'Não deixam as travestis fazer ficção', diz autora convidada da Flip Camila Sosa Villada

Na 20ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), não faltam autores que fazem literatura sem inventar nada (é o que eles dizem, pelo menos). Das autossociobiografias de Annie Ernaux aos estudos da “sobrevida da escravidão”, de inegável qualidade literária, da americana Saidiya Hartman. Até tentam incluir nesse balaio a argentina Camila Sosa Villada, cuja literatura travesti é por vezes rotulada de “autobiográfica”, mas ela resiste. Camila tem 40 anos, é transexual e viveu da prostituição até conseguir se sustentar como atriz e escritora. Nesta quinta (24), às 20h30, ela conversa com a escritora baiana Luciany Aparecida.

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Em entrevista por vídeo ao GLOBO, antes de embarcar para o Brasil (e antes da derrota da seleção hermana pelos sauditas), Camila insiste que escreve ficção, embora haja alguma inspiração autobiográfica em seus livros, publicados no Brasil pela Tusquets Editores, selo da Planeta. O romance “O parque das irmãs magníficas”, por exemplo, retrata um truque de travestis da zona de meretrício de Córdoba, onde Camila vive. E o conto que abre “Sou uma tola por te querer”, livro que ela lança na Flip, narra como o sucesso da peça “Carnes tolendas” (já apresentada no Brasil) a permitiu abandonar o trabalho nas ruas.

De fato, não falta ficção aos livros. “O parque das irmãs magníficas” flerta o tempo todo com o fantástico: Tia Encarna, a dona da pensão que abriga as travestis, tem 178 anos; uma delas se transforma em “lobiscate” em noite de lua cheia; outra, vira pássaro. O conto “Sou uma tola por te querer” narra a amizade, forjada em uma boca de fumo (completamente fictícia) entre Billie Holiday e duas travestis mexicanas — o título, aliás, remete à canção “I’m a Fool to Want You”, gravada pela americana.

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— Não deixam as travestis fazer ficção, apenas autobiografias que são um rosário das misérias que enfrentamos — reclama. — Assim como o autor que conhece história escreve influenciado pelo que ele sabe, eu escrevo influenciada pelo que vivi. Mas não me interessa o quanto há de verdade no que eu escrevo. Eu invento personagens, histórias. Quero que os leitores reconheçam que as travestis também fazem ficção.

Camila já se inspirava em sua vida para fazer ficção quando ainda se chamava Cristian Omar. Num ensaio, ela afirmou: “Meu primeiro ato oficial de travestismo foi escrever, antes de sair na rua vestida de mulher”. Adolescente, tinha uma quedinha por um professor e resolveu escrevera a história de Soledad... que estava apaixonada por seu professor. Hoje, Camila já não escreve sobre paixonites. Prefere falar de amizade.

— Não sou uma pessoa romântica. Prefiro escrever sobre laços de amizade, porque é aí que as pessoas realmente brilham, se revelam em toda sua potência e energia — explica ela, que não se interessa pela Copa do Mundo e só sabe o nome de um jogador da seleção argentina: Lionel Messi.

Os leitores brasileiros são os que mais mandam mensagens para Camila nas redes sociais. Traduzido em mais de 10 países, “O parque das irmãs magníficas” já vendeu mais de 30 mil cópias por aqui. A versão em áudio alcançou quase 40 mil ouvintes (o que inclui audiolivros vendidos e reproduções em serviços de streaming). Os vínculos dela com o Brasil vêm de longe. Fã das novelas brasileiras (em especial, de “Hilda Furacão”), Camila faz aulas de canto e a professora sempre pede que ela ensaie “Desafinado”, “Insensatez” e “Chuvas de verão”. Ela ainda se lembra do carinho do público brasileiro quando apresentou “Carnes tolendas” em São Paulo. Elogiou o casaco de veludo azul (“vintage”) de uma moça da plateia, que na mesma hora despiu-se dele e o deu de presente à argentina.

Camila também acompanha a carreira de cantoras trans brasileiras, como Liniker e Linn da Quebrada. Já assistiu às duas temporadas de “Manhãs de setembro” (série protagonizada por Liniker) e “Bixa travesty” (documentário de Linn) e elogia o talento a e lucidez das duas (“me dão calafrios”). Embora comemore o sucesso de artistas trans — por aqui e por lá —, Camila não gosta da palavra “visibilidade”, bastante empregada para se referir a uma maior presença da população LGBTQIAP+ na cultura pop.

— A fama de algumas de nós não resolve o problema das travestis na América Latina. Visíveis nós sempre fomos. Estávamos aqui antes de Colombo — exclama. — A visibilidade é um placebo, é esperar que as sociedades processem a nossa existência para depois assegurar nossos direitos. Não podemos esperar que as sociedades se limitem a reagir à nossa militância. Os governos precisam se adiantar, porque a situação é muito precária.