Não existe racismo no Brasil, diz Mourão ao lamentar morte de homem negro no RS

·3 minuto de leitura
Vice-presidente Hamilton Mourão durante cerimônia em Brasília
Vice-presidente Hamilton Mourão durante cerimônia em Brasília

BRASÍLIA (Reuters) - O vice-presidente Hamilton Mourão classificou como lamentável a morte de João Alberto Silveira Freitas, homem negro espancado até a morte em um supermercado Carrefour, em Porto Alegre, mas afirmou que seria um caso de "segurança totalmente despreparada", e não de racismo.

"Para mim no Brasil não existe racismo, isso é uma coisa que querem importar aqui para o Brasil. Isso não existe aqui", disse Mourão ao ser perguntado se o caso de Freitas demonstraria um problema de racismo no país.

Diante da insistência dos jornalistas, o vice-presidente voltou a afirmar que dizia "com toda a tranquilidade" que não existe racismo no Brasil.

"Eu digo para vocês o seguinte, porque eu morei nos Estados Unidos. Racismo tem lá. Eu morei dois anos nos Estados Unidos, na minha escola que eu morei lá, o pessoal de cor ele andava separado, que eu nunca tinha visto isso aqui no Brasil. Saí do Brasil, fui morar lá, era adolescente e fiquei impressionado com isso aí. Isso no final da década de 1960", afirmou.

Mourão admitiu que a alta desigualdade social existente no país afeta mais os negros, mas não relacionou a falta de acesso a bens e serviços ao racismo, apenas à pobreza. Questionado sobre a violência policial atingir mais negros, Mourão afirmou que o caso de Porto Alegre não é de violência policial, mas de segurança.

"O que acontece: naturalmente aquela pessoa que está em desvantagem social, ou que vive em uma área que é mais difícil, vamos colocar, uma área de favela, onde está exposto a questão do crime organizado, de tráfico, essa coisa toda, então, grande parte das pessoas que lá vivem, infelizmente, são pessoas de cor. Isso é uma realidade", afirmou.

Freitas foi morto na noite de quinta-feira em frente a um supermercado Carrefour por um segurança da loja e um policial militar provisório que estava no local. O segurança foi chamado por uma caixa depois de uma discussão. Freitas foi morto por espancamento depois de ter sido imobilizado pelos dois homens.

Ambos foram presos em flagrante e indiciados por homicídio triplamente qualificado.

REAÇÃO

O presidente do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux, fez uma homenagem a Freitas nesta sexta-feira, em evento de assinatura de convênio com a Faculdade Zumbi dos Palmares.

"Gostaria preliminarmente, antes de iniciarmos este evento, pedir um minuto de silêncio em homenagem a João Alberto Silveira Freitas, negro, 40 anos que foi morto na noite de ontem por seguranças de um supermercado em Porto Alegre", disse.

"Independentemente de versões, o que deve nos preocupar é a violência exacerbada. Toda violência é desmedida e deve ser banida da sociedade. Mas esse episódio é um triste episódio, exatamente no momento em que nós comemoramos o Dia Nacional da Consciência Negra", emendou.

O presidente do Congresso Nacional, senador Davi Alcolumbre (DEM-AP), também usou as redes sociais para comentar a morte de Freitas.

"No Dia da Consciência Negra, o assassinato brutal de João Alberto Freitas, espancado até a morte por seguranças de um supermercado, em Porto Alegre, estarrece e escancara a necessidade de lutar contra o terrível racismo estrutural que corrói nossa sociedade", disse.

A ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, foi outra integrante do governo a se manifestar sobre o assassinato pelas redes sociais. Contudo, não fez qualquer referência ao fato de o assassinato ter sido perpetrado contra um homem negro.

"A vida de mais um brasileiro foi brutalmente ceifada no estacionamento de um supermercado, no Rio Grande do Sul. As imagens são chocantes e nos causaram indignação e revolta", disse ela, em uma das postagens.

(Reportagem de Lisandra Paraguassu, com reportagem adicional de Ricardo Brito)