'Não posso ser médico se eu não puder ser artista', diz palhaço da cracolândia

***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 08.09.2022 - Flávio Falcone, o palhaço da cracolândia, é visto no fluxo de usuários de drogas na rua Helvétia, em SP. (Foto: Danilo Verpa/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 08.09.2022 - Flávio Falcone, o palhaço da cracolândia, é visto no fluxo de usuários de drogas na rua Helvétia, em SP. (Foto: Danilo Verpa/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Eram 15h30 da última quinta-feira (8) quando o psiquiatra Flávio Falcone chegou à rua Helvétia, no centro de São Paulo, onde atualmente está concentrada a cracolândia. Idealizador do Teto, Trampo e Tratamento, projeto de redução de danos que desenvolve com usuários de drogas da região, ele retornava pela primeira vez após ser detido ali, vestido como palhaço, por perturbação do sossego em uma operação policial.

Falcone chegou e estendeu uma lona na calçada, próximo à esquina com a avenida São João. Estava montado o picadeiro. Usuários se aproximaram para mais um "show de talentos", onde cantam, dançam, declamam poesia. O grupo Pagode na Lata, um dos coletivos que atuam na área, cuidou de fazer o samba. Água, sanduíche e refrigerante eram distribuídos para quem quisesse.

A trupe estava naquele dia sem um importante equipamento de trabalho, a bicicleta com caixa de som apreendida pela polícia na operação do dia 1º de setembro -e ainda não devolvida. Outro aparelho, bem menos potente, quebrou o galho. Ainda assim, não demorou para que as queixas começassem a pintar em um grupo de WhatsApp de moradores da região. "Chegou a palhaçada", escreveu um. "Sambando na nossa cara", respondeu outro.

Psiquiatra formado pela Faculdade de Medicina da USP, Falcone também é artista e decidiu unir os dois ofícios. Em 2009, ele atendia em um Caps (Centro de Atenção Psicossocial) de São Bernardo do Campo (Grande SP) e saía às ruas para encaminhar usuários de drogas e pessoas em situação de vulnerabilidade para tratamento. A aproximação era difícil, conta, até que um dia foi trabalhar vestido de palhaço.

"Foi um divisor de águas na minha carreira, no meu trabalho com essa população. Eu pisei na calçada e a praça inteira veio falar comigo. Falei 'uau, descobri aqui um negócio que faz uma conexão imediata'. E fui estudar. Nem eu sabia por que isso funcionava tanto", disse Falcone enquanto se maquiava em um camarim do Teatro de Contêiner Mungunzá, na Santa Ifigênia, antes de sair em caminhada para a cracolândia.

Àquela altura, já estudava a arte do palhaço havia uns cinco anos. Mas foi na formação em psicologia analítica junguiana -do psiquiatra suíço Carl Jung (1875-1961)- que encontrou mais respostas.

"O palhaço é a melhor forma que o ser humano encontrou para lidar com a sombra. A sombra é tudo aquilo que você esconde: seu fracasso, sua fragilidade, seu erro. Então o palhaço é o arquétipo do erro. Acredito que é por isso que o palhaço faz sucesso com essa população, são os excluídos, os errados da sociedade capitalista", afirma Falcone, para quem a alegoria também representa esperança. "É vida, alegria, riso."

O primeiro dia de trabalho na cracolândia, há quase dez anos, também foi marcante.

"Cheguei e tiveram certeza que eu era um policial disfarçado de palhaço. Fui levado para o tribunal do PCC, numa barraca ali mesmo, na [alameda] Dino Bueno. Estava com meu celular, mostrei fotos, falei 'sou artista, sou médico'. Tudo acabou numa roda de samba", contou. E desde então Falcone, cujo nome de palhaço é Fanfarrone, é chamado de "palhaço da cracolândia".

Diferentemente do que ocorre nos tratamentos com internação, em que a abstinência é uma condição, o modelo de redução de danos prega a autonomia dos usuários. E defende que o resgate da dignidade passa pela garantia do direito à moradia, primeiro passo antes de seguir à etapa seguinte, de busca por trabalho.

Com valores recebidos por meio de doações, o Teto, Trampo e Tratamento acolhe atualmente oito pessoas em pensões no centro de São Paulo, segundo Falcone. Desde a sua criação, em 2020, foram atendidos cerca de 40 usuários de drogas. O programa também oferece tratamento psiquiátrico e psicológico, além de apoio na busca por uma fonte de renda. Quem chega geralmente começa fazendo "bico" -ajudar a descarregar um caminhão no Mercadão rende R$ 50, por exemplo.

Vanilson Santos Conceição, 35, é um dos beneficiários do projeto e diz que está há seis meses sem fumar crack. Conhecido como Jamaica, ele conta que começou a usar drogas por volta dos 11 anos, ainda em Salvador, onde viveu. Além de colaborar com Falcone, ele se inscreveu em um curso de culinária.

"Eu estou bem, as pessoas me veem e dizem que estou engordando. Eu era pele e osso. Foi o incentivo do Flávio que me tirou da rua, se não fosse isso eu estaria morto", disse.

Outra beneficiária é Laurah Cruz, 34. Artista, ela trabalha hoje no coletivo Tem Sentimento, de apoio a mulheres cis e trans da região da cracolândia. Usuária de cocaína, Laurah diz que tem conseguido reduzir o consumo de drogas. "O projeto é muito importante para mim, eu fiquei cinco anos em situação de rua."

Falcone fez parte da equipe do De Braços Abertos, programa implantando na cracolândia em 2014 pela gestão Fernando Haddad (PT) na Prefeitura de São Paulo e extinto pelo sucessor, João Doria (PSDB). Apoiado no conceito de redução de danos, o programa oferecia moradia e trabalho em serviços como varrição e reciclagem, além de acompanhamento médico.

"O meu trabalho agora é reproduzir o que o Braços Abertos fazia", explica Falcone. "A redução de danos trabalha com o princípio de que o mais importante é estabelecer um vínculo terapêutico. A partir desse vínculo você desenha o tratamento, respeitando a singularidade de cada um."

O psiquiatra afirma que o trabalho com a arte foi tão significativo que, se tivesse que escolher entre uma atividade ou outra, ficaria com a arte. "Não continuaria com a medicina se eu não pudesse ser artista dentro da medicina."