Museu Nacional enterra cápsula do tempo para abertura em 2072

Mensagens de carinho, anseios, universos coloridos de imaginação e a esperança de um mundo melhor. Um recado para a posteridade. Foi concretada em frente à sede do Museu Nacional, nesta sexta-feira, uma cápsula do tempo que somente poderá ser aberta em 2072, quando as próximas gerações vão revisitar os artigos ali colocados por pesquisadores e crianças de hoje. São mais de 100 itens, entre cartas, objetos, livros e pedidos com o objetivo de construir, na população do futuro, reflexões sobre os 50 anos passados.

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Idosos, adultos e crianças se encontraram no evento que marcou a selagem da cápsula no solo. Estudantes do Ensino Fundamental no Colégio Pedro II acompanharam de perto e contribuíram com o fechamento da urna de 55cm x 61cm x 43cm, feita em aço inoxidável com revestimento interno em polipropileno, projetada pelo Instituto Nacional de Tecnologia (INT), parceiro do Museu Nacional/UFRJ no projeto.

Entre os objetos inseridos pelos pesquisadores do Museu Nacional, destaca-se uma réplica de Luzia, crânio de uma mulher que viveu há mais de 11 mil anos e foi recuperado dos escombros após o incêndio do museu, em setembro de 2018. Também foi enterrado na cápsula um dente de uma baleia cachalote de 15,5 metros e três pedras de quartzo — primeira doação de uma pessoa desconhecida para a reestruturação do museu. Além disso, o museu também inseriu na urna um livro com assinaturas e uma escultura feita com as cinzas do incêndio.

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Na placa de concreto colocada acima da cápsula, uma orientação: “todos que por aqui passem, protejam esta cápsula que guarda a memória da ciência, da tecnologia e da cultura de seu tempo e aponta as expectativas para o futuro da nação brasileira”. Diretor do Museu Nacional, Alexander Kellner conduziu, emocionado, a solenidade. Ele também colocou na cápsula uma carta, com conteúdo secreto, a ser lida somente pela pessoa que estiver ocupando a diretoria da instituição em 2072.

— Fizemos um documento para falar com as crianças do futuro, com a comunicação do futuro, com os curadores do futuro. Eu mesmo escrevi uma e só o diretor ou diretora vai ler. São momentos que não somente levam a gente a uma reflexão em 50 anos, mas que permitem pensar em tudo o que aconteceu. Nas coisas boas e nas que talvez não tenham funcionado — afirma o diretor.

E a cápsula carrega um simbolismo ainda maior para o diretor, que lembra do incêndio no Museu Nacional como um marco e considera o projeto um ato de renovação na busca pelo restabelecimento total das atividades na instituição, que está previsto para 2027, mas, segundo Kellner, promete surpresas antes de 2025.

— Justamente quando a instituição científica mais antiga do país estava completando 200 anos, vivenciamos essa tragédia que foi o incêndio de 2 de setembro de 2018, e isso certamente está refletido nos anseios, nas preocupações e nas reflexões. Temos que cuidar do patrimônio científico e cultural do país. Estamos trabalhando para devolver o museu nacional para a sociedade — lembra.

Presente e futuro

A estudante Maria Luiza do Desterro, de 11 anos, estava acompanhada da mãe, a educadora Patrícia Braga, de 44 anos, que trabalha no museu. A pequena acredita que a cápsula vai surpreender as pessoas no futuro, e garante que estará presente, aos 61 anos, para acompanhar a abertura.

— Vamos colocar desenhos, cartinhas e coisas que as pessoas gostam, para guardar. Vou ter 61 anos e vou vir aqui para ver. Eu acho legal porque as pessoas do futuro vão olhar e pensar “nossa, que desenho interessante — diz Maria.

Para a mãe, o projeto é uma chance de mostrar que as crianças não são apenas o futuro, e que, na realidade, os pequenos já têm papel fundamental na construção da sociedade.

— Acho importante a gente levar em consideração e ouvir as crianças, o que elas trazem das experiências delas, das vivências, e não ter essa ideia de criança só no futuro. As crianças já são e estão no presente testemunhando tudo o que tá acontecendo — conta.

Diretora do INT, Iêda Caminha colocou na cápsula, em nome da instituição, elementos marcantes para a evolução da ciência e da tecnologia no Brasil. Para ela, é importante que as futuras gerações possam enxergar como a pesquisa caminhou ao longo do tempo e o valor de cada passo tecnológico dado durante o período. O INT esteve presente na colocação de uma primeira cápsula enterrada em 1972 para abertura este ano, de responsabilidade da Prefeitura do Rio e sem data prevista para solenidade.

— Vamos depositar uma escultura representativa do nosso centenário, que é o primeiro carro movido a álcool no Brasil, da década de 1920. Temos uma réplica de múmia egípcia em tamanho reduzido, feita com as cinzas do museu. E também um exemplar da prótese de quadril usada hoje, que é uma das nossas linhas de pesquisa, mostrando que a forma convencional como a gente trabalha com esses dispositivos médicos está sendo superada, e um material, que é o grafeno, considerado estratégico e objeto de nossos próximos projetos — explica.

O Instituto inseriu na urna alguns livros que apontam pesquisas em parceria com o Museu Nacional, e uma carta, em nome da diretora, onde é relatado todo o processo e as expectativas.