'Se o anfitrião está no sol, fico no sol', justifica presidente da Anvisa que participou de ato com Bolsonaro

Paula Ferreira

BRASÍLIA — A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) é um dos principais órgãos à frente do combate ao novo coronavírus e tem atuado na linha de frente para garantir insumos e equipamentos necessários à contenção da Covid-19. Apesar disso, no último domingo, o nome da agência foi imerso em uma polêmica após o diretor-presidente da instituição, Antonio Barra Torres, acompanhar o presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido) em uma manifestação pró-governo e contra o Congresso diante do Palácio do Planalto. Em entrevista ao GLOBO, nesta sexta-feira, Barra disse que se sente "triste" caso tenha passado uma mensagem negativa à população em relação ao combate ao vírus e afirmou que cumpriu todos os protocolos, inclusive cumprimentando Bolsonaro com o cotovelo. O médico ressaltou, no entanto, que acompanharia o presidente em respeito : "se o anfitrião está no sol, fico no sol. Se está na chuva, fico na chuva."

O diretor-presidente da Anvisa minimizou a declaração de Bolsonaro considerando a reação à epidemia uma "histeria" e afirmou que o governo pretende apenas passar tranquilidade à população. Aventado nos bastidores como uma preferência do presidente para ocupar o Ministério da Saúde no futuro, questionado sobre a questão Barra elogiou o colega Luiz Henrique Mandetta:

— Vejo o Mandetta como um grande líder e ele é um condutor dessa crise, consegue passar uma tranquilidade grande, com uma fala conciliadora tentando trazer uma palavra de conforto. Vejo muita cooperação e alinhamento no governo. Não penso no porvir, porque não sei o que vai acontecer em cinco minutos.

Em relação à contenção da crise, o diretor-presidente da Anvisa disse que está em contato diário com a agência de vigilância sanitária dos Estados Unidos (FDA, na sigla em inglês). Ele afirma que está atento aos estudos relacionados a hidroxicloroquina, utilizada para o tratamento de malária, lupus e artrite, mas que o produto ainda não é recomendado para tratamento da covid-19. Apesar disso, a Anvisa proibiu a exportação do produto para outros países, para garantir que não haja falta de estoques no Brasil para atender aos pacientes que já fazem uso da droga.

- A Anvisa não recomenda a utilização da hidroxicloroquina para o tratamento de coronavírus. Isso pode restringir o uso dessa substÂncia pelo SUS? A Anvisa pretende rever isso?

Essa substância e as substâncias correlatas são usadas no tratamento de malária, lupus, artrites e outras doenças reumáticas, é um uso que a ciência já comprovou. As pessoas precisam dos medicamentos, ele tem um custo de venda muito barato, então, normalmente, as empresas não se interessam em produzir. Temos algumas empresas produtoras e alguns dos laboratórios são militares. Quando houve a divulgação de que haveria possibilidade desse medicamento ser útil para tratamento da covid-19, houve uma corrida às farmácias e o produto desapareceu da prateleira, então quem precisa para malária, lupus e artrite não acha para comprar. Então o que a Anvisa fez, quando digo que a Anvisa tem relação direta e on-line com as agências isso é comprovado pelo contato que tivemos com FDA ontem e hoje. O FDA confirma que não há posição conclusiva quanto aos efeitos e a segurança de uso dessa substância em relação à covid-19. Então se não há, não podemos recomendar. Temos que esclarecer a população. Nenhuma regra está escrita na pedra, poderemos atualizar se o FDA e as pesquisas internacionais comprovarem como benéfica, vamos acrescentar essa possibilidade e vamos ter uma postura junto ao Ministério da Saúde para acrescentar esse novo uso. O SUS não é um executor cego de parâmetros. O Ministério da Saúde é o grande condutor do enfrentamento da crise do coronavírus. Os dois sistemas, da Anvisa e do Ministério da Saúde, trabalham em perfeita sintonia.

- A Anvisa pretende fazer algo em relação à escassez desses produtos na prateleira e à cobrança de preços abusivos?

Estamos restringindo a exportação a partir de hoje. O medicamento não será exportado. Para a exportação se dar ela pode acontecer com ou sem anuência da Anvisa. Esse era um produto que não precisava necessidade de anuência e o Brasil é um grande produtor mundial, exportava para outros países. Só que, na medida em que esse medicamento desaparece da prateleira e temos brasileiros que precisam dele para tratamentos consagrados, não podemos deixar que um comprador internacional compre nosso estoque e não tenhamos como atender paciente com malária, lupus e artrite. A partir de hoje para ser exportado ele precisará de anuência e essa anuência não será dada, a não ser em situações muito especiais a serem analisadas. Também não será autorizada a exportação de ventiladores mecânicos, de Equipamentos de Proteção Individual... Não podemos concordar com a livre venda para garantir que aqui no Brasil quem usa tenha o produto. Não estou dizendo que estamos garantindo para tratar coronavírus, não há estudo conclusivo quanto a isso. O cidadão que não tem lupus, artrite e malária e compra o medicamento está privando pessoas com essas doenças. É um medicamento que tem indicação precisa e deve ser bem empregado, tem que ter prescrição médica para ser vendido. A medida que estamos adotando não é ligada a coronavírus é ligada a preservar o direito do cidadão brasileiro para se tratar com remédios produzidos no país .Não faça estoques, ou vai faltar para quem precisa.

- O senhor foi muito criticado de acompanhar o presidente no dia da manifestação. Se arrepende?

O que aconteceu naquela manhã eu encontrava num contato telefônico com presidente sobre assuntos particulares, nada ligados a nossa atividade pública, e entendemos de nos ver pessoalmente, já que estávamos geograficamente mais próximos. Cheguei ao palácio e o resto vocês têm conhecimento. O presidente se aproximou da grade e o que eu fiz foi aguardar que ele terminasse o que estava fazendo e depois tratamos do assunto que tínhamos para tratar e cada um seguiu para o seu lado. Procurei manter uma distância, não tive nenhum contato mais próximo com o presidente, fizemos o cumprimento preconizado, com o cotovelo. O presidente não tossiu ou espirrou, ou coisa que o valha. Depois cada um seguiu com seu dia. Se o anfitrião está no sol, fico no sol. Se ele está na chuva fico na chuva, em qualquer lugar onde eu vá. Foi devido a esse fato de estar passando pelas mesmas questões atmosféricas do anfitrião. Apenas isso.

Por ser o presidente da Anvisa, isso não passou uma mensagem negativa à população em relação ao combate ao coronavírus?

Eu reitero que procurei observar as normas sanitárias quanto a contatos. Lamento e, inclusive, até me sinto triste caso tenha passado para população o conceito de descumprimento de norma, mas de minha parte as normas estiveram cumpridas.