"Não são criminosos!": crianças migrantes permanecem detidas em Trinidad e Tobago

Esteban ROJAS
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Pescador se prepara para embarcar para participar da busca pelas vítimas de um naufrágio em Guiria, na Venezuela, em 18 de dezembro de 2020, após a morte de vários migrantes que tentavam atravessar para Trinidad e Tobago

Sete crianças migrantes da Venezuela estão detidas e mantidas sem direito à comunicação em Trinidad e Tobago, denunciaram seus familiares, em um caso que agravou a crise da travessia de embarcações ilegais entre os dois países, que deixou mais de cem mortos e desaparecidos desde 2018.

Elas fazem parte do grupo de 16 menores que Trinidad e Tobago deportou em novembro, junto aos 11 adultos que os acompanhavam.

No entanto, o retorno à Venezuela não ocorreu e, após passarem horas no mar, os migrantes foram devolvidos ao país insular por ordem judicial.

Nove desses menores foram libertados em 31 de dezembro, mas separados de suas mães, que permanecem detidas em Trinidad e Tobago.

"Estamos tentando sensibilizar o coração deles (...). Libertem nossas famílias. Eles não cometeram nenhum crime. Não são criminosos, não são assassinos!", afirmou um dos denunciantes em um encontro com correspondentes estrangeiros.

A fonte pediu para proteger sua identidade declarando-se vítima de "perseguição" dos agentes da imigração.

Onze adultos, nove mulheres e dois homens, permanecem sob custódia das autoridades junto aos menores no heliporto de Chaguaramas, 13 km a oeste de Puerto España.

Esses 27 migrantes - os 16 menores e os 11 adultos - obtiveram o indulto de um juiz, que ordenou a suspensão da expatriação e determinou que os menores fossem colocados sob a custódia de seus pais assim que completassem a quarentena para a covid-19.

"Eles não têm permissão para visitas e acesso a um telefonema", contou a advogada de direitos humanos Karla Henríquez, que presta apoio a esses migrantes.

"Eles têm uma medida cautelar de proteção da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH). Ela não foi cumprida".

- Isolados -

As condições da prisão são ruins, alertam parentes. Quando os migrantes voltaram para Trinidad e Tobago após sua expulsão, vídeos foram postados nas redes sociais mostrando crianças e suas mães deitadas atrás das grades em colchonetes finos no chão.

"Eles não têm uma alimentação boa, as crianças já adoeceram várias vezes, não deixam que a gente leve remédios ou comida para eles", relatou um familiar.

"Meus filhos ficaram com diarreia (...). A comida que recebiam era nojenta", diz outro.

A maioria dos viajantes veio de Delta Amacuro, uma região isolada e empobrecida do leste da Venezuela com uma população predominantemente indígena.

Há o medo de falar. Eles acusam policiais de operações ilegais e atos de extorsão, entre outros crimes, contra migrantes venezuelanos em Trinidad e Tobago.

- Separação -

Puerto España defendeu sua decisão de deportar os venezuelanos e, no final de novembro, deu um sinal claro ao expulsar 160 deles.

O primeiro-ministro Keith Rowley disse que o país de 1,3 milhão de habitantes está sob "ataque" de gangues de tráfico de pessoas "usando crianças inocentes"; uma acusação rejeitada pelos familiares.

"Onde estão as provas?", disse um deles.

Os menores libertados e entregues aos pais, por sua vez, sentem saudades das mães: "Os meus filhos acordam tristes todos os dias, perguntando por sua mãe", conta um dos pais.

A ONU estima em mais de cinco milhões o êxodo de venezuelanos desde 2015, devido à crise aguda em seu país, 24.000 com Trindade e Tobago como destino.

Inúmeros naufrágios clandestinos de barcos foram relatados na perigosa viagem marítima entre os dois países, localizados a cerca de 100 km um do outro.

Um barco que deixou Güiria (estado de Sucre) em 6 de dezembro naufragou, com um número oficial de 29 mortos.

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