Após crise, Onyx se reúne com Bolsonaro e garante que fica no governo: "não mudou nada"

Leandro Prazeres e Gustavo Maia
Jair Bolsonaro e Onyx Lorenzoni

O ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, foi na manhã deste sábado ao Palácio da Alvorada para conversar com o presidente Jair Bolsonaro. O encontro ocorreu dias após a eclosão da crise que se instalou no ministério com as duas exonerações do ex-secretário-executivo da pasta Vicente Santini - por conta do uso de um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) para viajar até a Índia - e a retirada do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), transferido para o guarda-chuva de Paulo Guedes no Ministério da Economia. Ao fim da reunião na residência oficial do presidente, Bolsonaro foi levar o ministro até o carro e os dois trocaram um abraço.

- Hoje, nós já conversamos sobre a rotina normal. Fica tudo igual, não mudou nada - declarou o ministro a jornalistas, na saída do Alvorada.

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Onyx disse que não conversou com o presidente sobre sua possível demissão ou realocação para outra pasta, e sim sobre as tarefas do ministro da Casa Civil a partir do seu retorno das férias, abreviadas por conta da crise. Sobre os episódios, ele classificou como "página virada":

- Nós conversamos sobre isso, mas isso é página virada. Ponto final. Conversamos hoje sobre isso e é página virada, está resolvido - respondeu, sendo instado a dar sua avaliação pessoal sobre o caso. - O presidente tomou as suas decisões. Eu volto a reafirmar: Jair Bolsonaro é o meu líder. A decisão que ele toma é a decisão que tem que ser acatada.

Sobre o esvaziamento da Casa Civil, que perdeu o PPI, Onyx disse que, quando o programa de governo foi feito, em julho de 2018, coordenado por ele e pelo ministro da Educação, Abraham Weintraub, o programa já estava na Economia. E lembrou que a estrutura já esteve antes na Secretaria de Governo, minimizando.

- Isso faz parte de decisões de governo e a gente acata. As responsabilidades que a Casa Civil têm, de centro do governo, de coordenação dos ministérios, e agora que nós criamos, mais recente, a secretaria específica para cuidar da acessão à OCDE, isso é extremamente importante e relevante - comentou Onyx.

- Eu não estou aqui e nem o presidente Bolsonaro em busca de poder. Estou aqui para servir o Brasil. Servir a sociedade. Eu não preciso de mais poder. Nós já temos uma atribuição e uma responsabilidade gigantesca. Ninguém aqui tem fome de poder. A gente tem fome de servir. E essa não é uma missão só nossa. - complementou o ministro.

O ministro relatou inicialmente que teve uma "reunião de trabalho" com o presidente, que lhe deu uma série de determinações.

- As coisas são continuar o seu rumo normal. Falamos muito já e revistamos a apresentação da mensagem presidencial (ao Congresso). Eu vou levar na segunda-feira às 15h, porque ele (Bolsonaro) vai estar em São Paulo, então eu estou com a incumbência  acrescentando que o presidente lhe pediu para fazer algumas correções no texto.

Ele chegou a Brasília na sexta-feira pela manhã. À tarde, foi chamado pelo presidente para uma reunião ministerial no Alvorada que discutiu a resposta brasileira ao coronavírus. Em meio a rumores de demissão ou realocação do ministro para outra pasta, Bolsonaro disse ao GLOBO à noite, que o "convite responde muita coisa", sinalizando a permanência do ministro no governo.

"Ele esteve hoje, convocado por mim, para discutir a questão do coronavírus. Acho que (o) convite responde muita coisa", afirmou o presidente, por mensagem.

Em seguida, o presidente compartilhou uma foto em que aparece ao lado do ministro da Educação, Abraham Weintraub, publicada também em suas redes sociais. Segundo o que ministros palacianos classificam como "boataria", Onyx substituiria Weintraub na pasta em uma "saída honrosa", como avaliam aliados do chefe da Casa Civil.

Quando chegou dos Estados Unidos ao aeroporto de Brasília, o ministro foi enfático ao dizer que "claro que não" considera entregar o cargo. Ele minimizou as baixas que seu ministério sofreu ao longo da semana, reafirmando ser um "soldado" de Bolsonaro. Ele disse ainda que estava focado na mensagem que entregará ao Congresso na abertura do ano legislativo, na segunda-feira. No encontro deste sábado, ele esperava "entender as razões" do chefe.

Pela manhã da sexta, o ministro declarou que sua missão, junto com Bolsonaro, é servir o Brasil, mas destacou que qualquer decisão cabe ao presidente, inclusive a de transferi-lo de ministério, como tem sido aventado nos bastidores do governo. No Planalto, reuniu-se com os ministros Augusto Heleno, do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), e Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo - uma "ótima conversa", segundo um dos participantes. Após o almoço, foi ao Alvorada para a reunião com Bolsonaro. Lá, não foi recebido separadamente pelo presidente, que só falou com ele na presença dos demais. Assim, evitou ser pressionado pelo subordinado.

Ao ser questionado pelo GLOBO na noite da sexta-feira sobre a conversa que teria neste sábado com Onyx, Bolsonaro respondeu por mensagem que esteve com o ministro "já na tarde de hoje". Mais cedo, à tarde, ele encerrou abruptamente uma entrevista na qual falava do coronavírus ao ser indagado se o chefe da Casa Civil continua no governo. O presidente estava acompanhado dos ministros Ramos, Luiz Henrique Mandetta (Saúde), Ernesto Araújo (Relações Exteriores) e Fernando Azevedo (Defesa).

- Bem, já que deturpou a conversa, acabou a entrevista. Obrigado, pessoal - declarou, encerrando a interação de 12 minutos com os repórteres. - Ao pessoal que tá ouvindo aqui, a entrevista tratava exclusivamente da questão do coronavírus e quando começam outras perguntas, a gente sair fora porque o que nós queremos é solução para o Brasil, e não problema - complementou, olhando para a câmera que transmitia a cena ao vivo pelo Facebook.

Em entrevista à Globo News, Onyx disse que a hipótese de ele deixar a pasta foi uma "onda" que se formou na imprensa.

- Ninguém está cogitando qualquer tipo de saída. Conversei com generais, ministros, com todo mundo - afirmou, ao jornalista Gerson Camarotti. - Estou sereníssimo, muito tranquilo. Somos amigos, parceiros de um projeto. Meu líder se chama Jair Messias Bolsonaro. Ele é o meu presidente - acrescentou.

Em uma lembrança que também serve como recado, o ministro disse ter lutado muito quando ninguém apostava em Bolsonaro, "uma postura rara".

- Nós começamos praticamente sozinhos. Nós e mais dois deputados. Tenho muita confiança nele. E ele em mim.

À tarde, o ministro da Casa Civil ganhou um apoio público significativo. O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) publicou nas redes sociais um vídeo em que Onyx aparece ao lado do ideólogo de direita Olavo de Carvalho, espécie de guru da família Bolsonaro, nos Estados Unidos, gravando uma mensagem para o presidente. "Nós estamos com o senhor até a morte", diz Olavo na gravação.

Aliados de Onyx avaliam que o Ministério da Cidadania, de Osmar Terra, ou da Educação, de Abraham Weintraub, possam ser a saída honrosa para ele. Segundo fontes, Bolsonaro avalia que Terra não entrega resultados e é indicação de Onyx.