Não é 'brincadeirinha', é assédio: saiba identificar a agressão escondida em falas do dia a dia

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Ligue o alerta se você, mulher, ouviu introduções típicas de falas masculinas como "Com todo o respeito, mas...", "Olha, é só brincadeira, tá?", "Não me entenda mal, mas...". Provavelmente, o que vem a seguir te deixará desconfortável. E mais: sob os disfarces de "comentários bobos", de alguém "brincalhão" e que "te adora", muitas vezes se encondem variadas formas de assédio sexual. O tal "mas era só uma brincadeirinha" virou argumento de defesa de homens contra muitos relatos ao setor de compliance de empresas, por exemplo, numa coletânea de denúncias de assédios morais e sexuais de homens a mulheres. Mas como identificar se o que te constrangeu ultrapassou ou não o limite da relação estabelecida?

Vera Martins, educadora e pesquisadora na área de comportamento humano, facilita: "Quando é brincadeira, todo mundo ri e se diverte, né?". De fato, a primeira pista de que há algo errado no que foi dito está no constrangimento experimentado.

- Nas brincadeiras, todo mundo se diverte em pé de igualdade, não há intenção de ferir nem constranger ninguém, o ambiente fica descontraído. Há um senso comum, um acordo. No assédio, só o assediador se diverte. A mesma dinâmica do consentimento vale para separar o que é assédio de sedução. O jogo de sedução é lindo, cria-se ali uma conexão, diferentemente do assédio. No jogo de sedução, há um acordo, uma permissão de ambas as partes, uma comunicação entre duas pessoas que mobilizam os mesmos circuitos neurais, no que chamamos de "neurônio-espelho", criando uma sintonia - explica Vera, acrescentando que, quando uma pessoa se sente ameaçada, o cérebro aciona uma espécie de "alarme", em uma febre emocional que aumenta o nível de estresse, faz com que o corpo produza hormônios e adrenalina e fique "ligado" para o caso de ter de atacar e fugir. Um mecanismo natural de sobrevivência.

Autora de três livros - entre eles, "Seja assertivo", a pesquisadora afirma que a mulher não deve ignorar o soar de alarme, ainda que ele possa ser falso e partir duma reatividade excessiva de algumas mulheres cujas inseguranças fazem com que elas fiquem numa eterna defensiva. E que, uma vez identificado o contexto de assédio, é necessário uma assertividade no "não", na evidência e comunicação do desconforto.

- Muito homem é assediador e nem percebe, passsa impune. Igual à corrupção. Mas nos últimos anos a identificação do assediador ficou mais clara, se antes a gente não sabia dos mecanismos, hoje a gente reflete e debate sobre eles, sobre práticas que se repetem com muitas mulheres. Mas, soado o alarme, é preciso validar as sensações de percepção sobre aquela situação, para entender se é apenas um preconceito e aquilo foi uma brincadeira mesmo, ou se se está de fato diante de um assédio. Pergunte-se: o que me causaesse medo? O que me leva a acreditar que isso é um assédio sexual? A pessoa sótem esse comportamento comigo ou com todas as mulheres? - explica Vera, que preparou para leitores de O GLOBO, um passo a passo de "como ser assertiva e estabelecer limites ao assédio sexual disfarçado de 'brincadeira'".

- Há muito assédio em diferentes contextos, em casa, na rua, no trabalho. E preconceito. Não só dos homens mas também de mulheres, que aprenderam desde sempre a se colocar na posição de menos valia nas relações - afirma.

Ela própria, com 69 anos, nascida em Ribeirão Preto e em uma família conservadora, diz ter vindo "de um passado com uma cultura extremamente machista", em uma geração em que se dividia claramente os papeis dos homens e das mulheres na sociedade. Onde a mulher crescia com a necessidade do recato, da submissão e da passividade. Somente assim ela não seria considerada uma prostituta, e "poderia ter o respeito dos homens".

- Se o desrespeito acontecia, esta mulher se sentia culpada, como se tivesse feito algo de errado, "dado condição" para o assédio - diz.

Vera cita o exemplo recente de um caso em que uma aluna denunciou um professor por assédio sexual, em uma situação que se agravou e chegou "às vias de fato": ela manteve relações sexuais com o docente.

- Sobre este homem, apareceram depois mais de 30 alunas denunciando o assédio sofrido. Elas não o fizeram antes por constrangimento, porque não tiveram coragem. Mesmo esta menina, que fez sexo com ele, relatou o desconforto sentido. Ela foi passiva e não conseguiu ser assertiva em relaçao ao que sentia e queria. Ali, ela cedeu, não porque era "safadinha", mas imaginando que se não o fizesse, acabaria ali sua carreira. Neste caso, hove um enorme assédio moral e seuxal - diz.

E como ser assertiva para rejeitar o assédio, e interrompê-lo se ele se inicia?

- Trabalho muito em consultoria a empresas e lideranças, prezando pelo estabelecimento de relações mais horizontalizadas que mudam os conceitos de poder e rerspeito, que estão por trás de muitos casos de assédio. O poder existe, mas a gente confunde cargo e autoridade com ser maior e melhor, e então aquele homem "pode tudo". Estas relações de poder estão mudando.Você deve ser respeitada pelo sua postura e ética nas relações, não pelo seu cargo ou posição na empresa. A mulher é um ser humano e, como tal, tem o direito de se expressar e estabelecer seus limites, sem confundir este direito com desrespeito. É preciso dizer não, e com firmeza, mas sem agressividade. A assertividade é impactante e pode mudar as relações - conclui Vera.

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