Museu do Pontal abre nova sede no Rio após sofrer por dez anos com inundações

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***ARQUIVO***RIO DE JANEIRO, RJ, 30.01.2015: Obra dos artistas conhecido como
***ARQUIVO***RIO DE JANEIRO, RJ, 30.01.2015: Obra dos artistas conhecido como

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Quando a chuva inundou pela sétima vez a antiga sede do Museu do Pontal, em 2019, Lucas Van de Beuque viu esperança no que parecia uma tragédia. Diretor executivo da instituição, ele foi pego de surpresa pela mobilização que se formou para reerguer aquele que é considerado o principal museu de arte popular do Brasil.

Para salvar seu acervo, a instituição lançou financiamentos coletivos que receberam respostas calorosas do público. Além da doação de empresas, mais de mil pessoas decidiram contribuir. "Isso aponta para a generosidade das pessoas. É a antítese desse momento em que a gente está vivendo, onde parece haver uma política de ódio e de batalhas", diz ele.

Na semana que vem, em 9 de outubro, o público poderá enfim ver o resultado do esforço para salvar a instituição. A data marca a inauguração da nova sede do museu e o fim de uma questão que se arrastou pela última década.

Há uma década, começou a ser erguido nos arredores da antiga sede, no Recreio dos Bandeirantes, na zona oeste do Rio de Janeiro, um grande condomínio para as Olimpíadas. Como o empreendimento foi feito sobre um aterro, a Casa do Pontal, no mesmo bairro, acabou ficando um metro e meio abaixo do nível da rua. Desde então, as inundações se tornaram frequentes.

A prefeitura carioca entendeu ter responsabilidade no problema e cedeu em 2015 um terreno para a nova sede do museu, na Barra da Tijuca, também na zona oeste. O governo municipal ainda se comprometeu a arcar com a maior parte da construção do novo prédio com o dinheiro do pagamento de dívidas da construtora Calper. As obras tiveram início há cinco anos.

No ano seguinte, porém, a construção parou após a Calper pedir recuperação judicial. Sem outra alternativa, o museu começou a lançar financiamentos coletivos para erguer a nova sede. Segundo Van de Beuque, a obra custou R$ 20 milhões, dos quais 75% vieram de apoiadores da instituição e 25% da prefeitura.

Com 2.600 metros quadrados, o novo prédio tem grandes janelas que trazem a paisagem do entorno para dentro do museu. É como se o limite entre área interna e externa se confundisse, convivendo em um único ambiente. "Essa ideia estética tem a ver com o nosso entendimento da arte popular como uma correlação intrínseca entre arte e natureza", afirma Angela Mascelani, diretora-artística do museu.

Além disso, conceitos de sustentabilidade permeiam o novo prédio. Só 30% do museu exige uso de ar-condicionado, já que a estrutura foi projetada para privilegiar a ventilação natural. A água da chuva é reaproveitada para regar os jardins, e o lixo passa por coleta seletiva.

A preocupação em estabelecer um diálogo com o meio ambiente já estava presente na escolha do escritório responsável pelo projeto. A missão coube aos Arquitetos Associados, escritório mineiro que assinou o pavilhão brasileiro da Bienal de Arquitetura de Veneza deste ano e que ficou conhecido por projetar as galerias de Miguel Rio Branco e Claudia Andujar, entre outras, no Instituto Inhotim, em Minas Gerais.

Na antiga sede, os jardins que cercavam o museu chamavam atenção pela exuberância. No prédio que o público vai conhecer na semana que vem, a paisagem também é um elemento central. "A experiência de ir à antiga sede era muito amplificada pelos jardins. Então a gente quis de algum modo que essa experiência permanecesse", diz Paula Zasnicoff, sócia-fundadora do escritório.

Para compor o jardim, foram usadas mudas de 73 espécies nativas. O projeto paisagístico é assinado pelo Escritório Burle Marx.

O museu reabre com seis exposições, uma delas em homenagem a Jacques Van de Beuque, designer francês que fundou a instituição em 1976. Formado por mais de 9.000 obras, das quais 2.000 estarão em exposição, o acervo reúne expoentes da arte popular brasileira, como Mestre Vitalino e Izabel Mendes da Cunha.

Em sua maioria, são peças feitas de barro, madeira ou papel machê que contam a rotina e as tradições de comunidades interioranas. Há esculturas que retratam o trabalho de ambulantes, que saem à rua vendendo frutas e doces. Outras mostram retirantes com seus pertences sobre a cabeça rumando para outras regiões.

A impressão que se tem é que as peças estão em constante movimento, como se a vida se desenrolasse bem ali. "É a história do Brasil observada sob o ponto de vista desses artistas, que vêm da cultura da oralidade. A importância do acervo é tornar mais complexa a narrativa histórica e incluir esses sujeitos que não eram incluídos", diz Angela Mascelani, a diretora-artística.

Doutora em antropologia e especialista em arte popular, Joana Corrêa faz coro. Segundo ela, o museu ajuda a visibilizar manifestações artísticas que eram ignoradas pela maioria das instituições. "São artistas que não passaram pelos meios formais e que trazem um olhar para essa diversidade brasileira, para o mundo rural em contraste com o urbano. É um patrimônio inestimável, porque são peças muito frágeis", afirma.

De fato, as obras se impõem por aquilo que elas têm de delicado, quase como se fizessem um contraponto à dureza desses tempos. "Nesses períodos, só a delicadeza é capaz de transformar. Ela faz uma oposição tão extrema que a gente consegue ir para outro universo", diz Van de Beuque. "A delicadeza é o que permite rachar esse contexto."

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