'Não olhe para cima': Um filme sobre a estupidez contemporânea e sobre nós, diz crítica

  • Opa!
    Algo deu errado.
    Tente novamente mais tarde.
·3 min de leitura
96587241_SC - Não Olhe para Cima DON'T LOOK UP L to R JONAH HILL as JASON ORLEAN LEONARDO DICAPR.jpg
Neste artigo:
  • Opa!
    Algo deu errado.
    Tente novamente mais tarde.

O tema principal dos filmes de Adam McKay é a estupidez contemporânea. É uma estupidez recheada de consumismo e narcisismo, mimada pelo conforto de não precisar fazer nada e só xingar muito ou fazer piada na internet. Já acontecia quando McKay dirigia comédias com Will Ferrell (“Quase irmãos”, por exemplo), mas assumiu dimensões mais ambiciosas quando ele passou a tratar de temas políticos, como em “A grande aposta” (sobre a crise financeira de 2008) e “Vice” (sobre Dick Cheney, vice de George W. Bush). Em “Não olhe para cima”, assim como nos anteriores, ele constrói um amplo panorama de sociedade — envolvendo os meios de comunicação e as redes sociais — para expor a corrupção endêmica, o individualismo e a frivolidade brutal de nosso tempo, sem qualquer horizonte para projetos coletivos.

“Não olhe para cima” é uma sátira sobre nossa reação diante do colapso climático vindouro. É basicamente sobre os EUA, mas isso não impede que tracemos diversos paralelos com outros países e outras crises, no caso Brasil e Covid-19: a infantilização dos meios de comunicação é a mesma e o poder do negacionismo é igual. E Adam McKay filma isso tudo com o desespero existencialista de um Bergman? Não, ele filma o mundo dos poderes e da mídia como eles merecem ser filmados: como um circo.

Dois cientistas descobrem um cometa que vai se chocar com a Terra, destruindo a vida no planeta. Eles alertam a presidente do país. Nada acontece. Eles vão a um programa de TV superpopular que só tematiza amenidades: viram meme. A diretora da Nasa, que não é astrônoma e sim uma anestesista que doou dinheiro para a campanha da presidente, nega a versão deles. Mas depois confirma porque a presidente está envolvida num escândalo por ter nomeado o namorado ator pornô para a Suprema Corte, e usa o fim do mundo iminente apenas como estratégia diversionista. O filme ainda trata de nepotismo, fisiologismo, oportunismo, abuso gratuito de poder e, naturalmente, do poder privado sobre o público, na figura de um magnata tecnológico nos moldes de Elon Musk e Steve Jobs (em extraordinária performance de Mark Rylance, como um narciso lobotomizado), que no fim das contas dá ordens à presidente americana.

Como sátira que é, “Não olhe para cima” trabalha com caricaturas e simplificações. Mas, como o mundo do poder já perdeu qualquer noção de decoro, o filme soa como um retrato realista (o “não olhe para cima” do título refere-se a não olhar para o cometa, ou seja, negar a realidade; alguma semelhança com o infame “Placar da vida”?). Filmar o fim do mundo em tom de galhofa, convenhamos, não é fácil. Adam McKay só realiza seu intento porque no fundo é um verdadeiro cineasta brechtiano: ele usa humor, velocidade, cortes bruscos, narrativa híbrida, incorporação da recepção pública (via tuítes, vídeos de YouTube etc.) e a famosa quebra da quarta parede — quando o ator se dirige diretamente à câmera — para desarmar o espectador e jamais deixá-lo confortável de estar apenas fruindo um entretenimento. O filme não é sobre a inteligência de Adam McKay ao retratar a realidade. Não é tampouco, ou somente, sobre o fim do mundo. É sobre você. É sobre nós.

Cotação: Bonequinho aplaude de pé

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos