'Não busquei disfarçar minha masculinidade', diz Luiz Fernando Guimarães, que vive nonagenária em peça

Avó e neto estão largados no sofá, dividindo um baseado e trocando confidências. Enquanto a mulher de 91 anos afirma "os homens nunca fizeram nada por mim na cama", o jovem de 25 conta que o "sexo com a namorada é bizarro, mas é bom". A cena, resumo tanto do abismo entre gerações como da cumplicidade dos dois, é destaque no espetáculo "Ponto a ponto - 4000 milhas", dirigido por Gustavo Barchilon, que estreia nesta quinta-feira, no Teatro do Copacabana Palace.

O projeto, versão brasileira da peça de Amy Herzog que debutou na Broadway em 2001 e foi finalista do Pulitzer em 2013, traz Luiz Fernando Guimarães de volta aos palcos seis anos após o monólogo "O impecável". Mas não o Luiz que o público está acostumado a ver. Quer dizer, a graça e o ar de deboche permanecem, mas... Desta vez, aquele homão de 1m90, com mãos e pés enormes, está dentro de um robe florido e embaixo de uma peruca comprida e grisalha para encarnar a nonagenária Vera.

O ator garante de cara: "Não busquei disfarçar minha masculinidade". Ela conta que procurou mais uma "pintura emocional" do que um tom naturalista, porque "a essa altura da vida, as pessoas sabem que eu sou o Luiz Fernando Guimarães". Quando ele começa o ensaio, percebe-se que deu uma calibrada no timbre grosso da voz e carregou um pouco mais no seu jeito naturalmente ondulado e anasalado de falar.

Antes disso, nos bastidores do teatro, Luiz mostra a foto de família presa ao espelho do camarim. Na imagem, ele aparece criança, amuado entre as pernas do pai, junto com os dois irmãos, a mãe, o avô e um tio. É ali, entre os parentes, que ele pescou referências para compor a personagem.

- Pensei muito na minha mãe, Iara, na minha avó, tias... Em determinadas cenas, busco a tia da Regina (Casé), a mãe do Perfeito (Fortuna), do Evandro (Mesquita), meus companheiros de Asdrúbal (Trouxe o Trombone, grupo que revolucionou a cena teatral nos anos 1980). Essa é está minha formação, uma escola que nunca foi de montar personagem antes, mas de ir fazendo e deixá-lo vir naturalmente - conta Luiz que, em certas passagens da peça, lembra Robin Williams em "Uma babá quase perfeita".

Uma espécie de licença poética que a idade vai dando às pessoas também inspira o ator.

- Uma idoso pode tudo. Não falo palavrão em peça, mas estou falando nessa. A tia de outro amigo meu fala "ah, vá para a puta que o pariu". Nunca vi falar tanto palavrão! Ela vive de camisola, não sai para nada e fala mal de todas as amigas - relata ele, acrescentando que sua relação com o público da terceira idade o fez entender ainda mais sobre esse universo. - Não sei exatamente por conta de que, já que só fiz programas sacanas como "Os normais" e "Minha nada mole vida", mas eles têm um amor angelical por mim. Falam comigo como seu eu fosse um neto ou um filho.

Às doses de humor são acrescentadas pitadas de uma realidade um pouco mais triste: a solidão que paira sobre grande parte da população mais velha.

- Recentemente, vi a peça do (Marcos) Caruso e ele fala algo que me bateu muito. É sobre como as famílias vão abandonando os mais velhos por conta de que talvez não tenham mais memória ou não falem coisa com coisa. Essa peça não é sobre isso, mas a Vera tem uma ausência que não admite ter, uma dentadura que não admite ter... O texto fala do sentimento de melancolia.

Na trama, Vera recebe a visita inesperada do neto (Bruno Gissoni), que acaba de perder o melhor amigo. Estruturada a partir do diálogo desses dois personagens sobre família, política, idade, morte, luto e outros temas, a peça traz à tona diferentes pontos de vistas que transformam aquela relação, próxima e distante ao mesmo tempo. A entrada da atriz Renata Ricci, que interpreta dois papéis na história, avó e neto passam a se reconhecer em vários aspectos.

- "Ponto a ponto" é sobre relacionamentos e aborda como um assunto é visto por duas pessoas de modo oposto - diz o Gustavo Barchilon, também diretor do musical "Barnum - O rei do show", que ultrapassou 100 mil espectadores em temporadas cariocas e paulistas. - Distância, solidão, família, morte e política são temas que fazem qualquer plateia refletir.

Ainda mais tempos de polarização. O espetáculo é prato cheio para a plateia sair do teatro debatendo, acredita Luiz.

— A pandemia nos fez mergulhar na tecnologia, que parece ter atrasado e empobrecido as relações. Meu neto na peça é hippie e contra a gente enterrar a vida na internet. Penso que nessa nova era, vamos recuperar a convivência, a conversa, vivenciar mais a família e o traquejo social.

'As crianças que escolheram seus nomes'

Quem volta ao palco agora, seis anos depois, é um Luiz Fernando Guimarães um tanto diferente. Aos 72 anos, o ator conta que ganhou doses de paciência para tentar entender melhor o mundo com a paternidade. Em 2019, ele e o empresário Adriano Medeiros, com quem está casado há mais de duas décadas, adotaram o casal de irmãos Amazonas, Dante, agora com 11 anos, e Olivia, com 9. Os nomes foram escolhidos pelos quatro.

- Eu e Adriano pesquisamos cinco nomes de que gostávamos colocamos na mesa. Explicamos os significados. Foram as crianças que escolheram os seus preferidos - conta Luiz, que diz entender melhor dos filhos do que qualquer pessoa. - Sou o meu educador. Eles estão numa boa escola, mas eu é que sei. É aí que está meu poder de chegar na escola e dizer "isso eu acho, isso eu não acho".

Escola, aliás, é algo que Dante não anda curtindo muito. Nisso é parecido com Luiz, conta o ator, que responde ao muxuxo do menino com um "mas ninguém gosta".

- Meu irmão me comprava com jujuba e chocolate para eu ir à aula. Meus pais trabalhavam o dia inteiro e eu poderia tranquilamente matar a escola - lembra Luiz, filho de funcionária pública e bancário. - Minha mãe era a maior defensora dos filhos. Eu estava certo, a escola, errada. Porque se não estava conseguindo que eu gostasse de lá, não tinha competência.

Mas essa parte, digamos, escolar, fica mais sob a responsabilidade de Adriano, que responde os grupos de WhatsApp e frequenta as reuniões. Luiz é mais da "recreação". Gosta de jogar bola e acaba de encarar cinco montanhas russas durante a viagem recente da família à Disney de Paris.

- Me arrependo quando estou lá em cima, penso: "Por que estou aqui?". A gente acha que vai morrer. Mas a vontade é maior que eu.

Assim que virou pai dos dois, o ator tratou logo de colocá-los para assistir ao seu trabalho. Queria que os filhos soubessem logo quem era ele.

- Eles riem quando me veem de mulher. Ela acha mais engraçado, ele, fica meio assim... Está naquela fase pré-adolescente, quer dirigir meu carro e fica preocupado com os amigos da escola... Quando vou buscar, sou o cara que é famoso, então, ele fica meio envergonhado. Aí eu falo: "Seu pai é famoso, por que não quer mostrar, pô?". Ela, tenho certeza de que vai subir no palco.

Já Olivia é toda organizada, gosta de fazer cadernos de desenhos.

- Ela é ariana e parece uma velha de 350 anos. Quando emburra, faz uma cara...

Tem hora que Luiz se flagra reproduzindo antigos padrões de educação e, quando se dá conta, já está pedindo desculpas.

- Sabe aquelas frases feitas, tipo "levei um bom tapa" ou "não mexe comigo"? Então... Mas o amor e o entendimento são mais fortes.

De vez em quando, ele e Adriano precisam afinar o discurso.

- Somos pais diferentes e tem hora que precisamos conversar. Porque as crianças são espertas e manipulam - afirma. - Mesmo dois homens, a gente tem que ser mãe e pai em alguns momentos. E a gente é os dois. Damos colo, botamos para dormir, contamos história...

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