Na China, compradores de imóveis em 50 cidades fazem boicote e param de pagar hipotecas

Em meio ao um forte freio no crescimento econômico chinês e à escalada da crise nas grandes construtoras da China, muitas já em calote, o setor imobiliário do país enfrenta um novo problema: o boicote dos clientes.

Compradores de pelo menos 100 projetos em mais de 50 cidades da China decidiram simplesmente parar de pagar suas hipotecas a partir deste mês, segundo dados compilados pela analista Shujin Chen, da China Real Estate Information Corp., empresa de pesquisa privada.

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Eles alegam que as obras estão atrasadas e que os preços dos imóveis, hoje, valem menos do que quando começaram suas hipotecas.

O boicote aprofundou a crise no setor imobiliário, derrubou ações de bancos e faz surgir o temor de uma bola de neve dívidas incobráveis pelas instituições financeiras.

O que começou como um problema com a incorporadora Evergrande, após o governo ter tomado medidas para conter um excesso de endividamento das construtoras, agora está se transformando em uma crise que corre o risco de engolir a maioria das empresas do setor, seus credores e uma classe média que tem cerca de 70% de seu patrimônio alocados em imóveis.

'A pirâmide inteira está desmoronando'

A maior preocupação é que uma perda generalizada de confiança no setor imobiliário coloque grande pressão sobre a economia e o sistema financeiro chinês, que está com 46 trilhões de yuans (US$ 6,8 trilhões) em hipotecas pendentes e ainda tem 13 trilhões de yuans de empréstimos para promotores imobiliários.

— A pirâmide inteira está desmoronando agora — disse Anne Stevenson-Yang, cofundadora da J Capital Research.

Os preços dos imóveis na China caem há dez meses seguidos. Em projetos para serem concluídos em 2022, os preços foram, em média, 15% menores do que os custos de compra nos últimos três anos, segundo pesquisa do Citigroup.

A política de Covid Zero do governo chinês também agrava a situação, já que diminui a demanda por imóveis e deprimiu a atividade econômica. E os bancos chineses, que já enfrentavam dificuldades com atrasos e inadimplência nos empréstimos concedidos às construtoras, agora precisam se preparar para um possível calote dos compradores de imóveis.

Boicote derruba cotação do minério de ferro

A estimativa é que o boicote deixe inadimplentes até 561 bilhões de yuans (US$ 83 bilhões), cerca de 1,4% do saldo de hipotecas pendentes no país.

A preocupação é tanta que já afeta o preço do minério de ferro, insumo utilizado na indústria de construção civil no mercado global. Os contratos futuros de minério de ferro em Cingapura caíram mais de 4% nesta sexta-feira, após tombo de 8% na quinta, e atingiram US$ 96 a tonelada, o menor nível desde novembro. Há um ano, o minério de ferro era negociado acima de US$ 200 a tonelada, com a onda de estímulos econômicos na China alimentando um boom do mercado imobiliário e do aço.

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As autoridades chinesas já realizaram reuniões de emergência com os principais bancos nesta semana para discutir os boicotes de hipotecas devido à preocupação de que mais compradores possam seguir o exemplo. Alguns credores planejam apertar seus requisitos de empréstimos hipotecários em cidades de alto risco, segundo duas fontes.

O governo chinês, inclusive, está censurando documentos compartilhados em plataformas colaborativas que contabilizam o número de boicotes de hipotecas, dificultando o acesso a uma importante fonte de dados para investidores e pesquisadores globais que acompanham a crise imobiliária.

Queda de 41% nas vendas

A habitação na China deixou de ser uma aposta certa nas últimas duas décadas para um risco crescente. O governo reprimiu a alavancagem no setor, ajudando a aumentar os custos de refinanciamento da dívida para as incorporadoras e desencadeando uma onda recorde de inadimplência.

As vendas de casas caíram 41,7% em maio em relação ao ano anterior, com o investimento caindo 7,8%. no período.

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O setor imobiliário responde por mais de um quarto da produção econômica chinesa, se incluídos segmentos relacionados, como construção e serviços imobiliários, segundo estimativas. O agravamento da crise testará a capacidade das autoridades de minimizar as consequências.

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