Não apoiaria pedido de impeachment hoje, daria tempo para o STF apurar, diz Kassab

IGOR GIELOW
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***ARQUIVO*** BRASÍLIA, DF, 03.01.2018: O ministro das Comunicações, Gilberto Kassab (PSD), durante entrevista em seu gabinete. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
***ARQUIVO*** BRASÍLIA, DF, 03.01.2018: O ministro das Comunicações, Gilberto Kassab (PSD), durante entrevista em seu gabinete. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Gilberto Kassab é contra a abertura de um processo de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) --ao menos neste momento.

O presidente do PSD crê que a investigação no STF (Supremo Tribunal Federal) sobre a acusação do ex-ministro Sergio Moro de que Bolsonaro quis interferir na Polícia Federal deu tempo ao Congresso para avaliar melhor o caso.

"Se eu fosse um parlamentar, no dia de hoje, não assinaria um pedido de CPI, daria um tempo para o Supremo", disse, trazendo a hipótese de uma Comissão Parlamentar de Inquérito à baila, além de rejeitar a abertura do processo de impedimento agora.

Segundo pesquisa do Datafolha divulgada na segunda (27), os brasileiros estão divididos sobre a questão do impeachment: 45% querem o processo e 48%, não.

Kassab ressalta, contudo, que a judicialização da indicação do amigo da família Bolsonaro Alexandre Ramagem para a direção da PF, suspensa pelo Supremo e anulada pelo presidente nesta quarta (29), ocorre em momento de "altíssima temperatura".

Oráculo do pragmatismo político nacional, Kassab se diz otimista com a ofensiva de Bolsonaro em busca de apoio entre partidos como o seu PSD e os do centrão.

Nega ter negociado cargos com Bolsonaro para apoiar o presidente sob ameaça de sofrer processo de impedimento, mas afirma que é lícito que parlamentares de seu partido sugiram nomes. O PSD tem 37 deputados, a quinta maior bancada da Câmara. Kassab falou por telefone, de Brasília.

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Pergunta - Qual a sua avaliação da crise política, após a saída do ministro Sergio Moro com ataques ao presidente?

Gilberto Kassab - São questões diversas. Ficou claro que havia uma falta de entendimento entre o presidente e o ministro. Existe outro contexto, porque Moro personifica essa força-tarefa importante no combate à corrupção.

Isso converge para uma decepção de parte da sociedade, que via nele o simbolismo de que o governo está combatendo a corrupção. O presidente vai ter de fazer um esforço muito grande para mostrar que isso não era a ação de um ministro, mas de um governo.

Muitos políticos veem abuso nessa campanha. O sr. mesmo responde a uma acusação de caixa dois em São Paulo. Crê que Moro sai do governo como candidato a presidente?

GK - É difícil alguém entender que Moro não tenha prestado bons serviços no Paraná, no campo jurídico. Daqui para a frente, ele vai atuar no campo político. Vai ter de mostrar sua vocação, suas propostas, sua equipe, o partido que ele vai abraçar.

Difícil fazer avaliação enquanto não tivermos a definição de seus próximos passos.

Qual o impacto político da investigação do caso pelo Supremo?

GK - Ela serviu para acalmar um pouco as instituições. A Procuradoria-Geral, com bastante inteligência e rapidez, acabou dando uma satisfação para a sociedade.

Isso, na minha percepção, serviu para acalmar o país. Não é qualquer instituição que está investigando, é o Supremo. E demos a sorte de ter caído na mão de uma pessoa muito experiente, Celso de Mello. Não que os outros membros não contem com o respeito de todos, mas o decano não tem arestas. Isso tudo contribuiu para que o problema fosse colocado no devido lugar.

Todos nós esperamos a isenção da Polícia Federal, do Supremo, do Ministério Público, para que tudo seja esclarecido.

Moro acusou Bolsonaro de tentar interferir na PF, e o presidente acabou nomeando Alexandre Ramagem, próximo de sua família. Como o sr. vê isso?"

GK - É natural que haja relações entre aqueles que trabalham juntos. O importante seria daqui para a frente. Há cargos que impedem certas relações de intimidade. Não é que eram amigos de infância, são pessoas que conviveram.

O caso acabou judicializado, com a liminar do Supremo suspendendo a nomeação, e Bolsonaro teve de recuar.

GK - Tenho dito, na minha carreira, que confio no Judiciário e no Ministério Público. Vale ressaltar que esta judicialização, diferentemente da grande maioria, começa numa temperatura elevadíssima.

O sr. acha que a discussão do impeachment acaba sendo adiada?

GK - Não é uma discussão qualquer, envolve o presidente. Acho que o Congresso, pelas declarações que vejo dos principais líderes, está agindo com sabedoria, manifestando a disposição de aguardar um pouco o andamento das investigações do Supremo.

Não que o Congresso não tenha autonomia para fazer sua investigação, sua CPI, convocações. Mas, nesse caso específico, pelas circunstâncias, por estarmos na pandemia, é um gesto de sabedoria.

Como presidente do PSD, o sr. está de acordo com isso?

GK - Nossas bancadas têm autonomia. Desde a fundação [do partido], nunca fechamos questão, e também não será desta vez. Cada parlamentar tem direito de se expressar. Se eu fosse um parlamentar, no dia de hoje, não assinaria um pedido de CPI, daria um tempo para o Supremo.

O sr. fala de CPI ou de impeachment?

GK - Qualquer uma.

O Planalto tem buscado se aproximar de partidos. O que o sr. falou com o presidente?

GK - A nossa conversa com o presidente é mais fácil porque somos independentes, então alguns parlamentares são mais próximos dele, outros mais distantes.

Há algumas semanas, o ministro Luiz Eduardo Ramos [Secretaria de Governo] me ligou convidando para uma conversa. Ele marcou um café [no dia 15 de abril], inicialmente só nós e o presidente, depois com o líder [do PSD na Câmara] Diego [Andrade, MG] e outros, conversamos sobre economia e saúde. Ele quis mostrar que o governo queria o diálogo, e nós aceitamos.

O diálogo inclui participação no governo, cargos?

GK - Não. Em nenhum momento foi veiculada menção a cargos. Até porque como o partido é independente, ele não participa. Alguns parlamentares do partido, até por conta dessa independência, têm tido contribuição junto ao governo, sugerindo nomes para alguns cargos. Eu não tenho acompanhado. Não há nenhum problema em relação a isso.

O sr. não aceita que o PSD seja considerado parte do centrão. Por quê?

GK - Se um colega seu nos procura e pergunta se nós somos do centrão e a resposta é não, é porque é não. Os outros partidos sabem que não integramos o centrão. Temos convergências e divergências. É um conceito que o partido tem desde que fomos convidados e não aceitamos fazer parte do grupo.

Entendemos que um bloco único precisa de unidade jurídica, integração plena. Isso não existe. Isso enfraquece a imagem do partido. Não tem juízo de valor sobre o centrão.

Como o sr. vê a posição do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ)? Ele parece ter perdido controle sobre parte da tropa.

GK - Eu entendo que a gestão do Rodrigo é muito boa. Aprovou matérias relevantes, atuou com discernimento em crises políticas. Nos últimos tempos, ele se distanciou do governo por dificuldade de diálogo com o presidente e com o Paulo Guedes (Economia). Em nada desmerece a gestão dele.

Bolsonaro é conhecido por ser de difícil trato com o Congresso. Isso muda?"‚Pelo que eu percebo, melhorou bastante a qualidade da relação do governo com o Legislativo. Uma disposição maior para o diálogo, um entendimento em relação a projetos.

O sr. é contrário ao adiamento das eleições municipais devido à Covid-19. Já reconsidera a posição?

GK - Sou contrário, o que não significa que, se a pandemia continuar até o fim de junho, nós não precisemos colocar um pouco para a frente, 15 de novembro por exemplo. Mudar o calendário é ruim para a democracia.

Como o PSD está se posicionando para o pleito?

GK - Temos foco nas grandes cidades. Temos o Andrea Matarazzo em São Paulo e, como carro-chefe, a reeleição do prefeito Alexandre Kalil em Belo Horizonte. Nós já tínhamos presença forte na Bahia, no Paraná, agora Minas Gerais. Temos na presidência estadual o senador Carlos Viana, trazendo Kalil (ex-PHS), o senador Antonio Anastasia (ex-PSDB).

O sr. sempre foi visto como um grande pragmático, que nunca rejeitou alianças. Como vê o PSD em 2022?

GK - As alianças vão acontecer cada vez menos. O PSD vai se esforçar para ter candidatos a governador e a presidente. A Executiva Nacional definiu cinco pré-candidatos que serão levados para as bases.

São o líder no Senado, Otto Alencar (BA), o senador Anastasia (MG), o governador Ratinho Júnior (PR), que é candidato à reeleição mas tem se firmado no plano nacional, e os deputados André de Paula (PE) e Fábio Trad (MS).

Qual o impacto da pandemia sobre o processo político?

GK - Existe uma radicalização muito grande entre quem entende que o isolamento deve ser total e aqueles que têm posição diferente.

Eu me associo àqueles para quem o caminho da economia deve ser ditado pelos responsáveis pela saúde. Defendo um isolamento mais radical até as primeiras semanas de maio, como [o governador paulista João] Doria [PSD] e outros governantes.

O sr. vê atores emergindo dessa crise com mais destaque, como Doria?

GK - Eu acho que as eleições presidenciais passarão a ser discutidas depois das municipais. Há um fato político novo, a grande reforma política da proibição das coligações no pleito proporcional. Os partidos terão de investir na formação de quadros.

Acabou aquela fase de você participar de uma eleição com poucos nomes porque faz parte de uma coligação. Dessa maneira, falar em alianças antes de o partido definir essa estratégia vai ser complicado. Quem quiser inverter a equação vai quebrar a cara.

Com isso, o pleito de 2018 foi um fenômeno único?

GK - Vai haver uma redução do número dos partidos e, com isso, todos vão querer ter candidato a presidente. Vai ser difícil surgir um candidato de uma hora para outra. Não que Bolsonaro tenha feito isso, ele estava em campanha havia quatro anos. Mas diria que no mundo político foi uma surpresa a eleição dele. Esse tipo de surpresa vai ser mais difícil.

Nomes de fora da política, como o do apresentador Luciano Huck, ficam como?

GK - Ele pode ser convidado por um partido, mas não vai se filiar num gesto de um dono de partido. Não haverá mais pequenos partidos, só médios e grandes.

Como o sr. vê a esquerda nesse processo?

GK - O PT mostrou que é partido. Enfrentou e enfrenta uma crise e teve resultado bastante satisfatório em 2018. Na esquerda, o PSOL está consolidado e tem um grande líder que representa essa ideia radical de esquerda, o Guilherme Boulos.

Na direita, teremos o partido do presidente [Aliança pelo Brasil, ainda em formação], que vai chegar a 2022 elegendo uma bancada de 50 deputados federais. Seja porque é governo, seja porque a direita tem o seu espaço.

O resto dos partidos não devem ser mais do que sete ou oito [hoje são 30 com representação na Câmara].

O financiamento público sofre questionamentos. Ele veio para ficar?

GK - O financiamento privado não deu certo. A pergunta não é o que vai fazer com o Fundo Eleitoral. Se não houver eleições, é evidente que o fundo não será usado. Se houver, o fundo precisa continuar.

RAIO-X

Gilberto Kassab, 59

Economista e engenheiro civil, foi secretário de Planejamento de São Paulo (1997-98, governo Celso Pitta, PPB e PTN), deputado federal (1999-2005), vice-prefeito (2005-06, governo José Serra, PSDB) e prefeito (2006-13) de São Paulo. Ocupou as pastas das Cidades (governo Dilma Rousseff, PT, 2015-16) e da Ciência e Tecnologia (governo Michel Temer, MDB, 2016-18). Passou por PL, PFL, DEM e, em 2011, fundou o PSD, que preside. É secretário licenciado da Casa Civil paulista (governo João Doria, PSDB).