De museus a rodovias, novos ativistas agitam o debate climático

Obras de arte sujas de sopa, interrupções de eventos esportivos, bloqueios de estradas: com ações inovadoras, os novos ativistas da desobediência civil instalaram o debate sobre o descaso climático e assumiram o risco de incomodar parte da opinião pública.

Os grupos "Just Stop Oil" no Reino Unido, "Ultima Generazione" na Itália ou "Dernière Rénovation" na França, ou ainda integrantes da Rede A22, presente em 11 países ocidentais e financiada pelo Climate Emergency Fund, estão intensificando suas ações.

Dois militantes colaram no sábado (05) suas mãos em pinturas de Goya, em Madri, e pintaram "+1,5ºC" na parede, referindo-se à meta de aquecimento global estabelecida pela comunidade internacional.

Em Paris, uma dúzia de militantes do Dernière Rénovation bloquearam o trânsito perto do Ministério da Economia francês, enquanto em Toulouse outros ativistas do grupo interromperam um jogo do torneio francês de rugby por cerca de 10 minutos, amarrando-se aos gols.

Já no aeroporto Schiphol de Amsterdã, ativistas bloquearam a área de estacionamento de aviões particulares por três horas.

"Estamos enfrentando o maior episódio de sofrimento e injustiça da história da humanidade e nossa janela de oportunidade está prestes a se fechar", explicou Dernière Rénovation em um manifesto.

Essas ações estão longe de ter apoio unânime, mesmo no campo ambiental.

"O clima merece mais do que esta caricatura idiota", reagiu o ex-candidato ecologista francês Yannick Jadot, após um ataque com sopa ao quatro "Girassóis" de Van Gogh.

- Desespero -

"Há tantas pessoas tentando desacreditar a luta contra as mudanças climáticas, por que quer dar a elas mais munição?", perguntou o cientista político belga François Gemenne.

O acadêmico, que contribui para os relatórios científicos da ONU sobre clima, pediu mudanças nas ações e considerou o ataque às obras de arte como "catastróficas".

"Para os críticos, eu diria o seguinte: se você não gosta do que eles estão fazendo, não pare nas palavras e faça algo que pareça melhor, mais positivo e mais eficaz", disse Rupert Read, professor da Universidade de East Anglia e ex-porta-voz da Extinction Rebellion, outro grupo ambientalista adepto da desobediência civil.

Nessas ações, "o que conta é separar o objeto da ação para dizer: 'Ouça, vamos assumir tudo, até a arte mais sagrada, porque a morte nos espera se não fizermos nada'", comenta Xavier Arnauld de Sartre, geógrafo de Centro Nacional Francês de Pesquisa Científica.

- Diversificação -

“No curto prazo, tem um alto custo de imagem”, reconhece o acadêmico, “mas, ao mesmo tempo, esses jovens podem querer assumir o radicalismo e fazer os radicais de ontem parecerem pessoas respeitáveis com quem você pode conversar”.

"Há muitos exemplos desse efeito na história", diz Read. "Mas você tem que ter cuidado, as ações também podem ser contraproducentes", aponta e adverte os ativistas: "sempre tentem fazer ações que façam sentido para as pessoas comuns e, se possível, que sejam bonitas".

"Não acho que essas ações causem mudanças de comportamento" na população, opina o sociólogo Stéphane La Branche, de Quebec, mas contribuem para a "diversificação" das formas de alertar sobre a emergência climática.

Diante do perigo e da urgência de agir, até onde vai a desobediência civil?

La Branche teme que seja apanhado por grupos que realizam ações violentas ao lado de não violentos, sob o risco de desacreditar os ambientalistas.

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