'Não existe pecado', diz líder da bancada evangélica na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ) sobre liberação de armas

Com voz de comando sobre a bancada evangélica na Câmara, o deputado federal Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ), que assumiu a liderança do grupo de parlamentares em fevereiro deste ano, é categórico ao afirmar que, ao contrário do que se acredita, os evangélicos não são antiarmamentistas. Ele próprio diz que é favorável à legítima defesa e que o cidadão de bem tenha direito a portar inclusive fuzil para defender sua casa, seu comércio ou sua fazenda contra criminosos fortemente armados. "Não existe pecado", prega ele sobre a percpeção coletiva de que os princípios cristãos poderiam barrar o avanço do segmento sobre um tema até agora tratado como tabu. Para ele, a esquerda é que se apoderou da tese do desarmamento para fins ideológicos e impôs a percepção de que homens de fé defenderem o uso de armas seria contraditório. Sóstenes estima que a chegada de ex-agentes de segurança evangélicos na atual Legislatura mudou o perfil da bancada na Câmara. Ex-vice-presidente da Frente Parlamentar de Controle de Armas, o deputado admite que mudou sua posição sobre a questão e estima que, hoje, metade dos integrantes da bancada evangélica - que tem 111 deputados e 11 senadores - está disposta a ir ao debate, depois das eleições, sem amarras religiosas e considerando a escalada da violência no Brasil. Para ele, além da ascensão de políticos egressos da segurança pública, a influência do presidente Jair Bolsonaro também pesa para tirar evangélicos de cima do muro armamentista.

Os evangélicos são historicamente desarmamentistas. O que está mudando?

Essa é uma concepção da esquerda. Mas a esquerda está completamente divorciada do segmento evangélico. É um casamento sem volta. Eu não sou armamentista e nem desarmamentista. O problema é que, antes, não tinha direita no Brasil e agora passou a existir a direita bolsonarista que também pende para o outro lado, outro excesso. Eu mesmo já disse isso para o presidente Bolsonaro. O que eu acho é que o cidadão de bem tem o direito de se defender do criminoso. Não sou a favor do porte indiscriminado, mas sou a favor do porte e sobretudo da posse. O comerciante, o dono de um imóvel, o fazendeiro têm o direito a ter uma arma para se defender. Só acho que não precisa ser seis armas, como acontece hoje. E essa regra não é do Bolsonaro não, é da época do PT.

A defesa da flexibilização das armas não vai contra os princípios cristãos? Um dos mais importantes mandamentos bíblicos é "Não matarás".

Historicamente o evangélico não possui armas porque confia que, do ponto de vista da cidadania, está protegido pelo Estado e, do ponto de vista da fé, está protegido por Deus. Mas não é desarmamentista. É a favor que as pessoas possam se defender, do direito à legítima defesa. O que acontecia, em votações anteriores, é que as propostas eram muito exageradas. Eu mesmo, nas últimas duas legislaturas, votei contra. Já fui vice-presidente da Frente Parlamentar pelo Controle de Armas. Na gestão do Eduardo Cunha, numa votação sobre o assunto, eu tive um papel fundamental para evitar excessos. Sem o Cunha saber, eu levei o pastor dele, o Abner Ferreira, que disse que não podia aquilo. E não aconteceu. Mas hoje, por exemplo, mudei muito a minha cabeça com o avanço da criminalidade, acho que o cidadão pode ter uma arma de grosso calibre, um fuzil. Como ele vai se defender de bandidos armados com uma pistola?

O senhor pessoalmente é favor do uso de arma?

Eu não tenho armas e nem quero. Moro no Rio de Janeiro, não tenho escolta armada, por exemplo. Se eu tivesse, teria que pagar com verba do gabinete e não adiantaria nada. Como eu vou me defender com um segurança de pistola no Rio? Não adianta nada. Teria que ser fuzil e fuzil eu não tenho dinheiro para pagar. Mas o clima de insegurança no Brasil hoje só cresce.

Então o que acha que pode mudar? Ainda este ano pode ter alguma votação sobre o tema na Câmara?

O que precisa é equilíbrio. Os bolsonaristas vão exagerar para um lado e a esquerda para o outro. Eu mesmo já falei para o Bolsonaro que seis armas é muito, é exagerado. Agora ter uma arma na sua casa, na sua propriedade rural não é anticristão. É defesa pessoal. É ele ou eu. O bandido ou eu. À luz da minha fé, isso não é pecado. O bandido anda armado para matar e eu vou me defender. A teologia cristã defende que a vida é o bem maior. Não existe pecado. Mas essa conversa precisa acontecer sem paixões. Você acha que eu posso conversar sobre isso com Bolsonaro? Eu falo, mas ele não vai me ouvir por muito tempo. A esquerda nem quer conversar.

Mas o senhor votaria por mais flexibilização?

O problema é a palavra flexibilização. A palavra é mal aplicada. A gente precisa de uma revisão da lei. Mas que não deve acontecer este ano, que é ano eleitoral. Cada realidade é uma. O Brasil é muito diverso. Temos que debater com responsabilidade. Por exemplo, o cara quer uma arma e atende a uma série de condicionantes. No fim, ele tem que ser submetido a um delegado da Polícia Federal que vai dizer se ele pode ou não ter o armamento. Eu acho demais. Por que você tem que passar depois de ter atendido a todas as exigências por uma entrevista em que um outro ser humano vai te julgar? É errado, é subjetivo. Podemos, por exemplo, acabar com as seis armas e agradar os desarmamentistas. E, na outra ponta, acabar com esse julgamento subjetivo de um delegado e agradar os bolsonaristas, os armamentistas. O importante é acabar com essa polarização entre direita e esquerda em torno do assunto.

Mesmo considerando a sua percepção de que os evangélicos nunca foram contra as armas, é inegável que houve uma mudança de comportamento em relação ao tema. O que o senhor acha que provocou isso?

Além da ação da esquerda, pendendo exgeradamente para um lado, tem o fato de que muitos evangélicos que chegaram ao Congresso vieram das forças de segurnaça, PMs, policiais, bombeiros, guardas civis. Tem deputado evangélico a favor de armar até os dentes. Acho que hoje a divisão da bancada evangélica em torno do tema é de 50% a 50%. Mas se for para votar exageros ainda teremos hoje uma votação majoritariamente contra. Acho que desse debate não acontece mais este ano, vai ficar para depois das eleições. Mas uma coisa é fato: os evangélicos não querem provocar um desarmamento maciço no Brasil. Eu não quero desarmar ninguém. Pau que dá em Chico, dá em Francisco. Eu sou feliz no meu equilíbrio.

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