'Não sei se foi pela minha cor ou minhas roupas', diz homem espancado em bar ao ser acusado de roubo

Um pintor de 31 anos foi espancado ao ser confundido com um bandido em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio. Wellington Conceição da Silva foi acusado de praticar roubos na frente de um bar na Rua Doutor Francisco Portela, no bairro Neves. O caso aconteceu na noite do último sábado, e foi registrado na 73ª DP (Neves). O dono do estabelecimento e um segurança, que agrediram a vítima com socos, tapas e pontapés, podem responder pelos crimes de calunia, lesão corporal e injúria.

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Wellington voltava para casa depois de passar algumas horas num bar da região com um amigo. Apesar de não se recordar de detalhes da noite, acredita que tenha parado no local onde foi agredido para uma saideira ou para usar o banheiro do estabelecimento.

— Depois disso, fui levado para um canto e muito agredido. Me davam socos, chutes, pontapés, tudo. Não lembro direito tudo que aconteceu, mas repetiam que eu tinha roubado. Eu não tinha. Não tinha nada comigo. Não sei se foi pela minha cor ou pelas minhas roupas que acharam isso, mas, se me revistassem, eles veriam que não tinha nada comigo. Nem vítima teve, ninguém foi até eles falar nada de roubo — conta o pintor.

Em um vídeo feito por um dos agressores e divulgado nas redes sociais, Wellington aparece com diversos ferimentos no rosto, sentado numa calçada e descalço. Sem reagir aos tapas e pontapés, ele é constantemente questionado sobre o crime não cometido: "Eu não roubo ninguém", reforça a vítima durante toda a gravação. Nas imagens é possível observar que um dos olhos de Wellington e sua boca estão inchados, e que o pintor está ensanguentado.

A vítima passou por um exame de corpo de delito, que comprovou as agressões.

— Eu tenho duas filhas, de 8 e 10 anos, e vou ficar sem vê-las, não quero causar constrangimento para elas e eu estou bem machucado ainda. Meu medo, no momento, é que elas vejam esse vídeo. Desde que vi a filmagem, me sinto frágil e com vergonha — afirma.

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Segundo o pintor, ele não teve vontade de sair de casa desde que foi injustamente agredido:

— Se não fossem os meus amigos e familiares falando para sair de casa, para não deixar assim, afirmando que todos me conhecem e sabem que eu não teria feito nada daquilo, não teria saído. Só saí de casa por conta disso. Tive muita força de todos da região, todos estão revoltados. Tem familiar meu que nem conseguiu ver o vídeo porque sabia da crueldade. Agora, só quero provar a minha inocência.

De acordo com o delegado titular da 73ª DP, Geraldo Assed, o caso deve ser encaminhado à Justiça na próxima semana. O dono do estabelecimento foi intimado, na quarta-feira, a depor. Ao comparecer na delegacia no dia anterior, ele negou, informalmente, as agressões. A polícia aguarda também a lista com a qualificação dos seguranças do bar. O caso que foi, inicialmente, registrado como lesão corporal e pode evoluir para o crime de tortura, a depender do rumo das investigações.