'Não tem rachadura nenhuma aqui', diz presidente do COB

Paulo Wanderley está desde 2017 à frente do COB. Nesta entrevista, ele fala sobre Paris, Tóquio, CBF e sobretudo do comitê, passando por assuntos que pouco tratou publicamente, como a política interna do COB, a relação com o Governo Federal e se será candidato a mais um mandato.

Abaixo, os principais trechos da entrevista, realizada na sede do comitê, no Rio de Janeiro.

Em junho o COB assinou um acordo na França para usar as instalações da cidade de Saint- Ouen que fica próxima da Vila Olímpica. Como será o uso do local? Os atletas já podem usar a estrutura?

Esse é um projeto que começou já há tempos, não foi nesse ano. Nós fizemos algumas visitas, em 2020 já tiveram visitas, prospecção, na verdade. Não foi com o objetivo exclusivo para Saint-Ouen, outras áreas foram visitadas, clubes foram visitados. E essa foi a que ofereceu as melhores condições. Não só física, porque o espaço é muito próximo da Vila Olímpica, e esse fator é muito importante, a locomoção dos atletas, mas a parceria econômica foi muito boa. Nós dividimos custos com a cidade. E a nossa contrapartida é fácil, é a interlocução com a comunidade. As delegações que estiverem lá, dentro do nosso acordo, vão interagir com a comunidade, com as crianças. E já em agosto, a seleção de vôlei masculina já vai passar por lá em preparação para o Campeonato Mundial, na Polônia.

Em Tóquio o Brasil teve um ótimo resultado, mas foi uma olimpíada muito cara para o COB, por causa da distância e do câmbio. Para Paris o COB poderá fazer mais investimentos?

Não houve em Tóquio algo que nós achamos que não poderíamos fazer por causa de custo. O nosso objetivo era fazer a excelência como sempre, em todas as áreas que atuamos. Oferecemos o melhor às equipes e aos atletas, então não houve pendência, não houve algo que deixamos de fazer por causa do custo. Paris, bom, mais barato? Na teoria sim. É mais próximo e o custo de passagem tem que ser menor. Mas aí você vai ter a curiosidade e a vontade reprimida do mundo em relação ao turismo. A Olimpíada vai ser a primeira pós-pandemia em que vai poder ter púbico, vamos torcer por isso, e até agora não tem nada contra. A demanda vai aumentar bastante pra ida à Paris. Nós tivemos lá agora por conta dessa questão de Saint-Ouen e eu fiquei assustado. No início de férias, que foi no meio de junho e não tinha hotel. Não era o período de férias ainda e não tem olimpíada em Paris. Muito provavelmente os custos vão dobrar, vão ter dificuldades não só de hospedagem, mas de aéreo também. Por conta disso, eu não acho que vá ficar mais caro do que Tóquio, mas poderá chegar próximo em função dessas questões de você não conseguir por conta da procura.

O Brasil ganhou medalhas em Tóquio com atletas em modalidades individuais. O COB tem trabalhado pra renovar esses talentos?

O COB está atento a isso. Ano passado nós criamos a nossa área de desenvolvimento, já existia, mas dividimos a área esportiva em duas, para exatamente dar uma atenção especial e trabalhar em conjunto com o alto rendimento e fomentar a base. Agora mesmo um plano que foi elaborado pela área de desenvolvimento, o Kenji Saito que elaborou e já vai ser posto em prática para o Pan-Americano no ano que vem. Que são os atletas que tiveram sucesso no Pan-Americano de juniores e foram identificados como talentos. Tem um programa dentro do COB justamente para motivar, impulsionar esses atletas que já mostraram ao que vieram e darmos continuidade a eles. Terão oportunidade de ter uma assistência mais dedicada a esse grupo para os jogos Pan-americanos e daí para frente.

Também em Tóquio aconteceu o desentendimento com a CBF, quando os jogadores da seleção amarram os agasalhos na cintura e esconderam a marca do patrocinador do COB, o que gerou um processo. O que o Comitê pede nessa ação?

Essa situação está em banho maria, na verdade. Nós somos do entendimento que eles já entenderam que não deve ser dessa forma. E não estamos aqui para perseguir ninguém. Muito menos uma confederação e muito menos uma confederação do porte da CBF. Houve mudança de direção e parece que as coisas estão se encaminhando para uma solução pacífica. Até porque a empresa a qual se sentiu prejudicada, ela amenizou as suas cobranças e renovou o contrato. Esse era o maior problema para nós. Se não renovasse o contrato aí ficaria diferente a situação, mas o contrato foi renovado, não houve prejuízo de monta, só o prejuízo de imagem no momento e eu acredito que isso aí será levado a contento.

Em março, o senhor demitiu o diretor de esportes Jorge Bichara e algumas pessoas de dentro do COB reclamaram de que não foram informadas da decisão, inclusive o seu vice, Marco La Porta. Hoje, o COB está rachado politicamente?

Em absoluto, não tem rachadura nenhuma aqui. Não permito rachadura onde eu estou presente. Não permito. Eu resolvo essa situação de imediato. O que houve foi o seguinte, e isso já é público não tenho problema em retomar esse assunto. Pra mim esse assunto está encerrado completamente, totalmente. O ex-diretor de esportes do COB, quando cheguei ele era gerente, não era diretor. Ele entrou como diretor quando eu assumi. Ele fez um ótimo trabalho, estava fazendo um ótimo trabalho e continuou fazendo um ótimo trabalho. E não houve solução de continuidade com a troca. Eu simplesmente dividi a área em duas, em área de desenvolvimento e rendimento. Então a motivação da troca foi técnica. E está indo muito bem.

E como está a relação com o La Porta?

Excelente. O vice-presidente La Porta é um parceiro meu em particular. Ele foi convidado por mim para ser vice-presidente. Ele foi eleito por unanimidade. Ele fez a primeira eleição dele porque houve um lapso, uma vaga. Eu fui a presidente e ficou sem vice. E tive que fazer uma eleição para vice, o que não é normal. O normal é o presidente e o vice virem na mesma chapa. Na segunda eleição dele foi dentro da chapa. E está aí para colaborar e está colaborando, participando. Ele é muito ativo. É uma pessoa muito ativa dentro do esporte brasileiro.

O senhor vai tentar se eleger presidente do COB novamente?

Eu nunca, dentro desse tempo todo na gestão esportiva, antecipei nenhuma posição minha. Eu sou de sentir o ambiente, vamos ver como as coisas acontecem. Acho que estamos numa fase muito boa do esporte olímpico no Brasil, em todos os sentidos. Uma serenidade muito boa. O estatuto do COB é muito democrático, não tem limitação para quem quer ser presidente. É legítimo a aspiração de qualquer um, sendo atleta, dirigente, qualquer segmento, o nosso estatuto acolhe. Vamos esperar as coisas acontecerem. Temos jogos Pan-Americanos, jogos de Paris, deixa essa coisa lá pra frente. Deixa eu me concentrar no que eu tenho que fazer, no que sou obrigado a fazer e gosto de fazer, que é administrar. Vamos deixar essa política lá pra frente.

O senhor já disse que é a favor de um mandato mais um. Caso se eleja novamente vão ser 11 anos à frente do COB, não acha muito tempo?

Não acho. Eu dirigi a Confederação de Judô por 16 anos. E segundo as boas línguas, deixei uma boa imagem dentro da modalidade. O judô é comprovadamente um esporte de sucesso. Ele é constante e tem uma sequência de evolução. O próprio Comitê Olímpico Internacional, que é nossa entidade máxima, permite uma gestão que no nosso entendimento são três mandatos. A eleição é por oito anos, a primeira, e tem o segundo mandato que é de quatro. Eu acho que pra um dirigente em termos de uma instituição nacional, é um período adequado, apropriado. Se ele não fizer uma boa administração, ele sai. Ele não é dono do mandato. Os donos são os eleitores dele. Se os eleitores não gostarem, não estiverem satisfeitos, tira. Não é no voto? Então tira. Não somos obrigados a ficar e nem eles obrigados e nos aceitar. Mas hoje é isso um mandato mais um. Um mandato eleito e outra eleição.

Quando o Bichara saiu diversos atletas manifestaram apoio a ele. Como está a sua relação com os atletas?

Eu tenho um perfeito entendimento do que é ser atleta. Eu fui atleta. Não fui olímpico, mas fui atleta. Fui treinador olímpico, treinador de mundial, então tenho um relacionamento muito bom por entender quais são os anseios dele. Da minha parte eu não tenho nenhum problema com os atletas. Mas da parte deles têm que perguntar pra eles.

Na França o Comitê Olímpico se manifestou a favor de Emmanuel Macron na eleição de contra Marie Le Pen. Existe a possibilidade de o COB apoiar publicamente algum candidato nas eleições de outubro?

Olha, não deve ter sido atual presidente, a Brigitte. E deve ser por isso que tem outro presidente lá no Comitê Olímpico. Eu não sabia disso. Eu não tenho esse conhecimento. E a carta olímpica não nos permite isso. Eu não faria o que eles fizeram e não farei. O nosso norte é a carta olímpica, o Comitê Olímpico Internacional. O COB é uma instituição privada apolítica.

Nota da redação: Brigitte Henriques assumiu em junho. O apoio foi dado em abril, durante a gestão de Denis Masseglia, que não se candidatou.

Mas o esporte em sua essência, ele não é político?

Dentro do esporte sim. Eu faço política, sou gestor. Eu dependo de voto. Você faz política na sua família. Tem política dentro de casa, na sua célula mater, você faz política.

O senhor está satisfeito em como o governo federal tem tratado o Esporte? Houve o rebaixamento de secretaria para ministério, problemas com o bolsa atleta ...

Eu sempre considerei e ainda considero que o esporte brasileiro merece um ministério do esporte. Isso é fato. Embora dentro da estrutura atual eu não tenha tido nenhum tipo de problemas. Os problemas foram resolvidos, então deixaram de ser problema.

Não acha que falta investimento sobre tudo para a prática do esporte nas escolas?

Não é o que eu estou vendo com as ações que o governo está fazendo. Eles estão supervalorizando as questões dos eventos esportivos. Você vê a questão dos jogos escolares, o COB já faz jogos nessa faixa etária há 16 anos, e eles também estão fazendo os jogos nessa mesma faixa etária. Então estão oportunizando mais. A questão do esporte social, com a nova lei, eles estão enfatizando isso aí. Inclusive os grandes investimentos do esporte são na área educacional, que envolve o esporte escolar quando o universitário. Estão na lei atual. Eu não tenho conflito de interesse com ele. Somos um segmento pequeno, só lidamos com o alto rendimento. Esse é o nosso foco. Precisa realmente é dizer quem faz o quê. Eu sei que nós fazemos alto rendimento. Agora, as outras áreas que são importantes, esporte de iniciação, esporte na escola, é fundamental.

Falta engajamento político? Recentemente a Lei Geral do Esporte e a renovação da Lei de Incentivo ao Esporte foram votadas, mas a participação massiva foi de ex-atletas através de ONGs.

Falta sim. Mas não como bandeira. Mas quando você vê uma ação dessas que aconteceu com a Lei Geral do Esporte, que eles fizeram uma compilação de todas as leis que tratam do esporte no país em um documento só, aí você tem que ir sim. Você tem que ir lá pra dentro e mostrar presença e foi o que nós fizemos. O Comitê Olímpico levou lá quase que a totalidade das confederações e atletas, na representação do Comitê de Atletas do Comitê Olímpico. A presidente foi, alguns membros da Comissão de Atletas mostrando presença. Foi a operação presença. Estamos aqui e impactou. Tivemos audiência na Câmara com o presidente, tivemos acompanhamento do deputado que estava fazendo a relatoria do processo. Estamos aqui, essa é a nossa participação.

O COB tem alguém em Brasília, como a CBF tem?

Não, não tem. E não digo que não deva ter. Não tem porque não temos. Precisamos de um nome apropriado. Eu acho que não pode ser alguém vinculado a partido. Por que a partir do momento que você tem um porta-voz e está estampado que ele pertence a esse e aquele partido, você pode ter algumas entradas naquele partido ao qual ele representa e a outras não. Não é uma situação simples de resolver. Há necessidade sim de você saber o que tá acontecendo. Você só sabe o que está acontecendo se estiver dentro. Agora como conseguir esse equilíbrio de estar dentro sem pertencer, é que é difícil. Gente tem. No dia que fizerem a regulamentação dessa profissão, como tem nos Estados Unidos, pode-se pensar em contratar um profissional específico pra isso. Mas na base da troca não dá.

A iniciativa privada tem se aproximado mais para o COB não ficar tão dependente da verba pública?

Verba pública em parênteses. Existe uma interpretação para ambas as opiniões, que é pública e não é pública. Nós temos sim ações voltadas para captação privada. E tem melhorado. E a nossa atenção em relação ao recurso privadíssimo, que é a iniciativa privada aportando no espore, ela é constante. Hoje nós temos uma área específica, que não existia antes. Hoje nós temos uma nova forma de ver o marketing, comercial e captação dentro do COB. Acho que estamos e vamos melhorar nessa área.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos