciso preparar os visitantes para os temas retratados ali. Discutimos muito sobre isso.

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A solução foi criar uma espécie de “sala de boas-vindas”, um espaço de introdução com textos, imagens e projeções que apresentam o museu e oferecem contrapontos sobre a abordagem de figuras tão questionadas hoje como os bandeirantes. E sobre a representação, quase sempre submissa, de indígenas e negros escravizados.

Visões opostas

Um dos exemplos é o quadro “Ciclo da caça ao índio” , de Henrique Bernardelli, destacado na escadaria, ao lado de uma estátua de Dom Pedro I. A pintura, encomendada pela elite paulista, representa um bandeirante imponente, tal qual um monarca. No novo material multimídia, ela será justaposta a outra obra do mesmo artista, de 30 anos antes, “Os bandeirantes”, do acervo do Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), no Rio. Nela, Bernardelli representa os bandeirantes bebendo água do chão, como se fossem animais, observados por indígenas.

— Afinal, qual deve ser a representação dos bandeirantes? Animalizada ou heroica? Depende de quem a encomendou, da relação com o poder político que contratou a imagem — diz Paulo Garcez Marins, professor e curador no museu. — Devemos resistir à sedução de que existe uma narrativa certa ou errada. Precisamos debater as narrativas históricas. Esse espaço é um lugar de exercício, para discutir sem destruir.

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A referência é ao movimento de derrubada de monumentos que envelheceram sócio e politicamente que tomou o mundo. No ano passado, ele chegou a São Paulo, com o incêndio da estátua do bandeirante Borba Gato, na Zona Sul da capital. Não por acaso, o Ipiranga promoverá debates sobre o que os historiadores frisam ser “uma” e não “a” História do Brasil. Assim, o quadro “Independência ou Morte”, uma das peças mais populares do acervo, é apresentado não como retrato fiel do passado, mas como “uma imagem do pintor Pedro Américo" (sobre a Independência).

Uma pesquisadora do Ipiranga foi destacada para percorrer acervos e museus da Europa, onde o autor estudou, para detalhar suas inspirações — a mais notória , o quadro “Batalha de Friedland” do francês Ernest Meissonier. A menção aos mestres não é vista como demérito, mas apresentada como “prática dos pintores do século XIX".

— Já vimos tanto esse quadro que pensamos que a cena foi daquele jeito. Mas não é “a” História do Brasil. Ele tem sua própria história, as coleções têm sua própria história. E mostramos isso a partir de muita pesquisa, recursos multimídia, ferramentas que permitem ao público se aproximar das peças de uma maneira nova – diz Marins.

Na reabertura serão expostos cerca de quatro mil itens. Rampas de acessibilidade foram construídas na lateral do edifício-monumento, pisos táteis guiarão visitantes cegos ou com baixa visão pelas exposições, a iluminação e os estímulos nas salas foram adequados a pessoas autistas, e os vídeos já trarão, como padrão, interpretação em libras — quem não quiser, terá que desabilitá-la, e não o oposto.

— O que marca nossa sociedade hoje é a diversidade. E o processo de pensar nossas exposições precisa ser feito a partir de múltiplos olhares e de variedade de linguagens — diz Denise Peixoto, historiadora e educadora do museu há 20 anos.

Nos últimos anos, o museu já buscava integrar às salas de exposição esculturas, telas e outros objetos que pudessem ser tocados pelos visitantes. Na reinauguração, haverá cerca de 300 peças táteis, em mesas que dialogam com as vitrines das mostras — entre elas, algumas em pedra, metais e telas em alto relevo.

— Em uma delas, vamos inclusive decompor a imagem dos bandeirantes pra mostrar que se trata de uma construção. Não é verdade, não é mentira, é uma representação que atende aos anseios da época — diz a historiadora.

Na preparação para a reabertura, o museu promoveu encontros com vinte grupos diversos, de professores a crianças, adolescentes, pessoas autistas, cegos, integrantes de movimentos LGBTQIA+, indígenas, negros, monarquistas, entre outros.

— O objetivo era abrir um espaço de escuta, refinar os textos e contrapontos, mas também pensar em como a instituição pode construir uma aproximação com diferentes grupos sociais, criar canais de participação e diálogo através das exposições — conta Denise Peixoto.

É um processo, diz, que continuará após a reinauguração, com a abertura de editais para que outros contrapontos sejam pensados e incorporados às mostras:

— Nada está dado, nem fechado.

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