'Não sou das redes sociais', diz Otávio Augusto

Quando estreou nos palcos em 1966, sob a direção de Zé Celso Martinez Corrêa, no Teatro Oficina, Otávio Augusto teve a convicção de que, dali por diante, não seria um ator que viveria na superfície da profissão que abraçara. Mesmo para quem experimentaria a popularidade no Brasil interpretando um vampiro numa novela das sete, para o ator, que está completando 60 anos de carreira, debutar em “Os inimigos”, do russo Máximo Górki, era o prenúncio de uma trajetória com mergulhos cênicos profundos. Afinal, não havia como estar no Oficina sem atinar para questões socialmente perturbadoras que sacudiam o país naquele período de ditadura militar.

—Não havia meio-termo. O Oficina, assim como o Arena, já nasceu com o compromisso histórico de discutir as questões sociais e políticas brasileiras — diz o ator, que reestreia hoje nova temporada de “A tropa”, no Teatro Petra Gold. — Os atores que lá chegavam tinham de desejar e se entregar àquela filosofia. No meu caso, eu não escolhi o Oficina. Foi o Oficina quem me escolheu, porque fui fazer um teste para “A morte do imortal”, do Lauro César Muniz. Só que a peça só seria montada caso a censura não liberasse “Os inimigos”. Mas Górki passou e eu, teoricamente, estava fora. Por sorte, como gostaram muito do meu teste, fui parar em “Os inimigos”.

No texto do dramaturgo carioca Gustavo Pinheiro, Otávio vive um ex-militar no leito de um hospital, em que descortina, sob os cuidados de quatro filhos, as mazelas sociopolíticas e as contradições ideológicas que perpassam o Brasil. Com humor e pessimismo. Os afetos familiares, os valores morais e éticos, bem como as diferenças de visões de mundo conduzem o espectador a um mergulho em suas próprias experiências a partir das discussões que se apresentam.

— Embora tenha sido escrita em 2014, “A tropa” continuará sempre traduzindo de forma atual os dramas da sociedade. Os personagens personificam as várias camadas e conflitos sociais, éticos e morais do país — acredita o ator.

O autor Gustavo Pinheiro retribui o elogio:

—Otávio é um ator que traz humanidade a qualquer personagem. Por isso, até mesmo quando faz um coadjuvante, ele se destaca.

Excetuando os últimos dois anos de reclusão involuntária devido à pandemia, Otávio Augusto jamais passou por longos hiatos em seis décadas de trajetória. O currículo é vasto. Segundo ele, são 80 peças, 60 filmes e outras 80 participações em TV, entre novelas, minisséries e especiais. É, indubitavelmente, um dos atores mais atuantes de sua geração, tendo dividido palcos e cenas com um grupo estelar de profissionais, que vão de Fernanda Montenegro e Marieta Severo a Tony Ramos e Reginaldo Faria.

Na década de 1970, ao lado de Fernanda, brilhou por dois anos em “O amante de madame Vidal”, de Louis Verneuil. Com Marieta, marcou a história do teatro brasileiro ao encarnar o controvertido Max Overseas, protagonista de “A ópera do malandro”, de Chico Buarque, na antológica primeira versão de 1978.

—Foi o Zé (Celso) que me levou para este lugar do teatro mais politizado, que gera debates e reflexões profundas sobre a sociedade em que vivemos. Com ele, também fiz “O rei da vela” e me apaixonei por esse caminho. Amo também as comédias, mas não sou um homem que relativiza temas que me afligem. Não sou das redes sociais justamente porque não sei lidar com a superficialidade das narrativas contemporâneas. Sou um profissional da palavra, dos textos. Não sei o que é TikTok — ressalta.

Apesar da carreira pautada por roteiros densos, nenhum dos trabalhos aclamados pela crítica deu a Otávio Augusto tanta notoriedade quanto Osvaldo Matoso, o vampirão de “Vamp”, novela de Antônio Calmon.

—É impressionante como “Vamp” ainda é tão presente. As pessoas continuam a me chamar de Matoso. Eu gosto do diálogo com as novas gerações, até mesmo em atuar com os mais jovens. Isso me ajuda a reorganizar a vida sob outras perspectivas. Aos 77 anos, é um exercício cada vez mais importante para mim — avalia.

Onde: Teatro PetraGold. Rua Conde de Bernadote 26, Leblon (2529- 7700). Quando: De 1º de julho a 26 de agosto. Sex, às 20h30. Quanto: R$ 70 . Classificação: 14 anos

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