'Não dá para relaxar o distanciamento social sem vacina. É ciência, não é mágica', diz coordenador do Grupo Ação Covid-19

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SÃO PAULO — Coordenador do grupo que estuda em que condições a vacina conteria a pandemia de Covid-19 no país, o professor José Paulo Guedes Pinto, da Universidade Federal do ABC, afirma que a baixa taxa de imunização da população contra o coronavírus faz com que a situação da pandemia hoje seja praticamente homogênea entre os estados, à exceção do Maranhão.

Segundo ele, a situação, em geral, é ruim, e o isolamento segue sendo essencial para evitar o descontrole.

O estudo da Ação Covid estabelece uma relação entre a velocidade de transmissão do coronavírus e a necessidade de vacinação. Como o senhor valia a situação do Brasil hoje?

O Brasil ainda está jogado à própria sorte. É como se estivéssemos ainda no início da pandemia, enquanto no mundo todo a vacinação se mostrou eficaz no controle da transmissão. Temos apenas 10% da população imunizada, com as duas doses da vacina, e o estudo ajuda a mostrar que o distanciamento social ainda é necessário.

Qual o peso das medidas de distanciamento social?

O Maranhão é o principal exemplo. O estado mantém uma política forte de garantia de renda mínima para manter a população dentro de casa, reduzindo a mobilidade. Essa política atinge não só famílias, mas também pequenos negócios, como bares, restaurantes e atividades ligadas ao turismo. Desta forma, consegue evitar que as pessoas abram mão do distanciamento social para sair de casa e ganhar a vida. No período do último estudo, que vai de 19 de abril a 19 de maio, o Maranhão tinha apenas 6,72% da população imunizada. Mesmo assim, para manter a pandemia sob controle, teria de vacinar apenas 22,45% da população, o menor percentual em todo o país.

O Rio de Janeiro aparece no estudo com destaque negativo, com aumento na urgência de cobertura vacinal desde fevereiro. O que aconteceu no estado?

O Rio estava com uma politica de distanciamento social mais rígida e mais ou menos sob controle. Mas novamente liberou praia, comércio, serviços e restaurantes. Atribuímos a piora à queda do isolamento social, e a imunização é baixa. O estado está com apenas 7,88% da população imunizada com duas doses de vacina. Mesmo São Paulo, que tem 11,1% de sua população vacinada, está muito aquém da quantidade mínima de vacinados para controlar a pandemia, que seria de 31,2%.

O estado em pior situação no estudo é o Paraná.

O estado adotou medidas de contenção no pico da pandemia, mas voltou a relaxar as medidas em abril. Permitiu o funcionamento de igrejas com até 35% de lotação e revogou limite de alunos em aulas presenciais. Há uma pressão da ideologia negacionista. Se a igreja não reabre, o fiel não paga dízimo. Sempre que relaxam as medidas, os casos voltam a aumentar. Não dá para relaxar o distanciamento social sem vacinar a população. É ciência, não é mágica.

O estudo diz que há homogeneização da pandemia no país. Por quê?

Tivemos momentos em que alguns estados estavam com a pandemia mais descontrolada do que outros. Hoje todos estão igualmente ruins. Era mesmo o que tínhamos de esperar. Não vacina, não melhora. As medidas de distanciamento social não são levadas a sério. Ora apertam, ora afrouxam. Todos os estados praticam algum tipo de isolamento nos períodos de pico de pandemia, mas voltam a reabrir. Depois do descontrole, é normal que ocorram bolhas de proteção momentânea, já que muita gente se infectou. Mas essa bolha volta a estourar a qualquer momento. Enquanto a população não estiver vacinada, a situação permanece complicada.

Como o senhor avalia a situação do país até aqui?

Não houve uma coordenação do governo federal. A política foi não coordenar e negar a vacina. Os governos locais têm performance local, e algumas prefeituras mandam seus cidadãos para a morte. Neste momento, tirando o Maranhão, todos estão com performance muito parecida. Na prática, não deixamos de colapsar. Temos meio milhão de mortes, uma média de cerca de 2 mil mortes diárias. É um genocídio, pior que entrar numa guerra. O Brasil inteiro teria que triplicar a vacinação imediatamente.