Não serei objeção a PSD na base de Lula, diz governador eleito em Sergipe

***ARQUIVO***CAMPINAS, SP, 14.11.2018 - O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab. (Foto: Bruno Santos/Folhapress)
***ARQUIVO***CAMPINAS, SP, 14.11.2018 - O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab. (Foto: Bruno Santos/Folhapress)

RECIFE, PE (FOLHAPRESS) - O governador eleito de Sergipe, Fábio Mitidieri (PSD), diz, em entrevista à Folha de S.Paulo, que não fará objeção caso o partido decida fazer parte da base aliada do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

"Conversei com o presidente [do partido] Gilberto Kassab e disse a ele que não seríamos objeção caso o partido deseje integrar a base do presidente Lula", afirma.

Em entrevista à Folha, Kassab elencou condições para o partido aderir ao governo Lula, como participação em cargos no governo e apoio à reeleição de Rodrigo Pacheco (MG) à Presidência do Senado.

Mitidieri derrotou Rogério Carvalho (PT), apoiado por Lula, em uma disputa acirrada no segundo turno em Sergipe.

Para Mitidieri, Lula deve pacificar o país e priorizar os programas sociais na nova gestão. "O foco do PT sempre foi o social, precisa voltar a investir em programas como Mais Médicos, Minha Casa, Minha Vida, Luz para Todos, que deram certo e movimentaram a economia", afirma.

O futuro governador sergipano também avalia que falas de Jair Bolsonaro (PL) prejudicaram o presidente na busca pela reeleição. "O problema dele foi a língua, falava demais e se comprometia muito, mais até do que as ações do seu próprio governo."

PERGUNTA - O PSD deve participar do governo Lula?

FÁBIO MITIDIERI - Conversei com o presidente [do partido] Gilberto Kassab e disse a ele que não seríamos objeção caso o partido deseje integrar a base do presidente Lula. Somos um partido de centro, amplo e temos vários aliados que são a favor [e outros] que são contra.

P. - Qual o principal desafio do novo governo?

FM - Tem que pacificar o país. Se a política vai bem, a economia tem uma tendência de caminhar bem. Lula precisa mostrar que vai ser um governo para todos e buscar corrigir erros do passado. Na economia, temos que buscar fazer com que o país volte a ter uma relação melhor com outros países. O foco do PT sempre foi o social, precisa voltar a investir em programas como Mais Médicos, Minha Casa, Minha Vida, Luz para Todos, que deram certo e movimentaram a economia.

P. - Qual a avaliação geral que o sr. faz do governo Bolsonaro?

FM - Existe um Bolsonaro e o governo Bolsonaro. Bolsonaro não toma vacina [contra a Covid] e faz campanha contra a vacina, o governo Bolsonaro comprou vacinas e distribuiu. O problema dele foi a língua, falava demais e se comprometia muito, mais até do que as ações do seu próprio governo. Em algumas áreas, ele fez reformas importantes como a da Previdência, mas, na área social, pecou. Mesmo tendo feito o Auxílio Brasil de R$ 600, ele não conseguiu capitalizar. Essa marca [social] ainda é muito forte dos governos do PT.

P. - Qual tratamento o sr. espera do governo Lula depois dos conflitos que houve entre governadores do Nordeste principalmente e Bolsonaro?

FM - Os governadores do Nordeste tiveram uma relação muito difícil com o governo Bolsonaro, até por ser o Nordeste a grande base eleitoral do governo Lula. Espero que, por isso mesmo, o Nordeste receba uma atenção diferenciada. A região foi importante para a vitória dele. A gente espera ter esse reconhecimento na forma de ações.

P. - A demora do presidente Bolsonaro para se pronunciar sobre o resultado estimulou as manifestações golpistas e os bloqueios nas rodovias?

FM - Com certeza não ajudou. O movimento mais democrático é reconhecer o resultado das eleições, parabenizar o adversário e desejar sucesso. A demora inflama esse percentual de público de militantes mais radicais, não são todos os bolsonaristas que são assim. Importante que ele já reconheceu e que já está sendo feita a transição.

P. - No segundo turno, o sr. enfrentou e venceu Rogério Carvalho, do PT, em disputa acirrada. Esse embate que aconteceu pode gerar alguma animosidade na relação com o governo Lula?

FM - No primeiro turno, votei também no presidente Lula e meu adversário entrou com uma ação na Justiça para que eu fosse proibido de pedir votos para Lula. Recebi multa e fui alvo de busca e apreensão. Tenho um pouco de amor próprio e daí em diante não pedi mais votos, fiquei neutro. Fui muito acolhido por eleitores de Bolsonaro no segundo turno e sou grato. Quem governa, governa para todos. Tive votos dos dois lados, foi uma vitória plural. [Dizia que] em janeiro, nem Lula nem Bolsonaro seria governador de Sergipe.

P. - O sr. votou em quem no segundo turno?

FM- Fiquei neutro. Não declarei voto em respeito a esse eleitor que me abraçou e por conta do outro lado, que praticamente me expulsou e não queria o meu voto [para Lula].

P. - Passado o segundo turno da eleição, o sr. não quer revelar o seu voto?

FM - Não. Não precisa.

Tem espaço para uma recomposição com o PT em Sergipe? Vocês foram aliados nas eleições de 2018. Nesse momento, é muito difícil. Foi uma campanha dura, em que muita coisa aconteceu e deixou algumas sequelas que o tempo é que vai colocando tudo no lugar.

P. - Como avalia a união de Rogério Carvalho, do PT, com Valmir de Francisquinho (PL), que é bolsonarista, no segundo turno contra o seu palanque?

FM - Acho que essa aliança não foi bem aceita pela sociedade sergipana. O primeiro turno foi atípico, Valmir estava inelegível, mas dizia à população que era candidato e que reverteria o processo [na Justiça Eleitoral]. Mas acabou o primeiro turno e o povo viu que aquilo era um estelionato eleitoral. No segundo turno, houve a união deles e aquele discurso de que era perseguição se acabou.

P. - O presidente eleito Lula (PT) disse que, em janeiro, vai reunir os governadores e pedir que citem três projetos prioritários nos estados para tentar viabilizar uma parceria com o governo federal. Quais serão os seus?

FM - Tenho discutido com a equipe de transição. Na área de desenvolvimento econômico, queremos fazer um novo Porto de Sergipe, para área profunda. Sem a ajuda do governo federal, fica difícil o estado realizar sozinho. Além disso, esperamos a finalização do Canal do Xingó para o sertão, e a Adutora do Leite, no sertão do estado, porque precisamos trazer água bruta para dobrar a produção.

P. - A atual regra com limite para a cobrança do ICMS sobre os combustíveis, sancionada por Bolsonaro, vale até o final do ano. O sr. defende que essa regra seja mantida a partir de janeiro?

FM - Isso gerou uma frustração de receitas [para os estados], o que dificulta ainda mais a situação para 2023. As compensações não foram feitas da maneira devida para repor as perdas aos estados. Tem que ser revisto porque não podemos comprometer a saúde, a educação, os salários dos servidores. [Se for para manter], tem que haver uma compensação.

P. - Qual o legado que o governo Fábio Mitidieri quer deixar para Sergipe?

FM - Desenvolvimento econômico através da geração de emprego. Isso que dá dignidade às pessoas.

RAIO-X

Fábio Cruz Mitidieri, 45

Governador eleito de Sergipe, está no segundo mandato seguido como deputado federal. Antes, foi vereador de Aracaju, capital do estado. É formado em administração pela Universidade Tiradentes. Também exerceu os cargos de secretário de Esportes de Aracaju e secretário estadual do Trabalho.

51,7%

foi o percentual de votos válidos obtidos no 2º turno, contra 48,3% de Rogério Carvalho (PT)