'Não vejo chances de ampla anulação da Lava-Jato', diz Deltan Dallagnol após revisão do caso Lula

Cleide Carvalho e Gustavo Schmitt
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SÃO PAULO - O procurador Deltan Dallagnol, ex-coordenador da força-tarefa da Lava-Jato em Curitiba, afirma que não vê chances de uma "ampla anulação" da Lava-Jato, mesmo após o que classificou como "revisionismo", ao tratar de medidas recentes, como o julgamento que declarou que o ex-juiz Sérgio Moro foi parcial ao julgar Lula e a decisão que tirou casos do petista de Curitiba.

Em entrevista ao GLOBO, por email, Deltan diz que o STF precisa esclarecer a partir de que momento ocorreu a suspeição de Moro. Se for a partir da condução coercitiva de Lula, todas as buscas e apreensões e depoimentos devem ser anulados e provas que foram compartilhadas com outras ações devem perder validade. Se a suspeição ocorrer a partir de outro momento, como a divulgação da delação do Palocci, ele acredita que as provas podem ser salvas.

Sobre os diálogos hackeados com o ex-juiz Moro, o procurador diz que "é próprio de um caso que avançou em ritmo acelerado". Ele também acredita na hipótese de que o plenário do STF possa reverter a decisão de Fachin, o que manteria válida a condenação de Lula no caso do sítio de Atibaia e o deixaria inelegível.

A Lava-Jato pode ter o mesmo destino da operação Castelo de Areia? O senhor teme a anulação?

É impossível que as duas operações tenham o mesmo destino. Enquanto a Castelo de Areia foi natimorta, a ampla legalidade da Lava Jato foi reconhecida diante de milhares de questionamentos em quatro instâncias ao longo de sete anos. Mesmo se considerarmos o revisionismo de hoje, não vejo chances de uma ampla anulação. É fácil alegar supostos excessos genericamente, mas quando se vai analisar cada decisão, verifica-se que está recheada de fatos e de provas e que aplicou a lei de modo coerente entre os diferentes casos e consistente com o entendimento dos tribunais.

Além disso, os efeitos das duas operações são incomparáveis. A Lava Jato rompeu a barreira da impunidade sistêmica brasileira, onde quedou a Castelo de Areia. Corruptos que estavam saqueando o Brasil foram levados à prisão. Centenas de réus foram condenados, bilhões recuperados. Por fim, o que a Lava Jato revelou jamais poderá ser escondido debaixo do tapete. O mecanismo da corrupção revelado ilumina a compreensão não só do Brasil de ontem, mas também daquele de hoje e amanhã, e será assim enquanto mudanças mais profundas não forem feitas para atacar as raízes do problema.