'Não quero que passem por isso': o alerta de técnica em enfermagem em live feita dias antes de morrer por covid-19

Vinicius Lemos - Da BBC News Brasil em São Paulo

Em 19 de abril, a técnica em enfermagem Daniele Costa, de 41 anos, desabafou em uma live em seu perfil no Facebook. "Não quero que nenhum dos meus amigos ou familiares passem pelo que passei. É muito difícil", disse emocionada, ao falar sobre os sintomas da covid-19, doença causada pelo novo coronavírus.

Na transmissão, ela afirmou que estava bem e pediu para que as pessoas se cuidassem. "Não saiam de casa se não houver necessidade. Deixem para fazer churrascos ou comemorações depois. Não é momento para se reunir", declarou.

Ela atuava no Serviçode Atendimento Móvel de Urgência (Samu) no Rio de Janeiro e em uma Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.

A técnica em enfermagem estava na linha de frente do combate ao novo coronavírus. Em meados de abril, começou com uma tosse seca e se afastou do trabalho. Posteriormente, teve febre alta, cansaço intenso e se tornou uma paciente com suspeita de covid-19.

Dias depois dos primeiros sintomas, a situação de saúde dela piorou. Daniele foi internada às pressas. Os exames confirmaram que ela havia sido infectada pelo vírus. Na noite de segunda-feira (27), a técnica em enfermagem morreu.

Daniele é exemplo de um número que tem crescido diariamente no país: o de profissionais de saúde mortos em decorrência do novo coronavírus.

De acordo com dados atuais do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), no Brasil há ao menos 43 mortes de técnicos ou enfermeiros já comprovadamente causadas pelo Sars-Cov-2, nome oficial do novo coronavírus. Há ainda 14 mortes suspeitas, que aguardam confirmações.

Entre os profissionais de enfermagem na linha de frente contra o vírus, há 1,3 mil infectados no Brasil e 5,9 mil com suspeitas.

"Amigos da área de saúde, lutem pelos EPIs (Equipamentos de Proteção Individual) corretos", disse Daniele, em sua live de 19 de abril. Ela frisou a importância de que as unidades de saúde forneçam a proteção ideal para os trabalhadores. A técnica em enfermagem comentou que mesmo protegida no trabalho, acabou infectada pelo vírus.

'Ela dava a vida para cuidar dos outros'

Daniele trabalhava na função há 18 anos. "Ela era apaixonada pela profissão e sempre foi muito preocupada com o próximo. O trabalho na área da saúde era a vida dela", diz a irmã caçula dela, a técnica em segurança de trabalho, Tatiane Spagnol, de 26 anos.

"Muitas vezes, ela deixou de passar as festas de fim de ano em família para trabalhar. Ela sempre foi muito dedicada", relata Tatiane, emocionada, à BBC News Brasil.

Nos locais em que trabalhava, Daniele era uma pessoa muito querida. "A UPA não vai ser a mesma sem a nossa Dani", escreveu uma colega de profissão, nesta terça-feira (28).

"Vou me lembrar de você na luta e no combate, porque até o último momento você foi uma guerreira", disse, no Facebook, uma colega de trabalho de Daniele no Samu.

Segundo a família, a técnica em enfermagem não tinha nenhuma doença prévia. "Ela era uma pessoa saudável. Essa ideia de que o vírus mata somente pessoas com alguma comorbidade é errada", diz a irmã.

Quando começou a apresentar os sintomas da covid-19, Daniele logo se licenciou do trabalho por medo de transmitir o vírus. A partir de então, se isolou na casa em que morava sozinha, em Nova Iguaçu.

Os familiares dela moravam nas proximidades e passaram a levar alimentos e itens de higiene para ajudá-la durante o período.

Nos primeiros dias, os sintomas pareciam leves, mas foram se agravando. "A cada dia é uma surpresa. Tive diarreia, a minha boca ficou muito amarga e eu, que nunca perco o apetite, estou sem apetite", disse a técnica em enfermagem, na transmissão no Facebook.

Enquanto estava isolada, acompanhava com preocupação as mortes de colegas da área de saúde que também haviam sido infectados pelo Sars-Cov-2.

Um motorista de ambulância da mesma unidade do Samu em que ela trabalhava morreu dias antes de Daniele. Um maqueiro, da UPA na qual ela atuava, também morreu. A cada morte, ela compartilhava nas redes e lamentava.

Em seu perfil no Facebook, Daniele destacava o amor à profissão. "Sou profissional da saúde e estou trabalhando por você. Na linha de frente", diz a frase da foto de perfil dela.

A live no Facebook

Após ser questionada por diversas vezes sobre os sintomas da covid-19, Daniele decidiu fazer a live. A transmissão durou 22 minutos. No período, era possível ouvir uma sequência de músicas ao fundo.

"É assim todos os dias. Aqui ao lado da minha casa tem uma barraca e vejo reuniões diariamente. Me entristece e dói o meu coração. Fico com medo, porque são todos meus vizinhos e são pessoas que gosto e considero. Fico morrendo de medo de ficarem doentes igual a mim", disse Daniele.

"Pelo amor de Deus, não é brincadeira. É muito triste ver pessoas não ligando e achando que é brincadeira. Não é brincadeira", declarou.

O agravamento da covid-19

Logo nos primeiros sintomas, Daniele procurou atendimento na UPA em que trabalhava. Ela passou por exames que comprovaram a suspeita de que ela pudesse ter sido infectada pelo Sars-Cov-2. Na transmissão ao vivo no Facebook, ela contou que o médico que a atendeu não receitou nenhum medicamento e apenas a mandou para casa.

"A minha irmã teve de se medicar com aquilo que ela achava que poderia ajudá-la com a tosse e com a febre. Acredito que se tivessem medicado ela corretamente desde o princípio e a acompanhado, sem liberá-la daquela forma, ela poderia ter se recuperado", diz Tatiane.

Na quinta-feira (23), o quadro de saúde de Daniele piorou. Ela estava em casa quando sentiu uma intensa falta de ar. "Ela me ligou e pediu para que a levasse para a UPA, porque estava com muitas dificuldades para respirar", comenta Tatiane.

Daniele recebeu atendimento médico, teve uma aparente melhora e foi liberada. Horas mais tarde, ligou novamente para a irmã e relatou que estava pior. Novamente, foi levada para a UPA, onde permaneceu internada.

Ela teve de ser intubada e ficou em isolamento. O resultado do exame, feito na primeira vez em que procurou ajuda médica, comprovou que a técnica em enfermagem havia sido infectada pelo novo coronavírus.

Posteriormente, ela foi transferida para um hospital da região, especializado em pacientes com a covid-19. "Foi muito difícil conseguir essa transferência, porque todos os hospitais estão lotados. Está uma situação complicada", lamenta a Tatiane.

Até domingo (26), segundo os familiares, o quadro de saúde de Daniele era considerado estável. "Diziam que ela estava reagindo bem aos medicamentos", diz Tatiane. Na noite de segunda, porém, a técnica em enfermagem teve uma parada cardiorrespiratória e morreu. "Foi algo inesperado para a família", relata a irmã.

"Está sendo muito difícil para a gente. Ela poderia ter recebido um acompanhamento melhor no princípio, logo que procurou o primeiro atendimento. Ela passou a vida inteira se dedicando aos cuidados com a saúde dos outros, mas quando mais precisou não tiveram o devido cuidado com ela", critica Tatiane.

"O atendimento que ela teve em seus últimos dias foi bom. Mas o primeiro atendimento que ela teve foi muito ruim e não a ajudou", afirma a irmã.

A despedida

Mesmo com exames que comprovaram que Daniele tinha a covid-19, a doença não constava no atestado de óbito da técnica em enfermagem. "É uma forma de tentarem ocultar o número de casos", acredita Tatiane.

Ela teve de ir à unidade de saúde, na manhã desta terça-feira (28), para exigir que colocassem o novo coronavírus entre as causas. "A minha irmã morreu por causa desse vírus. Como que não queriam mencioná-lo nas causas do óbito?", questiona.

Segundo Tatiane, posteriormente o hospital incluiu a covid-19 nas causas da morte da profissional de enfermagem.

Daniele deve ser enterrada na manhã desta quarta-feira (28). "Não conseguimos antes, porque todos os cemitérios estão cheios", diz Tatiane.

A breve cerimônia de despedida reunirá poucas pessoas, com máscaras, e o caixão dela será lacrado, conforme normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Devem participar os pais, irmãos, dois tios e uma prima da técnica em enfermagem.

"É muito triste não poder dar um enterro digno para a minha irmã. Muitos da família não vão poder ir. Sequer poderemos vê-la pela última vez, porque o caixão vai estar fechado. É muito doloroso", diz Tatiane.

Os parentes da técnica em enfermagem devem permanecer em isolamento pelos próximos dias. Caso apresentem sintomas, deverão procurar ajuda médica.

Ao se recordar das últimas conversas com a irmã, Tatiane se emociona ao falar sobre o quanto Daniele ficava triste ao ver as pessoas ignorarem questões como o isolamento social.

"A minha irmã vivia para a área da saúde. Ela sabia a importância dessas medidas. Onde eu moro, vejo muitas ruas lotadas e bares cheios. As lotéricas também estão cheias. As pessoas não estão levando sério."

"Muita gente não compreendeu a gravidade de tudo isso. Mas espero que não tenham que perder uma pessoa da família, e não poder se despedir dela, para que entendam o quanto esse vírus é perigoso", declara Tatiane.

O alerta que hoje é feito por Tatiane remete ao que foi dito por Daniele durante a live de 19 de abril. "Espalhem para todos sobre esses cuidados. Deixem para depois (as reuniões e comemorações). Sou festeira à beça, mas estamos respeitando esse período, porque a gente quer comemorar muito e muito, por vários dias, com todos bem de saúde", disse a técnica em enfermagem, em um dos momentos finais da transmissão ao vivo.

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