'Não quero me associar a fascismo de Putin', diz oligarca russo ao renunciar a cidadania

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um dos empreendedores mais famosos da Rússia, o magnata Oleg Tinkov renunciou nesta terça-feira (1º) à cidadania russa alegando que não quer ser associado ao "regime fascista de [Vladimir] Putin" ou a pessoas que colaboram com "assassinos".

Em seu perfil do Instagram, Tinkov, 54, afirmou que tomou a decisão "depois de a Rússia invadir a Ucrânia e começar a matar inocentes lá". Segundo o oligarca, a publicação original em que ele mostrava o documento em que abdicava da cidadania "desapareceu misteriosamente" da plataforma -o que ele atribui a "trolls do Kremlin".

"Espero que outros empresários russos de primeira ordem sigam o meu exemplo, para enfraquecer o regime de Putin e sua economia e fazer com que fracasse", dizia a primeira postagem. "Odeio a Rússia de Putin, mas amo todos os russos que são claramente contrários a esta guerra doentia."

Tinkov era o principal dono da TCS Group Holding, uma fintech que cresceu e se tornou uma das maiores instituições financeiras da Rússia. Em abril, depois de uma série de comentários contra a invasão russa da Ucrânia, ele foi forçado a vender sua participação na empresa a Vladimir Potanin, o homem mais rico do país, mais alinhado ao Kremlin.

Ainda nesta terça, Tinkov disse que está contratando advogados para revogar a marca Tinkoff do banco homônimo, controlado pela TCS. "Odeio quando minha marca/nome é associada ao banco que colabora com assassinos", escreveu. O Tinkoff Bank, por sua vez, afirmou que tem plenos direitos legais sobre o uso da marca, de acordo com a agência de notícias russa TASS.

Tinkov sempre foi um crítico da ofensiva russa na Ucrânia e evidenciou o dissenso presente mesmo entre a elite política e econômica no país sobre a decisão de Putin de invadir o vizinho. "Noventa por cento dos russos são contra essa guerra insana. Dez por cento pintam o 'Z' [símbolo da invasão] porque são idiotas, mas todo país tem 10% de idiotas", escreveu o empresário nas redes sociais nas primeiras semanas de guerra.

Até o ano passado, Tinkov compunha a lista de bilionários da Forbes, com fortuna estimada em US$ 7,7 bilhões (R$ 39,8 bilhões). Ele saiu do rol neste ano, e hoje seu patrimônio líquido é avaliado em cerca de US$ 646 milhões (R$ 3,35 bilhões).

A queda se deve em parte a sanções impostas pelo Reino Unido gueque impediram que o oligarca tivesse acesso a seus bens. À época, anterior à venda da participação de Tinkov na TCS, Londres alegou que o empresário estava "recebendo benefícios do governo russo" e o incluiu na lista de oligarcas alvos de retaliações devido à Guerra da Ucrânia.

A localização de Tinkov é incerta, mas acredita-se que ele viva em Londres, onde passou por anos de tratamento contra leucemia. O russo também já teve cidadania dos EUA, mas renunciou a ela em 2013, quando o Tinkoff Bank abriu seu capital -o que Washington entendeu como uma tentativa de evitar obrigações fiscais. Nesse aspecto, o oligarca chegou a um acordo de US$ 500 milhões com o Departamento de Justiça americano no ano passado.

Segundo a Forbes, Tinkov é o terceiro magnata a anunciar sua renúncia à cidadania russa neste ano. Nesta semana, a startup britânica Revolut informou que seu cofundador, o russo Nikolai Storonski, abdicou do documento no início do ano. No início de outubro, o bilionário russo e investidor do Facebook Iuri Milner também anunciou que ele e sua família desistiram da cidadania no início deste ano depois de terem "deixado a Rússia para sempre" após a anexação da Crimeia, em 2014.