'Não sabe quantas balas tem um revólver 38', diz amigo de Bolsonaro sobre novo ministro da Justiça

JULIA CHAIB E GUSTAVO URIBE
***FOTO DE ARQUIVO*** BRASÍLIA, DF, BRASIL, 11.01.2016 . O deputado Alberto Fraga (DEM-DF) dá entrevista sobre o novo ministério, o da Segurança Pública, após reunião no Palácio do Planalto com o presidente Michel Temer. (FOTO: Alan Marques/ Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Aliado de primeira hora do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), o ex-deputado federal Alberto Fraga (DEM-DF) elogiou nesta quarta-feira (29) a nomeação do advogado e pastor André Mendonça para o Ministério da Justiça, mas avaliou que ele não tem preparo suficiente para cuidar da área de segurança pública.

Em entrevista à reportagem, o ex-parlamentar, que vinha evitando a imprensa nas últimas semanas, defendeu a recriação do Ministério da Segurança Pública e criticou a decisão do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes, que suspendeu a nomeação do delegado Alexandre Ramagem, amigo dos filhos do presidente, para o comando da Polícia Federal.

"É um bom nome [André Mendonça]. Um nome de grande saber jurídico, mas, na área de segurança pública, não sabe quantas balas tem um revólver 38", disse. "Ele tem estatura para o cargo. Agora, sem querer criticá-lo, para a Segurança Pública ele terá dificuldades, foi o que já disse sobre o ex-ministro Sergio Moro", acrescentou.

Mendonça, que foi transferido da AGU (Advocacia-Geral da União), toma posse na tarde desta quarta-feira no Palácio do Planalto. Com a decisão de Moraes, o presidente revogou decreto que nomeava Ramagem para a Polícia Federal.

Fraga chegou a ser cotado para assumir a Secretaria-Geral da Presidência caso Bolsonaro escolhesse o ministro Jorge Oliveira para o posto antes ocupado pelo ex-juiz Sergio Moro. Agora, volta a ser cogitado caso Bolsonaro decida recriar a pasta da Segurança Pública.

Ele disse, no entanto, que não tratou recentemente desse assunto com o chefe do Executivo, mas avalia que seria importante para o presidente recriar a pasta por ser um desejo da população brasileira.

"Claro que defendo a recriação do Ministério da Segurança Pública. Quem vai ser o ministro? A escolha é do presidente. É ele quem tem de escolher. E espero que Deus o ilumine e ele escolha alguém que tenha competência para exercer essa função", afirmou Fraga.

O ex-líder da bancada da bala lembrou que sempre defendeu a recriação da Segurança Pública. Ele contou que fez a solicitação ao ex-presidente Michel Temer (MDB) em 2017, quando foi decidido elevar o status da então secretaria para ministério.

"Eu acho que o presidente tem vivência suficiente nessa área para entender que precisa de um nome de peso para a Segurança Pública. O Jorge Oliveira poderia não ter um grande saber jurídico, mas tem conhecimento na segurança pública. Por isso que precisa separar os dois ministérios. Eu tenho certeza que o presidente vai seguir esse caminho [separar as duas áreas]."

Questionado pela reportagem se aceitaria a função caso fosse convidado, o ex-deputado federal disse que precisaria avaliar primeiro o plano do presidente para a estrutura.

"Eu defendo uma pasta que possa padronizar e normatizar as atuais regras nos estados", disse.

Fraga criticou o ministro da Cidadania, Onyx Lorenzoni, que, de acordo com ele, foi quem convenceu Bolsonaro a voltar a fundir Segurança Pública com a Justiça.

"Foi Onyx que teve essa ideia estapafúrdia de, depois de criado o ministério, fundir de novo. Não deveria. Era uma pasta que já vinha sendo desejada pela população brasileira. Tem de ter um ministro para cuidar da segurança pública do país, que é o que mais mata", afirmou Fraga.

Os nomes do advogado André Mendonça, 47, para substituir Moro no Ministério da Justiça, e do delegado Alexandre Ramagem, 48, para a vaga de Maurício Valeixo na diretoria-geral da Polícia Federal, foram oficializados nesta terça-feira (29) no Diário Oficial da União.

"O cargo é de livre nomeação. É um poder discricionário do presidente. Estranho muito essa posição do ministro Alexandre de Moraes. Não faz sentido você não poder nomear um amigo. É crime, então, ser amigo do presidente?"

Moraes suspendeu a posse com base em elementos que apontam o interesse do presidente em nomear para o comando da Polícia Federal um diretor que poderia fornecer a ele acesso a informações privilegiadas.

A proximidade de Ramagem com a família de Bolsonaro --ele é apontado como amigo do presidente e seus filhos-- são citados como fatores secundários na determinação.

Ao deixar o ministério, Moro disse que Bolsonaro queria acesso a relatórios de investigação e acusou o presidente de querer interferir na PF, que investiga acusações de disparo de fake news, que incluem os filhos do chefe do Executivo.

Segundo Fraga, o presidente nunca pediu acesso a investigações contra os filhos dele. "E eu tenho certeza de que ele nunca vai pedir", ressaltou. "Talvez ele não tenha se expressado bem. O presidente recebe relatórios ultrassecretos da Abin e das Forças Armadas que o diretor-geral da Polícia Federal não tem conhecimento."

Fraga relatou que, além de Ramagem, Bolsonaro considerava para a Polícia Federal o nome do secretário de Segurança Pública do Distrito Federal, Anderson Torres.

"Foi uma escolha do presidente. Aí me coloco no lugar dele. Se eu tenho alguém que trabalhou comigo, por que vou escolher outro que não conheço? Não vejo nada demais na escolha de alguém conhecido da família", disse.

Apesar de elogiar a escolha do amigo, Fraga reconhece que há outros perfis na Polícia Federal com mais experiência que Ramagem. Depois da saída de Moro do governo com acusações de que Bolsonaro pretendia interferir na Polícia Federal, a nomeação do novo diretor-geral da corporação virou alvo de uma série de ações na Justiça e de resistência no Congresso.