‘Não queria voltar, mas a vítima sou eu, então retornei’, diz jovem negro acusado de furtar guarda-chuva

O estudante de Nutrição Fábio Leandro de Souza Nascimento, de 25 anos, retornou na noite desta terça-feira, dia 14, ao Teatro Ipanema. O rapaz denunciou ter sido alvo de racismo no sábado, dia 11, durante a estreia da peça "Nem todo filho vinga", que fala sobre preconceito racial. Uma mulher acusou Fábio de ter furtado um guarda-chuva. O caso foi registrado como injúria por preconceito na segunda-feira, dia 13. O universitário voltou ao teatro a convite da Secretaria municipal de Cultura, responsável pelo equipamento cultural.

— No primeiro momento, não pensei em retornar para o teatro, mas agradeço a força que recebi das pessoas. Não foi fácil retornar ao lugar onde tudo aconteceu — disse Fábio Leandro.

Antes de iniciar a apresentação dos 80 anos da Orquestra Afro-brasileira, o secretário municipal de Cultura, Marcus Faustini, prestou solidariedade e apoio ao fato denunciado por Fábio.

— Ele relatou um caso de racismo aqui na nossa casa (no Teatro Ipanema) e nós acolhemos o Fábio. O racismo deve ser combatido através de ações jurídicas e incentivo a uma reeducação. Então, Fábio, eu quero mais uma vez prestar nossa solidariedade a você. O Fábio não estava mais querendo vir ao teatro porque ficou abalado com essa história, mas ele teve coragem de ter ido a delegacia e de retornar aqui. Nós vamos dar todo nosso apoio no que precisar, desde fornecer as imagens de segurança até estando do lado dele. Parabéns pela coragem de levar a frente uma denúncia de racismo, não é fácil. A Secretaria de Cultura também existe para isso, para trabalhar articulada e se empenhar em combater o racismo e por isso fizemos questão de mais uma vez receber você aqui Fábio — disse o secretário em público.

O jovem negro acusado de furtar o guarda-chuva relatou que, após pensar muito, entendeu que não poderia se calar.

— Não fui eu que cometi o ato. Eu sou a vítima e não posso me calar diante disso. Neste momento, não estou representando só o meu caso. Todo dia, pessoas negras sofrem racismo aqui no Brasil. E não são poucas. Através do que aconteceu comigo quero usar da minha voz para fazer barulho. Ter me pronunciado e registrado a ocorrência é um meio de apoiar todo mundo injustiçado que já sofreu o que eu sofri e dizer que a gente não está sozinho — comentou o estudante de nutrição.

A delegada titular da 14ª DP, Daniela Terra, disse que a alegação do Fábio de ter sofrido racismo foi registrada por injúria por preconceito e destacou que “não é cabível que em pleno século XXI as pessoas pratiquem racismo”:

— Assisti a um vídeo que está circulando na internet que seria do caso. As imagens são estarrecedoras.

Fábio Leandro afirmou que quer justiça:

— Nós, pessoas negras, não podemos deixar passar os casos de racismo que sofremos. Não pode passar impune, já chega! Temos que buscar a Justiça. A gente não pode mais se calar diante do racismo porque todo filho vingará!

*Estagiária sob supervisão de Leila Youssef

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