‘Não temos instrumentos de controle de preços como no passado’, diz economista Luiz Roberto Cunha

O pedido do ministro da Economia, Paulo Guedes, para os supermercadistas congelarem preços por uns meses encontra vários paralelos na história econômica do país, lembra o economista Luiz Roberto Cunha. Todos fracassaram. O decano da PUC fez parte do Conselho interministerial de Preços (CIP), nos anos 1970, que determinava o preço dos produtos.

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Na situação atual, ele diz que não adianta recorrer aos varejistas, à indústria, ao produtor. A culpa é de guerra entre Rússia e Ucrânia, “é uma inflação no mundo inteiro".

Com nosso passado de combate à inflação, adianta pedir para o varejo não subir preços?

Tem que pedir para Rússia não invadir a Ucrânia, uma das origens dessa inflação, que é alta no mundo inteiro, só que no Brasil temos eleições. Mais recentemente, tivemos a presidente Dilma Rousseff, em 2013, chamando os supermercados porque a carne estava subindo. Hoje, a origem da alta de preços vem dos grãos, da guerra da Ucrânia. Viemos de dois anos de pandemia que teve impactos grandes sobre a cadeia produtiva.

Todos os governos, corretamente, aumentaram o gasto para compensar de baixa renda na pandemia, que aumentou a demanda. Não adianta essa tentativa de falar com supermercado e indústria para não aumentar preço, se o problema está na origem, no atacado. A culpa não é dos supermercados, não é da indústria de alimentos, não é do produtor agrícola, é uma inflação no mundo inteiro.

Como enfrentar essa inflação?

Não temos os instrumentos de controle como no passado, que não funcionaram, diga-se de passagem. Os mecanismos de controle fracassaram. Se funcionasse, a Argentina não tinha essa inflação (58% nos últimos 12 meses até abril). Nos anos 1970/1980, houve intervenção direta nos preços da indústria com CIP e a Sunab ficava o abastecimento, com a parte de alimentação.

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Tinha legislação para isso. Eram outros tempos, um regime autoritário, com muitas formas de pressionar o setor privado.

Houve outras tentativas de controle de preços?

No governo Sarney, com Plano Cruzado, depois veio o Plano Bresser, Plano Verão. Até que veio o Plano Real (em 1994), sem nenhuma intervenção. Em todas as experiências de intervenção nos preços, desde CIP e Sunab, a inflação depois explodiu. Houve também as câmaras setoriais (formada por governo, empresários e trabalhadores) no governo Collor, onde se tentava negociar com os representantes de vários elementos da cadeia.

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Sentava-se com produtor, supermercados, para não aumentar preço. Essas tentativas também não funcionaram.

Não se deve esperar muito dessa iniciativa diante da experiência histórica?

Existem duas verdades em economia: uma é o mecanismo de oferta e procura, mesmo que se tenha que olhar mercados. Paulo Guedes é a pessoa que mais deve saber disso. A segunda verdade é que não existe almoço de graça. O que quer que se faça na economia, terá consequência, principalmente se for de maneira populista.

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Acaba pagando lá na frente. Em condições normais, a inflação atual preocupa por afetar as pessoas mais pobres. Para o dirigente de plantão, no período eleitoral, pior ainda.

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