Na Catalunha, separatismo se dispõe a permanecer no poder

Daniel BOSQUE
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O presidente em exercício da Catalunha, Pere Aragonès, vê Carlos Carrizosa, porta-voz do cidadão, passar durante um debate no Parlamento catalão, em 30 de setembro de 2020 em Barcelona

Com mais de 50% dos votos, o movimento de independência catalão saiu reforçado das eleições regionais de domingo e deve manter o poder, neutralizando a vitória mínima dos socialistas do presidente espanhol Pedro Sánchez.

A aposta de Sánchez em Salvador Illa, seu ministro da Saúde que controlou a pandemia, foi insuficiente: venceu as eleições, mas sem chances de presidir esta rica região de 7,8 milhões de habitantes.

"Se esperavam tirar os separatistas do poder, não interpretaram bem o cenário. Era uma meta irreal", comentou a cientista política Berta Barbet, da Universidade Autônoma de Barcelona.

Tão irrealista que, apesar do peso das profundas diferenças que surgiram após a tentativa fracassada de secessão em 2017, os separatistas fortaleceram sua maioria parlamentar, passando de 70 para 74 assentos de um total de 135 na câmara regional.

E, com uma abstenção recorde que penalizou especialmente os não-independentistas, superaram pela primeira vez os 50% dos votos numa votação regional.

À frente do movimento ficou a formação Esquerda Republicana (ERC), representante do movimento de independência mais moderado e aliada de Sánchez em Madri, que desbancou seus parceiros de coalizão Juntos pela Catalunha (JxC) do ex-presidente regional Carles Puigdemont, partidários da manutenção do confronto.

Seu candidato Pere Aragonés parece ser o mais bem posicionado para presidir a região graças às suas 33 cadeiras, 32 do JxC e 9 da esquerda radical CUP.

A aritmética também permitiria uma coalizão de esquerda com ERC, os socialistas e seu parceiro minoritário em Madri, Podemos, mas os dois primeiros descartaram essa possibilidade.

"O cenário mais plausível é a repetição da coalizão ERC-JxC, com ERC liderando", diz Berta Barbet.

“O resumo é que a vida continua igual, mas com pequenas nuances”, afirmou Ernesto Pascual, doutor em política pela Universidade Aberta da Catalunha (UOC).

Os socialistas seguem liderando o bloco contra a secessão em detrimento do centrista Cidadãos, vencedor das eleições anteriores e contrários à estratégia apaziguadora de Sánchez na Catalunha.

No banco separatista, o ERC prepara-se para presidir o governo regional depois de superar o partido de Puigdemont, apesar de ter abandonado a estratégia de ruptura unilateral e promovido o diálogo com Madri.

"Vamos começar as discussões hoje", disse Pere Aragonés, que terá de superar as fortes desavenças com seus parceiros, que são a favor da manutenção do confronto com Madri.

Porém, mesmo que não tenha conseguido desbancar os independentistas do poder regional, "para o governo espanhol, as notícias são boas", disse o analista Josep Ramoneda.

Em Barcelona, terá um interlocutor mais fluido. E, em Madri, os resultados na Catalunha "legitimam a política do governo" e "colocam seus rivais da direita em uma situação de crise" após serem claramente superados pela extrema direita do Vox, explicou.

Isso dará a Sánchez margem para abordar a questão catalã com gestos polêmicos, como a concessão de perdões aos nove líderes separatistas condenados a entre 9 e 13 anos de prisão pela tentativa de secessão de 2017.

Todos estão em semiliberdade há duas semanas, regime contra o qual a Promotoria interpôs recurso nesta segunda-feira.

Mas apesar da vontade de dialogar de ambos os lados, as posições permanecem distantes e de difícil encaixe. Aragonés já exigiu um referendo de autodeterminação que os socialistas rejeitam.

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