'Não traz de volta, mas fico aliviada porque a justiça foi feita', diz viúva de homem que morreu para protegê-la em assalto

Um mês após presenciar o assassinato do marido — quando ele saía da estação do metrô no bairro Colégio, Zona Norte do Rio — Amanda Percico, de 33 anos, conta que a dor do luto foi amenizada pelo alívio de ver preso o homem apontado como autor do crime. Antônio Carlos de Oliveira Adão, apontado como o homem que efetuou o disparo que vitimou Bruno Gomes Valentim Costa, de 41 anos, foi baleado e detido, nesta quinta-feira, durante um confronto em uma operação realizada pela corporação em comunidades da Zona Norte do Rio. Bruno morreu ao tentar proteger Amanda durante um assalto. Ele foi baleado pelo bandido e não resistiu.

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— Não traz o Bruno de volta, mas a gente fica aliviada por saber que a justiça foi feita pela vida dele. Era o mínimo que Bruno merecia porque era uma pessoa de caráter íntegro — declara Amanda, que, assim que recebeu a ligação sobre a prisão do criminoso, foi para a Delegacia de Homicídios (DH), na Barra da Tijuca, Zona Oeste, para fazer o reconhecimento:

— Assim que vi a foto, reconheci de primeira que foi o criminoso que tirou a vida do meu marido. Fiquei feliz por ter tido essa notícia antes mesmo de o crime fazer um mês e fiquei realmente muito agradecida porque todo o grupo da polícia estava envolvida nesse caso. Todo mundo estava muito comovido com essa situação.

Trinta dias após o crime, Amanda conta que tem sobrevivido a cada dia. Além da perda do marido, sofre com a tristeza das filhas, de 2 e 7 anos.

— Sofri o luto não só pela morte do meu marido, mas pela morte do pai das minhas filhas. Ele sempre foi um pai muito presente. No final de semana, era quando a gente mais compartilhava. Não contei para a mais velha o fato como se deu para preservá-la. Disse que o papai teve uma dor no coração e o médico não conseguiu curar. Mas ela era uma menina sempre muito animada, ia para a escola. A rotina era deixar meu marido no metrô e levar minha filha para a escola. Agora ela não quer mais ir para a escola, tem dificuldade para dormir. É doloroso para ela lembrar que vai passar pela estação e não vai mais deixar o pai. A gente sofre por ver nossos filhos sofrerem tão precocemente com uma dor dessa. Para a de 2 anos, falei que o papai está no céu – lamenta Amanda, que não consegue mais dirigir nem passar pelo local onde ocorreu o crime.

A viúva afirma que, mesmo após a prisão, vai continuar acompanhando o caso até que o assassino seja condenado:

– O criminoso tomou três tiros de fuzil, estava recebendo tratamento médico e está vivo. Meu marido tomou um tiro e já chegou na UPA sem vida. Vou continuar acompanhando esse caso porque creio que a justiça vai ser feita para a vida do meu marido. O bandido já tinha sido preso e liberado. Não era nem para estar solto. Cometeu diversos outros crimes.

Mandado em aberto

Antônio Carlos tinha um mandado de prisão em aberto, expedido pelo juiz Marcello Rubioli, titular da Vara de Execuções Penais do Tribunal de Justiça do Rio. O mandado é de um processo que Carlos foi condenado em 2015 a 21 anos de prisão por roubos cometidos. De acordo com a PM, após o confronto, agentes realizaram um trabalho de inteligência e descobriram o envolvimento dele na morte de Bruno. Ferido, ele foi levado para o Hospital Estadual Getúlio Vargas, na Penha, onde permanece internado sob custódia.

A ação nas comunidades da Congonha, Cajueiro, Palmeirinha e Jorge Turco visava, segundo a PM, a retirada de barricadas. Outro homem foi preso na operação. Os agentes também apreenderam um fuzil, duas pistolas e material entorpecente.

Relembre o caso

O crime aconteceu na noite do dia 19 de outubro, quando Bruno retornava do trabalho. Amanda Percico, de 40 anos, agora viúva do gestor do setor de óleo e gás, esperava pelo marido em frente à estação do metrô, como era de costume, quando foi abordada por um criminoso armado. Ao se deparar com a cena, Bruno foi na direção do carro da família gritando “covarde, para com isso, deixa ela”. O bandido deixou o celular roubado cair e abaixou para pegar. Amanda aproveitou a brecha para sair do automóvel e fugir.

Na época, Amanda contou acreditar que o marido tenha pensado que o criminoso iria atacá-la e, ao ver os dois abaixados, jogou a mochila em cima do assaltante. Foi nesse momento que o ladrão atirou.

— Eu o estava aguardando com o carro ligado, porque a gente sabe que a região ali é perigosa. Estava atenta. Quando olhei para o retrovisor, vi que tinha alguém se aproximando e achei suspeito por mexer na blusa. Tentei engatar o carro, mas ele travou. O bandido estava na minha janela, e o Bruno vindo atrás. Ouvi quando ele falou: "para com isso seu covarde" — contou, acrescentando que entregou o carro e o celular para o bandido.

Amanda disse que, ao sair do carro, correu e gritou para o marido fazer o mesmo. Ao olhar para trás, viu que ele não estava e ouviu um tiro. Bruno trabalhava numa empresa de óleo e gás. Amanda é dona de casa. O casal tem duas filhas, de 2 e 7 anos. Ela reclamou da insegurança no bairro e disse que os assaltos são constantemente denunciados pela população:

— A gente sempre vê na televisão, acha que não vai acontecer com a gente. Dá um pouco de revolta com toda essa situação. Sempre foi caótico viver no Rio, mas está mais difícil. Ali naquele bairro, as pessoas fazem denúncias de assalto a toda hora, mas não acontece nada. É uma situação de descaso total.