Número ingressantes negros em engenharia salta mais de 4 vezes em 10 anos

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Hoje com 20 anos, Murilo Noronha começou a pensar em cursar engenharia aos 15, após participar de uma feira de profissões na escola pública em que estudou. Parecia um sonho distante, até entrar para a USP, em 2021.

"Estudei em escola pública a vida inteira e agora estou conhecendo a realidade de quem tenta se adaptar a uma faculdade ainda com uma estrutura bem elitista. Há outras pessoas pretas na minha sala, mas tem aula em que ainda olho ao redor e sou a única pessoa negra", conta.

Ele, que acaba de ser eleito para integrar o grêmio da Escola Politécnica, avalia que, mais do que democratizar o ingresso, é preciso agora pensar em formas de manter o aluno na universidade.

Noronha faz parte do Coletivo Poli Negra --grupo criado em 2016 e que tem como objetivo debater pautas raciais, promover acolhimento para estudantes negros e lutar pela pauta de permanência estudantil.

"Vejo que a tendência é aumentar a diversidade na engenharia nos próximos anos. Não imagino que já irei encontrar um ambiente diverso logo após me formar, mas a tendência é encontrar cada vez mais oportunidades."

Histórias como a de Murilo devem se tornar cada vez mais comuns. O número de estudantes pretos e pardos que começaram a cursar engenharia no Brasil teve um salto na última década, aumentando mais de quatro vezes entre 2010 e 2021.

O resultado vem dos dados do Censo da Educação Superior compilados pelo Núcleo de Estudos Raciais do Insper, pelo pesquisador Gerrio Barbosa.

Os dados apontam que eram 25,2 mil ingressantes negros em cursos da área em 2010; em 2021, já eram 109,8 mil. Apesar do aumento, eles ainda estão em desvantagem em relação aos novos alunos de engenharia que se autodeclararam brancos: eram 50,8 mil e passaram a 148 mil no período.

Em pouco mais de uma década, o número de matriculados negros na área, uma das mais concorridas das universidades públicas, saltou de 65,5 mil para 349,5 mil, aumentando de forma mais acelerada, sobretudo a partir de 2015. Já o número de jovens negros que concluíram o curso aumentou de 5 mil para 46,4 mil.

"A gente percebe que a composição de negros em engenharia melhorou ao longo tempo, mas não é igual a de outros cursos, precisa gerar mais mão de obra negra em engenharia ou medicina", ressalta o pesquisador do Insper Michael França. "As empresas insistem que falta mão de obra negra qualificada, mas é uma desculpa."

Ele acrescenta que as universidades precisam investir em políticas para manter os alunos negros estudando e que, apesar do aumento de jovens matriculados nas instituições, ainda perdura um mecanismo silencioso de exclusão por renda.

A avaliação dele é que o vestibular ainda é um filtro socioeconômico e racial e as cotas são uma forma para tornar essa disputa mais justa, mas a rotina universitária não pode se manter como um mecanismo de exclusão.

"Quando traçamos a tendência de negros no ensino superior, não podemos ignorar o fato de que as bolsas de estudos e pesquisas foram congeladas e muitos não conseguem mais se manter em grandes universidades do país."

UNIVERSIDADE E MERCADO DE TRABALHO AINDA PRECISAM SER INCLUSIVOS

Mesmo com o percentual de concluintes 33% menor que o de brancos, o número de negros que conseguiram um diploma de engenharia aumentou nove vezes no período, enquanto a quantidade de estudantes que não declaravam raça ou cor no Censo caiu mais de 60%, com a consolidação do sistema de cotas nas universidades públicas.

Assim como outras instituições de referência do país, a USP implantou o sistema de cotas raciais e para alunos vindos de escolas públicas. A Lei de Cotas completou dez anos em 2022 e funciona há quatro na universidade paulista.

Aprovada na Poli antes do sistema de cotas, Larissa Rodrigues, 25, se forma no fim do ano de engenharia civil e viu de perto a mudança nos cursos da universidade."Tinha decidido ser engenheira aos 11 anos, meu avô era pedreiro e meu pai professor de matemática da rede pública. Não tinha pressão da família, mas sempre me estimularam muito."

Ela recorda que o ambiente universitário era muito mais opressor antes das cotas e que a sensação de ser negro na Poli era de solidão. "A principal demanda agora é que a universidade repense a estrutura acadêmica. Também é preciso pensar na saúde mental desses estudantes negros. A pressão é grande para todos, mas a gente se sente pressionado a ser uma história de superação constante", diz.

Rodrigues, que conseguiu seu primeiro estágio após ser vista pelo futuro chefe em uma reportagem da Folha de S.Paulo, ainda quando era caloura, dedicou seu trabalho de conclusão a investigar o novo perfil dos alunos da faculdade. "A universidade tende a ficar mais aberta, uma política afirmativa demora décadas para fazer efeito e a abertura da USP era urgente."

Como o setor foi um dos mais atingidos pela recessão de 2015 e 2016, esse aumento não é constante ao longo da última década. Com a pandemia, o número de novos alunos na área caiu a partir de 2020 e ainda não voltou para o patamar pré-crise sanitária, tanto para negros e brancos quanto para amarelos e indígenas.

Ainda existe um mito, de que cursos de exatas são para a elite e os estudantes que vêm de realidades menos favorecidas precisam optar por outras áreas, mas isso está mudando, diz o diretor de Relações Profissionais do Crea-SP, Pedro Alves de Souza Júnior.

"É preciso reconhecer o papel que tiveram os governos que começaram com o Fies [programa de financiamento estudantil] e das cotas, para que esses benefícios não precisem ser eternos. Já provamos que temos capacidade de ocupar as universidades, o primeiro passo para a caminhada dos cem quilômetros já foi dado", diz.

Ele também avalia que as empresas de engenharia precisam dar mais oportunidades para que os profissionais negros mostrem seu valor. "Comecei como leitor de hidrômetro e terminei como diretor, sendo negro. Temos de acreditar no nosso potencial."

Na última semana, uma reportagem da Folha de S.Paulo apontou que o equilíbrio no ensino superior entre negros e brancos melhorou nos últimos anos. Pelo Ifer (Índice Folha de Equilíbrio Racial), o período de 2012 a 2018 foi o de avanço mais expressivo na redução da desigualdade, de 2,8% ao ano. Desde 2018, no entanto, a redução ocorre a um ritmo anual de 1,6%.

Para Adriana Quintas, responsável pela área de Diversidade e Inclusão da GM América do Sul, ter uma equipe diversa de engenheiros implica em poder contar com um maior potencial para desenvolver produtos inovadores para os clientes e para a indústria automotiva como um todo. No fim, diz, tanto a sociedade como as empresas são beneficiadas.

"A GM é a primeira da indústria automotiva a fazer um trainee exclusivo para pessoas negras, o Track, que recebeu em sua primeira edição mais de 5.000 inscrições e selecionou 16 profissionais recém-formados, sendo 44% mulheres. Queremos trabalhar na inclusão, considerando também a interseccionalidade [o encontro de marcadores sociais na produção de desigualdade]."