Nós e o tempo

Recebi com surpresa um convite para participar de um grupo on-line de colegas da turma que se formou no Colégio Santo Inácio em um remoto 1962, para preparar um encontro dos sobreviventes em novembro.

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Primeiro, não me formei nem com essa nem com outra turma. Tinha levado bomba em Português, e teria que repetir o ano. Meu pai disse: “Quer estudar, estuda, se não quiser não estuda, eu não pago mais.” Então fui trabalhar de dia e estudar à noite para fazer no fim do ano o exame supletivo do MEC, que dava o diploma do Ensino Médio aos 10% dos milhares de candidatos que conseguiam passar por provas duríssimas de Português, História, Geografia, Filosofia, Latim, Inglês ou Francês. Passei. E com 17 anos estava com o canudo na mão, apto a fazer o vestibular, enquanto meus colegas da turma ainda teriam que ralar mais um ano sob as batinas negras dos jesuítas para se formarem.

Não gosto de grupos, participo só no da família, no das filhas e no dos netos, mas fiquei muito excitado com a possibilidade de reencontrar pessoas perdidas em minha memória, 60 anos depois. Ver as caras dos caras e saber suas histórias.

Me lembrei de Sidney Miller, o “Ratinho”, meu colega de carteira estudioso, que me dava colas generosas, e reencontrei como grande compositor, revelado por Nara Leão, que teve vida breve e sofrida e morreu aos 37 anos.

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Além dele, só me lembrei de Aloysio Maria Teixeira, o Aloysito, citado no convite como dono do restaurante no hotel em que vai acontecer o encontro. Era um gordinho simpático e falante, filho de um desembargador, de quem ouvi falar algumas vezes como deputado estadual e federal do PMDB, dei uma googlada e vi que ele virou advogado, engenheiro e administrador, fico feliz que se tornou um próspero hoteleiro. E os outros?

Quantos serão? Quem serão? Como estarão? Que rumo tomaram suas vidas? Quais as suas trajetórias de glórias e misérias?

Ah, isso é um ótimo tema para uma crônica. Encontrar o pessoal, ouvir suas histórias e contar tudo.

Poderia começar googlando cada um dos sobreviventes, mas isso iria tirar a surpresa e a emoção do encontro presencial. O problema é que eles me conhecem como pessoa pública e devem estar mais interessados em ouvir minhas histórias de artistas, vão perguntar de Anitta, de Tim Maia, de João Gilberto, e eu querendo ouvir as histórias deles.

Às vezes tenho notícias de alguns nos obituários e reencontro ex-colegas da elite carioca como corretores de seguros, pequenos bancários, motoristas de táxi. Quantos ex-alcoólatras encontrarei no jantar? Quantos fracassados? Quantos ricos vitoriosos? Quantos lobistas? Quantas grandes cabeças perdidas? Quem votou em Bolsonaro?

E o primeiro da classe, o maior cu de ferro, o mais sério e estudioso, o melhor, que destino teve?

O pior certamente sou eu, que levei bomba em Português e, por ironias da sorte e vingança poética, vim a ganhar minha vida e criar minha família escrevendo.

Até novembro, turma de 62. Aguardem crônica.

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