'Não tenho como comprar comida, nem mesmo feijão', reage desempregado a fala de Bolsonaro sobre fuzil

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No dia do anúncio de nova alta no preço da energia, o presidente Jair Bolsonaro chamou de “idiota” aqueles que dizem que é melhor comprar feijão do que fuzil. Nas ruas, a reação veio de quem não tem dinheiro nem para comprar comida. Desempregado, Luis Vander, 39 anos, mora nas calçadas do bairro da Glória.

— Tudo que a gente come vem de doação. Não tenho como comprar comida, nem mesmo feijão —, explica, mostrando restos de ossos e pelancas, que seriam destinados para fábrica de sabão, e que são usados para alimentar a família. O genro de Vander, Alexandre, criticou o presidente:

— Esse cara é desumano.

Em meio a uma crise que se arrasta nos últimos dias com membros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) subiu o tom dos ataques na manhã de ontem.

— Tem que todo mundo comprar fuzil, pô. Povo armado jamais será escravizado. Eu sei que custa caro. Daí tem um idiota que diz ‘ah, tem que comprar feijão’. Cara, se não quer comprar fuzil, não enche o saco de quem quer comprar — declarou.

‘Motociata’

Bolsonaro disse que não quer “interferir” em outros Poderes, mas afirmou: “difícil governar desta maneira”.

Mais tarde, o presidente Jair Bolsonaro “sextou” em uma “motociata” com apoiadores em Goiânia. Foi o nono evento desse tipo que Bolsonaro participou desde maio, mas pela primeira vez o passeio ocorreu em um dia de semana, durante o horário tradicional de expediente.

Diante do agravamento da crise hídrica no país, o governo anunciou que a bandeira tarifária, sobretaxa que é acionada quando o custo da geração de energia aumenta, vai subir novamente — depois do reajuste em julho de 52% — de R$ 9,49 para um valor entre R$ 14 e R$ 15 a partir de setembro. A decisão da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) será informada no máximo até a próxima terça-feira. Será um aumento, portanto, entre 50% e 58%.

Moradora de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, Angélica Santana da Silva, de 31 anos, vive de favor na casa do sogro, com o marido e os três filhos. Ela lamentou a fala do presidente.

— A gente para comprar feijão é um sacrifício pois no governo dele (Bolsonaro) é só aumento (de preços). Ele não deveria falar uma coisa dessas —, disse.

Para preparar o feijão, que segundo Bolsonaro deveria ser trocado por um fuzil, o marido Evandro corta lenha e Angélica cozinha. No prato o básico do básico: arroz e feijão.

— O botijão aqui custa R$ 110. Não tenho condições de comprar — lamenta .

O percentual de reajuste na bandeira 2 foi discutido numa reunião com diversos representantes do governo esta semana. De acordo com participantes dessa reunião, o Ministério de Minas e Energia sugeriu subir o valor da bandeira para R$ 24, o que seria mais do que o dobro de aumento, por um período de três meses. Analistas do mercado também avaliavam que seria necessário um aumento dessa magnitude.

Prevaleceu, porém, a proposta do Ministério da Economia, de cobrar uma taxa entre R$ 14 e R$ 15 por um período maior, possivelmente de seis meses. Será um período para recuperar os reservatórios após o início do período úmido, no fim do ano. Além disso, foi levado em conta o impacto na inflação: ao invés de concentrar a alta em três meses, caso a bandeira fosse de fato para R$ 24, preferiu-se diluir este impacto em seis meses.

Nesta quinta-feira, o ministro da Economia, Paulo Guedes, mencionou a necessidade de encher os reservatórios das hidrelétricas. Por isso, a pasta defende um meio termo para a cobrança, de maneira a manter a taxa por mais tempo pagando as termelétricas e recuperar as represas. Desde abril, o ministério de Guedes defende que a bandeira suba, com esse argumento. Esta semana, o ministro perguntou qual seria o problema de ter reajuste de energia?

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