Museu do Samba faz ato simbólico em defesa do carnaval e para lembrar vítimas da Covid-19

Geraldo Ribeiro
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No dia em que, em tempos normais, a chave da cidade seria entregue ao Rei Momo abrindo oficialmente o carnaval carioca, uma cerimônia simbólica realizada nesta sexta-feira no Museu do Samba, na Mangueira, serviu para marcar a data, mas também para lembrar as vítimas da Covid-19, entre elas muitos sambistas. Sob as bençãos da estátua de Cartola, a solenidade contou com um grupo restrito de participantes e sem a presença do público, para evitar aglomeração.

Duas baianas, que participavam da lavagem da Marquês de Sapucaí, fizeram uma espécie de “lavagem espiritual” da entrada do espaço cultural. O ato também foi de defesa do carnaval, dos sambistas e dos trabalhadores da folia.

A cerimônia começou com os participantes, acompanhados da batida de um surdo, cantando sambas históricos como “A voz do morro”, de Zé Ketti; e “Agoniza mas não morre”, de Nelson Sargento, presidente de honra da Mangueira e um dos presentes. Presidente do Conselho Deliberativo do Museu do Samba, o compositor Tiãozinho Mocidade disse que o momento era de condolência pelos que perderam suas vidas para o coronavírus. Lembrou ainda que o carnaval não é só festa, mas também um espaço de geração de empregos.

—O carnaval é alegria e festa, mas também gerqa renda para muitas famílias — destacou.

A fundadora do Museu do Samba Nilcemar Nogueira destacou que o desfile de carnaval é mais que uma festa. É também um ano político e que a não realização do desfile esse ano serve para chamar a atenção para fragilidade das relações de trabalho de quem vive do samba não só durante a folia, mas no ano todo:

— Quando as escolas vão ocupar esse território desfilando, é o momento que chamam a atenção para sua existência. Nesse momento, o não desfile reflete as fragilidades das relações de trabalho e a questão da categorização dos trabalhadores de carnaval que precisa ser vista. O não carnaval chamou a atenção para uma agenda que precisa urgentemente ser tratada. É um misto de tristeza por esse momento de catarse, mas também dá visibilidade a esses problemas que a gente enfrenta hoje, porque carnaval não é só festa. Carnaval é modo de vida, sobrevivência e identidade — disse.

Gracy Mary Moreira, bisneta de Tia Ciata, em cujo quintal nasceu “Pelo Telefone”, o primeiro samba gravado, cobrou ações do poder público para ajudar os sambistas sem renda neste ano sem os desfiles oficiais na Sapucaí. Geisa Keti, filha de Zé Keti também reivindicou políticas públicas para atender as demandas do mundo do samba.

Ao final do ato simbólico de abertura e defesa do carnaval carioca, num ano sem os desfiles oficias das escolas de samba na Sapucaí e dos blocos pela cidade, as batidas do surdo lembraram os mais de 236 mil brasileiros mortos pela Covid-19, entre eles muitos sambistas:

— O ato é também uma maneira da gente mostrar nosso pesar pelas vítimas da Covid, a perda de muitos sambistas e a banalização como foi tratada a saúde do povo brasileiro — criticou Nilcemar Nogueira.

Desfile de luzes e cores no Sambódromo

Num ano sem a festa de carnaval, o Sambódromo, principal palco da folia na cidade, receberá um desfile de luzes e cores. A partir desta sexta-feira, uma iluminação especial colorirá a Marquês de Sapucaí e Praça da Apoteose, num tributo às vítimas da Covid-19.

Os testes foram feitos na noite desta quinta-feira. A inauguração oficial será nesta sexta, às 18h, com uma cerimônia que terá a participação do prefeito Eduardo Paes. A ideia é que a homenagem seja direcionada, sobretudo, aos mortos pelo coronavírus vinculados ao mundo do samba.

A iluminação especial, inspirada nas cores das escolas de samba, será acesa à noite, e o show de luzes continuará até a 0h, todos os dias, até o sábado posterior à quarta-feira de cinzas, dia 20 de fevereiro, quando aconteceria o Desfile das Campeãs. A iniciativa é capitaneada pela Riotur.