"Não seremos mais enganados", dizem manifestantes que invadiram residência presidencial no Sri Lanka

REUTERS - DINUKA LIYANAWATTE

O presidente do Sri Lanka, Gotabaya Rajapaksa, fugiu de sua residência oficial neste sábado (9), em Colombo, capital do país, antes de o local ser tomado por manifestantes. Segundo uma fonte do Ministério da Defesa, o chefe de Estado foi levado para um local seguro e segue no cargo.

Durante a manhã, as mídias locais mostraram centenas de pessoas escalando os portões da residência presidencial, após a repressão de um protesto exigindo a renúncia de Rajapaksa. Ele é apontado por parte da população como o responsável da crise econômica sem precedentes da qual o Sri Lanka é palco, com falta de alimentos, medicamentos, combustíveis e cortes de eletricidade.

Segundo o correspondente da RFI na região, Sébastien Farcis, os manifestantes se revoltaram quando a polícia tentou finalizar a manifestação. Menaka Indrakumar, que participou do ato, contou que após as violências, os militantes decidiram entrar na residência presidencial.

"Foi um absurdo! Os policiais atiraram bombas de gás lacrimogênio e nos atacaram disparando balas de borracha. Mas os manifestantes os desafiaram, foi uma loucura, parecia um filme. Esse presidente sempre assustou a população, mas agora ninguém mais tem medo dele", contou à RFI.

Na tarde deste sábado, milhares de pessoas continuavam nas ruas de Colombo. Para os militantes, esse é considerado um dia histórico. É o caso de Mélanie, que após meses de protestos, acredita que nada mais será igual no país.

"Jamais o Sri Lanka conheceu uma revolução ou um acontecimento desta relevância. Isso dá esperança a todo o país porque nós sabemos que as pessoas estão defendendo seus direitos. Não vamos sossegar enquanto as coisas não mudarem", disse à RFI.

Segundo ela, os militantes estão decididos a não ceder. "Queremos um governo interino que resolva o quanto antes a crise econômica que atinge o país, dando comida, medicamento e gasolina à população. Não vamos tolerar mais corrupção, que os políticos nos roubem ou façam o que bem entenderem. Não seremos mais enganados", reitera Mélanie.

Crise econômica pós-pandemia

Desde que se tornou independente do Reino Unido, em 1948, o Sri Lanka não enfrentava uma crise econômica como a atual. A situação começou a se degradar durante a pandemia de Covid-19, que privou o país do turismo, atividade da qual é dependente. Segundo especialistas, as péssimas decisões políticas agravaram ainda mais a economia.

Há três meses o país passou a ser palco de protestos massivos que exigem a demissão do presidente. Em maio, nove pessoas morreram e centenas ficaram feridas durante as manifestações.

Na sexta-feira (8), as forças de segurança determinaram um toque de recolher para tentar dissuadir os manifestantes de sair às ruas. A medida foi suspensa depois que partidos de oposição, ativistas de direitos humanos e advogados ameaçaram processar o chefe de polícia de Colombo.

Presidente permanece no poder

O primeiro-ministro Ranil Wickremesinghe, que é o próximo na linha de sucessão em caso de renúncia de Rajapaksa, convocou uma reunião de emergência do governo neste sábado para debater uma "solução rápida" para a crise. Em um comunicado, ele convidou os líderes dos partidos políticos a participar do encontro e também pediu a convocação do Parlamento.

"Gotabaya Rajapaksa permanece como presidente e está protegido por uma unidade militar", indicou uma fonte do Ministério da Defesa. O chefe de Estado indicou que aceitará qualquer decisão que for tomada após a reunião de emergência.

O irmão dele, Mahinda Rajapaksa, que ocupava o cargo de primeiro-ministro até o último mês de maio, fugiu do país após a intensificação dos protestos. Funcionários do governo afirmaram que desconhecem as intenções de Gotabaya Rajapaksa. "Estamos esperando instruções", declarou uma fonte próxima ao presidente. "Ainda não sabemos onde ele está, mas sabemos que está protegido pela Marinha do Sri Lanka e que está a salvo", garantiu.

(Com informações da RFI e da AFP)

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