Museus nos EUA coletam objetos para contar história da pandemia no país

DIOGO BERCITO
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WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - A pandemia da Covid-19 segue depredando o mundo. É um evento corrente. Mas é história, também. Desde o início de 2020, quando ficou claro que o vírus mudaria o mundo, museus nos Estados Unidos começaram a coletar objetos para contar às gerações futuras como o país viveu este desastre. O Instituto Smithsonian, por exemplo, recolheu em março as ampolas das primeiras vacinas utilizadas contra a Covid-19. São itens, nesse caso, que contam a poderosa história de como cientistas desenvolveram a tão aguardada imunização contra um vírus que já matou mais de 3 milhões no mundo. O Smithsonian, que administra 19 museus, tem uma das maiores coleções de medicina do mundo. Seus curadores perceberam de imediato, portanto, que a Covid-19 teria de integrar seu acervo --e em uma posição de destaque. Já em janeiro de 2020, antes mesmo de as autoridades sanitárias decretarem a pandemia do coronavírus, o instituto pediu que americanos doassem objetos que mostrassem como o vírus havia infectado suas rotinas. "Com esse tipo de artefatos, nós podemos entender melhor o passado e ter mais empatia por aquilo que as pessoas viveram", diz a curadora Alexandra Lord, uma das pessoas por trás da iniciativa. "Assim, nós conseguimos entender como é que chegamos ao ponto em que estamos." A coleção montada em torno da pandemia deve integrar uma exposição sobre a história da medicina prevista para 2022 nos museus do Smithsonian. Além das ampolas, esse instituto coletou os materiais de proteção usados por médicos e enfermeiros ao redor do país. São objetos, Lord diz, que ilustram a dura condição em que esses profissionais trabalhavam, por vezes sem o equipamento necessário --e como precisavam, inclusive, improvisar. Lord estima que já recebeu mais de 500 ofertas de doação desde que pediu, há um ano, que o público contribuísse com objetos de seu cotidiano pandêmico. O processo de avaliar cada item deve demorar, no entanto, principalmente porque os funcionários da instituição estão trabalhando de casa. O Smithsonian é apenas um entre tantos outros museus americanos dedicados a essa empreitada. Até porque, a curadora afirma, nenhuma instituição conseguiria contar essa complexa história sozinha. Há projetos parecidos, ademais, também em outras regiões do globo, como em países europeus. A Associação Histórica de Nova York, por exemplo, também tem um programa robusto. Um dos itens mais doados, diz a diretora Margi Hofer, são as máscaras que a população aprendeu a usar. São objetos, ela afirma, que dão conta da criatividade das pessoas que criaram a sua própria proteção. A associação conta, também, com fotografias da cidade vazia, fantasmagórica no isolamento social. Há ainda itens que registram como os empreendimentos se adaptaram à pandemia --por exemplo, a coleção tem garrafas de álcool em gel produzidas por empresas que antes faziam bebida. Não é corriqueiro que um museu lide com tamanha intensidade com a história do presente. De certa maneira, a pandemia da Covid-19 achatou o tempo. Dias correm com tanta excepcionalidade que parecem pular quase de imediato aos livros de história. Vem daí a urgência de registrá-los agora. Alguns museus, porém, já têm alguma experiência. A Associação Histórica de Nova York, por exemplo, começou a coletar objetos contemporâneos depois dos atentados de 11 de Setembro. Houve esforços, também, para recolher artefatos ligados aos protestos contra o mercado financeiro em 2011(o Occupy Wall Street) e às manifestações contra o racismo (o Black Lives Matter). Mas a pandemia da Covid-19 tem outra dimensão, diz Hofer. Parte do desafio deste momento é a sua longevidade. Não apenas porque o vírus segue pilhando o mundo, mas também porque a vida tem mudado a cada mês. Se no início o intuito era registrar como era a rotina sob o isolamento social, o importante agora é gravar a experiência da vacinação. Esses museus esperam que, cumprida a sua missão, evitem o que aconteceu com a gripe espanhola de 1918. Naquela ocasião, houve pouco esforço para coletar a história contemporânea. Foi justamente essa carência que levou a curadora Tobi Voigt, do Centro Histórico de Michigan, a recolher objetos da Covid-19. "Há registros oficiais sobre 1918, mas não sabemos como era o cotidiano", diz. "Os museus mudaram bastante, desde então." Uma das mudanças é que instituições como a de Voigt se preocupam, hoje, em contar histórias interseccionais --levando em conta as diversidades de raça, gênero, origem etc. "Percebemos que muito do que nós temos no acervo fala apenas de só um segmento da população: os homens brancos", afirma. Com isso em mente, a equipe de curadores tem abordado os diferentes grupos que moram no estado de Michigan para contar suas histórias. Nos últimos meses, porém, o número de pessoas interessadas em doar artefatos diminuiu. Menos pessoas estão isoladas em casa. Além disso, a longevidade da pandemia fez do excepcional algo mais corriqueiro. Voigt diz que busca, agora, maneiras de convencer o público a participar do projeto sem, no entanto, cutucar as feridas de quem tanto sofreu neste último ano --evitando, assim, que vítimas tenham que narrar outra vez as suas dores. O museu do condado de Ventura, na Califórnia, é outro dos tantos na empreitada de registrar a história desta pandemia. Segundo Deya Terrafranca, que é diretora da biblioteca local, cerca de 50 pessoas já fizeram doações. Contaram suas histórias, entregaram obras de arte e fotografias, por exemplo. "Queremos entender como a vida das pessoas mudou", diz. "O governo terá todas as estatísticas, nós vamos saber quantas pessoas foram infectadas e quantas morreram. Mas como vamos saber o que as pessoas estavam fazendo em casa? Como coisas simples, como uma lista de compras, mudaram?" A coleta desses objetos tem de ser veloz. O tempo, achatado, mistura passado e presente. Mas os museus têm uma vantagem que jornalistas não têm, diz Lord, do Smithsonian. "Os repórteres precisam cobrir a história enquanto ela acontece. Nós podemos trapacear. Podemos dar um passo para trás e pensar, avaliar o que é realmente importante. Olhando para esses objetos daqui a dois, três anos, entenderemos melhor o que estava acontecendo."