'Não morreu': cidadezinha na Austrália abriga um dos maiores festivais de imitadores de Elvis Presley

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O Elvis Presley japonês fez uma reverência em respeito silencioso antes de se se acabar na versão pessoal de "Burning Love", que mais parecia ter saído direto de Memphis, no Tennessee, e com certeza pôs à prova a elasticidade de seu macacão, principalmente na região da virilha. Nos bastidores, alguns dos outros "Elvi" – ou plural de Elvis, pelo menos no maior festival do gênero do Hemisfério Meridional – repassavam a escolha das canções, praticando diante de uma plateia que (con)fundia fãs e imitadores. Havia milhares reunidos em pleno sertão da Austrália, com idade variando entre 5 e 85 anos, com mais topetes e macacões brilhosos do que dava para contar.

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– Deus do céu, quanta gente. Dá só uma olhada – exclamou Charles Stone, gerente de turnê do Rei do Rock de 1971 até sua morte, em 1977, dando uma espiada na cena, a corrente de ouro aparecendo na gola da camiseta.

Parkes, cidadezinha a cinco horas de carro de Sydney, brilha uma vez por ano com lantejoulas e pedras de strass saídas de várias partes do mundo. São cerca de 25 mil pessoas que se reúnem para um evento que começou com a intenção de um casal que tinha uma restaurante de injetar "um pouco menos de conversa e um pouco mais de ação" na rotina local. Isso foi em 1993. Quase 30 anos depois, o festival já se tornou um tesouro nacional que mostra bem como os australianos tendem a fazer as coisas: todos juntos, com muito humor autodepreciativo e um volume ainda maior de bebida alcoólica.

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A edição deste ano – depois do cancelamento forçado pela Covid em 2021 –, por algum motivo, deu a impressão de ser mais intensa que nunca, mesclando uma dose de melancolia com o entusiasmo do rock 'n' roll. Nos pubs minúsculos com marinheiros de primeira viagem, campos de golfe e de rúgbi, onde várias partidas foram disputadas a caráter – e, é claro, nos palcos principais, onde os melhores imitadores do mundo se encontravam –, o que se viu foi uma disposição enorme para o extravasamento pós-lockdown, pós-pandemia.

– De que vale a vida se não para se fantasiar, subir ao palco e CANTAR como se não houvesse amanhã? – muitos gritavam acima do volume da música.

– Você esquece tudo. Depois do que passamos e com o que está acontecendo no mundo agora, é maravilhoso ver toda essa alegria – comentou Gina Vicar, pequena empresária de 61 anos de Melbourne que estava com um grupo de amigos.

Começamos a conversar enquanto ela soltava a voz para incentivar um dos Elvis (cujo nome verdadeiro era Deon Symo) que acabara de revelar ter 21 anos e ser de Adelaide, cidade com que todo mundo faz piada e é pouco reconhecida. Usava um macacão branco, e se via postado à frente da cortina vermelha aberta graças a dois elásticos em um pub de piso grudento – mas o público o tratou como se fosse um superastro de Las Vegas. Duas mulheres, pelo menos 20 anos mais velhas que o rapaz, dançavam na frente do "palco", acompanhando a letra de todas as canções.

– Tem uma voz ótima. Só precisa ter mais autoconfiança! – atestou Vicar.

Por toda a cidade, os Elvi conquistaram os fãs do cantor. Toki Toyokazu, de Sendai, no Japão, era um dos favoritos, porque, além de ter ganhado a competição oficial de 2020, seu retorno ganhou ares de marco pós-Covid.

Outro participante, "Bollywood Elvis" – de macacão dourado com pedrarias tão grandes que mais pareciam bolachas Maria pregadas na roupa –, também parecia saber como cativar o público. Ele se apresentou como Alfred Vaz, de 65 anos, e contou que se mudou para a Austrália daquela que então se chamava Bombaim, em 1981, quando era gerente da Air India, e começou a vir a Parkes desde o início do festival. Este ano trouxera o sobrinho, Callum Vincent, professor de música de 24 anos de Perth, que só sorria, apreciando o clima à sua volta.

– Só existe um Elvis. Há muitos imitadores e diversos favoritos, mas Elvis é um só – afirmou Vaz no início das apresentações.

Menos em Parkes, antiga cidadezinha mineira de um país onde o astro não se apresentou uma única vez.

O prefeito e o representante local do Parlamento tinham chegado poucos minutos antes, e desfilaram no banco traseiro de um conversível, ambos de macacão à la anos 70, peruca e óculos escuros. Vicar e seus amigos acompanharam o desfile ao lado de... bom, um monte de Elvi.

As roupas no corpo rechonchudo de alguns participantes pareciam bem surradas; outras mostravam rasgos em lugares indiscretos. Esses eram basicamente os Elvi versão rúgbi, que se reuniram para a partida anual entre o time dos "Blue Suede Shoes" contra o dos "Ready Teddys".

Doug Moore, de 41 anos, o "molha-goela" oficial – isto é, o responsável por manter o copo dos jogadores exaustos sempre cheio –, me disse que eles se inscreveram logo nas primeiras edições para prestigiar o evento, usando a mesma fantasia durante os três dias de sua duração.

Tiffany Steel, diretora do festival e filha dos fundadores, Bob e Anne Steel, confirmou o papel oficial da turma. Em 2007, seus integrantes ajudaram a colocar a festa de Parkes no "Guinness World Records": 147 Elvi se juntaram para cantar "Love Me Tender", quebrando o recorde anterior de 78, "na maior reunião de imitadores de Elvis Presley".

– Se você nasceu em uma cidadezinha desse tipo, é claro que tem de fazer parte da coisa – teorizou Moore, que é gerente de projetos, ajeitando a peruca que combinava com a roupa justa, com direito a capa.

Já os americanos hoje em dia parecem menos entusiasmados. Stone, o ex-gerente do cantor, disse que a "cultura elvisiana" vem crescendo principalmente fora de sua terra natal. Segundo Taylor Rodriguez, de 24 anos, original de Lynchburg, na Virgínia, que em 2019 foi coroado Campeão do Tributo Artístico Definitivo a Elvis da Elvis Presley Enterprises, nos EUA agora se fantasiar de Elvis é visto como desrespeito ao legado do ídolo. Lá tudo parece muito sério, enquanto, na Austrália, não se inscrever para dar boas risadas ainda parece ser o pior pecado.

– Acho que nos EUA não há nada que se compare a Parkes. Aqui é pura alegria, pura diversão, e é por puro amor a Elvis – concluiu Rodriguez.

Ou será a combinação da experiência com a simpatia amadora que torna tudo tão especial?

Uma noite, Rodriguez interpretou as músicas dos filmes que Elvis rodou nos anos 60 para uma casa cheia no Parkes Leagues Club – maravilha dos anos 50 com capacidade para 600 espectadores, cheiro de mofo, lambris nas paredes e um prato de satélite gigantesco no palco. (Este último, aliás, é outro motivo da fama da cidade, e ajudou a transmitir as imagens da chegada do homem à Lua, em 1969, para o resto do mundo.)

Na noite seguinte, depois do desfile, Rodriguez se esmerou no espetáculo do Elvis versão 1970, com um cuidado histórico aos detalhes, entrando no meio da multidão e, a certa altura, já no palco com Stone a seu lado, começou a jogar echarpes de seda para os fãs, como fazia o original.

Mas, quando um garoto não muito mais velho do que era quando começou a imitar o Rei (aos 9 anos) tentou pegar uma, ele saiu do personagem. Abaixou-se, vestido com o macacão de gola gigantesca parecido com o que Elvis usou no show transmitido pela TV de Honolulu, em 1973, e guiou a peça na mão para a mão do menino, mandando um recado que todo mundo que estava achando que a pandemia tinha acabado e que o futuro é incerto tinha de ouvir:

– Corram atrás de seus sonhos.

A seguir se levantou, fez um sinal para a banda e continuou.

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