'Não vou aguentar esperar', disse morta pela Covid-19 no aguardo por leito de UTI em última conversa com o filho

Flavio Trindade e
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RIO - "Preciso de você, mãe". Foi essa a frase que o motorista Eduardo Teles escreveu na manhã de domingo, em frente à Unidade de Pronto Atendimento da Beira-Mar, em Duque de Caxias, na esperança de poder abraçar mais uma vez a dona de casa Eunice Teles de Souza, de 68 anos. A idosa havia sido levada por ele mesmo à UPA no dia anterior, depois de peregrinar por outras duas unidades. Infelizmente, Eduardo não pôde abraçar e nem ver a mãe, cujo estado de saúde havia piorado enquanto ela aguardava por uma vaga em leitos de UTI do estado. Duas horas antes da última mensagem enviada pelo filho, Eunice, com erros de digitação que ajudavam a traduzir a aflição, desabafou: "Não vou aguentar esperar não". Na manhã desta segunda-feira, Eduardo recebeu, ao lado da irmã Adriana, a notícia da morte de dona Eunice, mais uma vítima da Covid-19 no Brasil.

- Minha mãe foi uma mulher muito guerreira, trabalhou a vida inteira, sustentou três filhos sozinha. Era uma mulher muito sofrida, nunca abandonou a gente. Eu moro ao lado da casa dela, estive com ela todos os dias, tentei cuidar dela quando começaram os sintomas. A gente se dava muito bem, conversávamos sobre tudo. Conversei com a minha mãe no Whatsapp e agora não vou mais vê-la - lamentou o motorista.

Antes de chegar à UPA Beira-Mar, dona Eunice, que era moradora de Vista Alegre, na Zona Norte da capital, passou pela unidade de Irajá, também na Zona Norte do Rio, e também pela do Lote XV, já em Duque de Caixas. De acordo com os filhos, em ambos os casos ela foi aconselhada a ir para a Beira-Mar, onde a UPA teria melhor estrutura. Lá, segundo a filha, Adriana Teles, outros pacientes diziam não haver os medicamentos necessários para os procedimentos relativos à Covid-19.

Durante a noite que passou na UPA, dona Eunice reclamou da falta de conforto com o filho. Ela pediu que levassem para ela um travesseiro e um cobertor, mas não chegou a receber os pedidos. "Vem correndo", pediu a idosa. "O mais rápido que puder", repetiu em seguida, pelo WhatsApp.

- Ela estava com frio. Minha mãezinha era uma pessoa tão linda. Não sei como eu vou viver sem ela. É preciso denunciar isso. Digam para as pessoas não trazerem seus familiares aqui. Quem vem aqui é para morrer. Eles não têm remédios, não têm equipamento. Estão assassinando as pessoas, e minha mãezinha foi mais uma – desabafou a filha, Adriana Teles.

Em nota, a Secretaria municipal de Saúde e Defesa e Civil de Caxias, através da direção da UPA Beira Mar, afirmou que não procede a informação de que a paciente Eunice Teles de Souza, moradora de Vista Alegre (RJ), deixou de ser intubada por falta de remédios ou equipamentos na unidade. A pasta ressaltou ainda que, apesar da grande demanda de pacientes suspeitos e confirmados de Covid-19, não há falta de materiais na unidade.

A direção da UPA Beira Mar informou também que a paciente chegou à unidade com estado de saúde grave, sendo imediatamente regulada junto ao SER – Sistema Estadual de Regulação –, e estava no aguardo de uma vaga. Enquanto ela esperava a liberação do leito e transferência, a paciente recebeu, ainda de acordo com a secretaria, "todos os cuidados e esforços por parte da equipe médica da UPA Beira Mar para preservar a sua vida".