‘Nós não pretendíamos expor a situação’, diz Flora Purim sobre vaquinha para tratamento de Airto Moreira

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Em quase seis décadas de parceria musical e amorosa, a cantora Flora Purim e o percussionista Airto Moreira nunca deixaram de viver no presente. Os diferentes presentes do casal incluíram colaborações com lendas como Miles Davis, jantares com John Lennon e mansões em Los Angeles. O de hoje, porém, ganhou contornos dramáticos.

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Três meses atrás, logo após o lançamento do último álbum de Flora, “If you will” (o seu primeiro em 15 anos), Airto teve uma forte pneumonia que provocou diversas complicações. Morando juntos em um apart hotel de dois quartos no centro de Curitiba desde o início da pandemia, eles tiveram que recorrer a uma vaquinha para custear o tratamento.

Colaborações da Rússia

Como não poderia deixar de ser, o presente ainda guarda a admiração por um dos maiores músicos brasileiros, considerado por muitos o pai da percussão contemporânea. Há duas vaquinhas em andamento. Uma brasileira, criada pela promotora de eventos Teca Macedo, que arrecadou cerca de R$ 60 mil de uma meta de R$ 120 mil. E outra americana criada por Niura, filha de Flora de um primeiro casamento, com U$ 14 mil arrecadados de uma meta de U$ 150 mil. Esta última já teria contribuições de fãs de diversos lugares do mundo, conta Flora. Até mesmo da Rússia, atingida por sanções econômicas.

— Nós não pretendíamos expor a situação de saúde de Airto, até que um amigo nosso argumentou que precisávamos falar com a comunidade de músicos que já passaram por isso — diz Flora.

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A história de amor entre Flora e Airto começou nos anos 1960, quando ele tocava no hoje lendário Sambalanço Trio e ela iniciava sua carreira de cantora. Em 1967, com a repressão da ditadura militar, Flora decidiu, aos 23 anos, tentar a sorte nos Estados Unidos. Morrendo de saudade, Airto pediu ajuda a Chico Buarque para achá-la no país. O cantor nem pensou duas vezes e deu US$ 1 mil ao amigo. Airto chorou de emoção: nunca havia visto uma nota de dólar na vida.

Chegando a Los Angeles, foi até a residência da amada, mas não a encontrou. Perguntou pela vizinhança e, logo na primeira porta que bateu, deu de cara com o maestro Moacir Santos. Flora estava na casa dele, tomando um cafezinho.

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Por cerca de cinco décadas, eles mantiveram uma carreira sólida nos EUA. Assim como os conterrâneos Dom Um Romão e Naná Vasconcelos, Airto revolucionou a percussão. Flora colaborou com Thelonious Monk, Stan Getz, Gil Evans e, juntamente com o marido, integrou o célebre grupo de jazz fusion Return to Forever, liderado pelo tecladista Chick Corea.

Na década passada, após um desgaste na relação, cada um tomou seu rumo. Flora voltou para o Brasil em 2013, enquanto Airto continuou tocando pelo mundo. Volta e meia, pousava em Curitiba para rever a antiga amada. Numa dessas passagens, estourou a pandemia. Os dois voltaram a dividir o mesmo teto. Apaixonaram-se novamente.

— Nesses dois anos juntos, muita água rolou — conta Flora. — A gente se abraçou, a gente chorou muito, a gente pediu desculpas pelos erros passados. Na verdade, esse reencontro tinha que acontecer. Só que, não sei como, ele pegou essa pneumonia.

Limousine e mansões

Airto ficou maio inteiro entre a vida e a morte no hospital; sobreviveu, mas pegou uma bactéria muito resistente, segundo Flora. O casal havia guardado recursos suficientes para viver os próximos anos sem precisar fazer shows, mas os contratempos esgotaram as reservas. E os custos não param. Acamado, Airto precisa de fisioterapia, injeções e uma enfermeira que lhe ajude em tempo integral. Os deslocamentos também são difíceis, sempre com cadeira de rodas.

— O grosso do dinheiro que ganhamos na vida distribuímos entre amigos ao longo do tempo, sempre ajudando os outros — diz Flora, que conta acreditar numa opção espiritual de se livrar de bens materiais. — Moramos hoje em um lugar muito simples, muito diferente das mansões em Beveryl Hills, quando eu tinha limousine disponível 24 horas e ia jantar com o George Benson e o presidente da Warner. Tudo foi deslumbrante quando aconteceu, mas depois de dez anos fazendo aquilo percebi que não era dona de tudo isso. Eles investiram muito dinheiro e queriam que eu fosse uma diva.

Com o novo álbum que lhe tirou da aposentadoria, Flora pretende voltar a fazer shows quando as coisas se acertarem. Mas, até pelos seus 80 anos (a mesma idade de Airto, que completa 81 em agosto), não pode fazer viagens longas, para a frustração de seus fãs internacionais. Lançado por um selo independente, “If you will” traz novas composições e releituras, como a faixa-título, composta com o célebre George Duke, seu amigo e produtor. Gravado ao longo da pandemia, o álbum ainda tem participações de Airto e da filha do casal, a cantora Diana Purim.

— O ideal seria que todo mundo estivesse com saúde, para montar uma banda e promover o disco pelo mundo — diz Diana, que vive em Los Angeles. — Agora, a saúde do meu pai é a prioridade. Já estou vendo ele melhorando um pouco, a ajuda e energia por ele fizeram toda a diferença. Fiquei muito orgulhosa pela minha mãe lançar um disco nessa altura da vida. Ela está a mil por hora.

Com o marido, o também músico Krishna Booker, Diana está organizando shows em São Francisco e Los Angeles com o objetivo de arrecadar fundos para o pai. Amigo de Airto e Flora, o baterista Ivan Conti, o Mamão, também prepara duas apresentações no Brasil com o mesmo objetivo. Membro do Azymuth, ele busca ainda localizar um álbum inédito e perdido de Airto, em que o percussionista revela seus dotes de cantor.

— Flora e Airto nasceram um para o outro, sempre estão juntos em tudo — diz Mamão, que recentemente passou por problemas de saúde e só conseguiu custear uma cirurgia urgente graças a uma vaquinha on-line. — Era ela que levava os músicos brasileiros para os Estados Unidos e dava todas as dicas. Em 1978, fizemos com Airto e Flora um tour de costa a costa no país.

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