'Não tenho culpa de morar aqui', diz jovem do Salgueiro que perdeu o Enem

·3 min de leitura
  • Ação policial terminada em chacina impediu 500 jovens de realizarem prova do Enem

  • Episódio aconteceu mesmo após decisão do STF de restringir para casos excepcionais as operações policiais nas comunidades

  • Defensoria pede reaplicação do exame aos jovens prejudicados pela ação policial

Beatriz, 19, estudava intensamente havia dois meses para o vestibular de medicina. A operação deflagrada pela Polícia Militar no último domingo (21), no Complexo do Salgueiro, porém, atravessou os seus planos. Moradora da comunidade, a estudante não pôde sair de casa por questões de segurança e perdeu a prova do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). A reportagem trocou o seu nome para preservá-la. 

Sua mãe conta que a filha queria fazer a prova de qualquer jeito, mas que não permitiu. O conflito teve início no sábado (20), quando o policial Leandro Rumbelsperger da Silva foi morto na favela, e escalou com a entrada do Bope (Batalhão de Operações Especiais) na comunidade. Nove pessoas morreram e uma idosa foi baleada. 

 A operação teve como motivação a morte do policial e aconteceu apesar da decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) que restringiu para casos excepcionais as operações policiais nas comunidades enquanto durar a pandemia da Covid-19

"A gente mora em um lugar bem próximo ao acontecimento. Aquela correria toda, dando tiro toda hora, não tinha como deixá-la ir. Eu falei: 'prefiro você viva'", diz a mãe. 

Beatriz afirma que se sentiu muito mal por ter perdido a prova, o que piorou seu quadro de depressão. "Fiquei triste, deprimida. Foi um dia péssimo. Espero ter outra oportunidade. Eu não tenho culpa de estar aqui, morando nesse lugar." 

500 jovens foram impedidos de comparecer ao exame por ação na comunidade

Assim como Beatriz, outros 500 jovens que fariam o Enem em seis locais próximos ao Salgueiro não compareceram, o que representa uma abstenção de 24,4%, ainda abaixo da média estadual, de 24,9%. Os dados são da Fundação Cesgranrio, responsável pela aplicação da prova no estado. 

Estudantes que moram nas imediações do complexo faltaram ao exame não só para preservar a própria vida, mas também porque a circulação de ônibus na região foi afetada. 

Nesta quarta-feira (24), a DPU (Defensoria Pública da União) enviou um ofício ao Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) pedindo a reaplicação das provas para todos os moradores do Complexo do Salgueiro e para todos aqueles que prestariam o exame em lugares que ficam a até 5km do local da operação. O órgão pede que a resposta seja encaminhada em até três dias. 

A reportagem procurou o Inep para questionar se os estudantes terão outra oportunidade de fazer o exame, mas não obteve resposta. 

O edital do Enem prevê a possibilidade de reaplicação por questões logísticas, como desastres naturais, falta de energia elétrica, falha no dispositivo eletrônico fornecido ao participante que solicitou uso de leitor de tela ou erro de execução de procedimento de aplicação que incorra em comprovado prejuízo ao participante. 

A deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP), colunista da Folha, também encaminhou um ofício ao Inep pedindo a reaplicação da prova para os jovens do Salgueiro. Seu amigo e colega no movimento Acredito, João Vitor Pires, 23, criou no início da semana uma petição para gerar pressão a favor dos estudantes. Até o momento, a lista conta com mais de 6.000 assinaturas. 

"Desde sábado acompanhei muito de perto a operação porque moro próximo. No domingo, acompanhando a aplicação da prova, comecei a imaginar como o pessoal do Salgueiro iria fazer. Recebi vários relatos de gente que não saiu de casa com medo de acontecer alguma coisa. Daí surgiu a ideia de mobilizar", diz ele, que é assessor especial da secretaria municipal de Educação do Rio de Janeiro.

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