Não é (só) sobre você

Existe um reflexo quase que automático para muitas pessoas quando questionadas sobre situações relativas a racismo ou machismo. Elas dizem: “Nunca passei por isso” ou “Isso é um exagero”.

Se você é uma pessoa negra no Brasil, vale refletir que viver uma experiência racista vai muito além de ser chamado de “macaco”. Passa pela História e por fatos, como, por exemplo, a maioria das pessoas em situação de rua, sendo presas ou sendo mortas a cada 23 minutos serem da mesma raça. E, ainda que não seja uma experiência pessoal, isso é também sobre você.

Esta experiência vivida coletivamente diz respeito ao lugar que foi construído ao longo da História para que seja o seu lugar, ainda que você, como indivíduo, felizmente não esteja nele. Ou seja, você passa pelo racismo estrutural mesmo se não dá nome a isso.

Nós, especialmente pessoas negras ou de grupos vulnerabilizados, que, ao longo do tempo, ascenderam socialmente, fomos ensinados a nos naturalizarmos como histórias únicas ou de superação. E, ao sermos únicos em determinados lugares, isso reforça uma mensagem do quanto somos incríveis. Bom à beça para o ego se sentir alguém especial, diferenciado de uma maioria que “não venceu”.

Por outro lado, com um pouco mais de reflexão crítica e de conexão entre os pontos, a ficha cai quando entendemos que, quando estamos sozinhos, estamos também enfraquecidos e isolados. E, no primeiro tremor, tudo o que foi construído individualmente com tanto esforço pode ir por água abaixo facilmente. Já que a força também se constrói por meio do coletivo e numa rede de pessoas que se reconhecem e que se apoiam. Estar sozinho não é bom. Ser uma exceção não é bom.

Estar feliz com uma história pessoal de sucesso é super válido. Celebrar a vitória de um esforço aplicado é necessário e dá forças para seguir adiante. Mas validar isso como esforço e superioridade individual versus a de um coletivo, que seria preguiçoso e sem talento, é descabido.

É sem fundamento e sem um olhar histórico sobre a segregação sistêmica que aconteceu com a população negra e indígena neste país, por exemplo.

No podcast “Mano a mano” com Sueli Carneiro, a quem dediquei uma coluna semanas atrás, ela reforça que “o sistema neoliberal sempre permitiu que experimentássemos uma mobilidade individual. Os casos excepcionais de ascensão socioeconômica são consentidos e usados contra os pretos. Precisamos entender que só há ascensão quando ela é coletiva”. Até por que muitas das vitórias individuais são frutos de esforços coletivos não reconhecidos.

Há também aqueles que invalidam a dor de outros dizendo que é “mimimi”. Mulheres reproduzem o machismo, assim como negros e indígenas podem reproduzir o racismo. Nossa base educacional nos condiciona a não nomear e a reproduzir opressões ao invés de questioná-las, mesmo quando fazemos parte do grupo dos oprimidos, como nos lembra Paulo Freire em “A pedagogia do oprimido”: “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor”. Por isso a importância de uma educação antirracista que reveja comportamentos e referências que usamos dentro e fora de sala de aula.

Muitas pessoas, incluindo as que “venceram sozinhas”, gostam de usar frases de Barack Obama, Oprah, Nelson Mandela, Martin Luther King como inspirações. Isso sem levar em conta que justamente estes ícones apoiam ações afirmativas, reconhecem o racismo e levantam suas vozes para que suas narrativas sejam mais do que uma exceção.

Que possamos todos repensar nossas atitudes e nos entender como parte de uma estrutura maior que o “eu” validado por experiências pessoais, intenções e vontades que não anulam experiências coletivas. E que, só ao olhar para o contexto da História, é possível nos sentirmos como parte dela e fazermos a diferença para além do próprio umbigo.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos