'Não adianta conseguir um valor maior e o dinheiro chegar daqui a 20 anos', diz governador de Minas sobre acordo com a Vale

Cleide Carvalho
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Luís Ivo / Divulgação/Agência O Globo

SÃO PAULO — Dos R$ 37,7 bilhões que a Vale acordou pagar a título de ressarcimento por danos ambientais, sociais e econômicos devido ao desmoronamento da barragem da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, R$ 4,95 bilhões serão destinados a obras de mobilidade urbana. É quase o mesmo valor estimado para a recuperação ambiental causada pela lama de rejeitos, que atingiu 250 quilômetros do Rio Paraopeba. O governador Romeu Zema afirmou que o estado não investe há 25 anos e que não foi difícil escolher onde usar o dinheiro. Não há prazo para execução, mas as obras serão monitoradas pelo Ministério Público. Da quantia total do acordo, anunciado nesta quinta-feira, R$ 6,313 bilhões serão descontados, pois foram gastos pela Vale em obras e ações emergenciais.

Como foram escolhidas as obras que serão feitas com os recursos da Vale?

— A grande maioria delas já estava planejada e algumas paralisadas há anos, como os hospitais regionais. Quando você gere um estado que tinha deixado de fazer investimentos há 25 anos, não é difícil escolher onde aplicar o dinheiro. Se você deixa de fazer a manutenção de sua casa, quando recebe um dinheiro é fácil saber o que priorizar. Mais de 30% dos recursos serão destinados a Brumadinho e aos municípios da Bacia do Rio Paraopeba, mas toda a economia de Minas foi afetada pela tragédia. O estado como um todo foi afetado e todos os mineiros serão beneficiados.

Em quanto tempo essas obras serão entregues?

— O início dos projetos será imediato. Vamos começar a publicar os editais e estamos separando uma equipe para atuar em tempo integral para agilizar a execução. Mas a burocracia e os trâmites são demorados. Quem mora em São Paulo sabe quantos anos, décadas, demora para construir um rodoanel, por exemplo. Mas queremos que essa obra comece em breve e que os trechos prioritários fiquem prontos no menor tempo possível. O rodoanel vai melhorar muito o trânsito da capital e evitar acidentes, que são frequentes. Mas é muito difícil estabelecer um calendário. Obras menores, como reforma de escolas, postos de saúde e unidades de segurança com certeza serão feitas rapidamente, pois são intervenções mais simples.

Quanto os R$ 37 bilhões do acordo representa do orçamento de Minas Gerais?

— O orçamento de Minas Gerais é de R$ 110 bilhões por ano. Mas o valor acordado será exclusivo para investimentos em obras que tragam bem estar e melhoria de vida para a população. Nenhum recurso será destinado para o Tesouro do estado, para despesas correntes. É tudo investimento, zero para custeio. E esse pacote de obras vai gerar 360 mil empregos.

O senhor ficou satisfeito com o valor acordado?

— Este valor foi negociado com a participação de várias instituições públicas. No Brasil, nunca se resolveu nada em prazo tão curto, de dois anos e 10 dias. A agilidade vai fazer com que a justiça seja feita. Não adianta conseguir um valor 10%, 20% maior, e o dinheiro chegar apenas daqui a 20 anos. Fico satisfeito de as instituições terem se mobilizado. Temos o exemplo da tragédia de Mariana: o valor de Brumadinho é oito vezes maior, porque a negociação foi muito melhor conduzida. E temos de lembrar casos como a tragédia da Gameleira, que aconteceu há 50 anos e as pessoas ainda não foram indenizadas (o desabamento do pavilhão do Parque de Exposições da Gameleira, em Belo Horizonte, ocorreu em 4 de fevereiro de 1971. Matou 65 pessoas e deixou 50 feridos)

Minas Gerais ainda tem uma série de barragens consideradas de risco. Como evitar novas tragédias?

— Desde o desmoronamento em Brumadinho todas as barragens passaram a ter monitoramento intensivo. Ainda hoje temos famílias evacuadas de suas antigas moradias, que ficavam na área conhecida como "mancha", a área de risco das barragens. O monitoramento é consistente e todas essas barragens serão descomissionadas. As antigas estruturas deixarão de existir e os novos projetos de mineração no estado fazem uso da mineração a seco, que é mais seguro. Estamos caminhando para reduzir o risco ao mínimo. Somente um fato inusitado pode resultar em nova tragédia. As áreas dessas antigas barragens serão transformadas em áreas verdes, não terão nenhuma outra utilidade.