Número de infectados diagnosticados com coronavírus em cruzeiro no Japão dobra em um dia

Rafael Garcia
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Mensagem em porta de cabine do cruzeiro Diamond Princess diz "Obrigado do fundo do meu coração"

SÃO PAULO — Sessenta e cinco pessoas foram recolhidas esta segunda-feira do cruzeiro Diamond Princess, que cumpre quarentena ancorado na costa de Yokoma, no Japão, após o registro de casos de contaminação pelo coronavírus.

A informação foi revelada com exclusividade ao GLOBO pelo tripulante brasileiro Thiago Campos Soares, que atua como vigia dos passageiros durante a madrugada, certificando-se de que eles não sairão de suas cabines.

Soares fez ao GLOBO um relato sobre a rotina e a agonia dos embarcados, que não têm previsão sobre quando acabará a quarentena.

No entanto, o brasileiro está impedido de passar novas informações: “Infelizmente fui aconselhado a não fazer mais vídeos. Eu não posso perder o meu emprego. Tenho 2 filhos para sustentar aí no Brasil. Tô passando por tudo isso, mas eu dependo deles para receber os meus pagamentos.”

Maior colaboração

Os passageiros do navio de cruzeiro Diamond Princess, ancorado no Japão para cumprir quarentena por coronavírus, não mostraram muita apreensão quando o isolamento foi anunciada, mas passaram a colaborar mais ao verem o número de casos começar a crescer.

O relato é de Thiago Campos Soares, tripulante da embarcação que, diante da medida de contenção, foi encarregado de vigiar corredores para evitar que passageiros deixassem suas cabines. Alguns passageiros reagiram com desdém no início, mas agora estão deixando até mensagens de apoio nas portas para a tripulação, que também é submetida ao isolamento.

"O isolamento consiste em ficarmos todos dentro das cabines quando não estivermos em horário de trabalho", conta o carioca ao GLOBO, por mensagem de texto. "No início não era levado tão a sério. Só passaram a levar mais a sério a gravidade do problema quando os números de infectados não paravam de aumentar."

No domingo, foi anunciado que mais cinco tripulantes e um passageiro estavam infectados, elevando para 70 o total de casos de infecção pelo novo coronavírus confirmados no Diamond Princess. O navio está parado em Yokohama desde o dia 3 de fevereiro, com quase 3.700 pessoas a bordo.

Soares conta que, apesar do receio, há um espírito de cooperação no navio. Quando o navio passou pela primeira inspeção, diz Soares, o número de infectado foi de 11 pessoas.

Os primeiros a serem examinados no navio foram aqueles que apresentavam sintomas mais intensos. Mas, a medida que mais testes foram sendo feitos, mais pessoas foram diagnosticadas e retiradas da embarcação, seguindo para hospitais.

Medo e rumores

"Hoje, todos têm bastante medo. Há muitos rumores, opiniões e questionamento entre os tripulantes, mas nada oficial", explica. "A companhia tem nos dado bastante suporte. Pelo menos no meu departamento, todo dia temos reuniões as 15h para saber como estamos e nos distribuem todo dia equipamentos de proteção."

Os passageiros mais inquietos, diz, compreenderam a gravidade da situação depois de algum tempo.

"Existiam passageiros que faziam reclamações, mas hoje em dia todos eles sabem o quanto nós estamos fazendo por eles e são gratos. Eles querem ir embora, e nós também queremos voltar logo a nossas rotinas normais", conta Soares, que trabalha no setor de lojas do navio. "O maior número de infectados foi de passageiros até o momento. Acredito que todos tenham um certo receio e medo de andar pelas áreas deles, justamente por isso."

Uma das mensagens de apoio deixadas por passageiros na porta das cabines dizia "Obrigado do fundo do meu coração". Outra dizia "Deus o abençoe. Mantenha o rosto erguido."

Soares disse estar determinado a cumprir sua função para que o período de quarentena possa ser encerrado quando for o momento.

"Precisamos manter a calma e nos proteger bastante. Temos trabalhado como um time de verdade, sempre ajudando uns aos outros", diz o brasileiro. "É muito cansativo, dá medo, mas não adianta perder a cabeça. Temos que entender o tamanho do problema e que só sairemos daqui juntos."