Na Cisjordânia, Biden diz que 'as bases não estão maduras' para conversas entre israelenses e palestinos

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Em visita à Cisjordânia, o presidente dos EUA, Joe Biden, se comprometeu a defender a solução de dois Estados, um palestino e um israelense, mas afirmou que, neste momento, "as bases não estão maduras" para a retomada das negociações entre os dois lados, paralisadas há quase uma década. As declarações foram feitas em meio à primeira viagem do democrata ao Oriente Médio, uma região, que tem sido deixada em segundo plano pelo atual governo.

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Ao lado do presidente Mahmoud Abbas, Biden, apesar de não prometer se engajar ativamente por um acordo, disse que os palestinos precisam de um “horizonte político” para a paz, e não podem deixar que “o desespero lhes roube o futuro”.

— Sei que o objetivo de dois Estados parece distante, ao mesmo tempo em que indignações, como as restrições ao movimento e viagens, e as preocupações com a segurança de seus filhos são imediatas. — disse Biden, em Belém, na Cisjordânia. — O povo Palestino está sofrendo agora. Podemos sentir sua tristeza e frustração. Jamais desistimos da palavra “paz”.

As palavras de Biden, de certa forma, sinalizam uma quebra com a política para a região adotada por seu antecessor, Donald Trump.

Apesar de oficialmente dizer que uma solução de dois Estados era a ideal, o republicano defendia uma proposta que limitava a soberania palestina, e afirmava que Jerusalém seria a “capital indivisível” do Estado de Israel — a parte Oriental da cidade foi ocupada pelos israelenses na Guerra dos Seis Dias, em 1967, e é considerada pelos palestinos como sua capital.

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O presidente americano não fez menção ao status da cidade, tampouco expressou o desejo de reverter a postura dos EUA de reconhecer Jerusalém como a capital de Israel, uma das primeiras medidas de Trump no cargo. Contudo, defendeu que fossem usadas as linhas anteriores a 1967 para a demarcação dos futuros dois Estados.

— Essa é a melhor forma de conseguir níveis equivalentes de segurança, prosperidade, liberdade e democracia para os palestinos e os israelenses — declarou Biden.

Embora tenha adotado uma postura em tese diferente da de Trump, o atual presidente americano usou uma política de seu antecessor para dar alguma esperança aos palestinos: para ele, o processo de normalização das relações de Israel com alguns países árabes, como os Emirados Árabes Unidos e o Bahrein, pode contribuir para alguns avanços.

— Neste momento, quando Israel está melhorando suas relações com seus vizinhos ao redor da região, podemos aproveitar o mesmo momento para revigorar o processo de paz entre o povo palestino e os israelenses — disse Biden, sem mencionar que o plano de normalização, conhecido como Acordos de Abraão, provocou muitas críticas na época de sua assinatura por deixar de lado a questão palestina.

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Além da pouca disposição da Casa Branca para enfrentar a questão neste momento, o cenário político regional também não parece propício para a retomada das negociações. Em Israel, o complexo Gabinete comandado por Naftali Bennett não resistiu a uma série de crises, levando à queda do governo e à convocação de novas eleições, em novembro. Segundo as pesquisas, o ex-premier Benjamin Netanyahu é o favorito, sinalizando um congelamento ainda mais longo das negociações.

Pelo lado palestino, Abbas, que em tese deveria ter dexado o cargo em 2009, não tem o mesmo apoio popular de outros tempos — segundo pesquisa recente, 80% dos palestinos o querem fora do cargo. Problemas de saúde, em parte provocados pelo cigarro, e a persistente divisão entre o Fatah, grupo político que domina a Cisjordânia, e o Hamas, que controla a Faixa de Gaza, também não melhoram a situação do longevo presidente, hoje com 87 anos.

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Mesmo assim, ele fez as protocolares cobranças a Biden, como sobre o fim da ocupação israelense em Jerusalém e Cisjordânia, a remoção da Organização da Libertação Palestina (OLP) da lista de organizações terroristas dos EUA, além da reabertura do consulado americano em Jerusalém, que atendia os palestinos, e da missão da OLP em Washington. Em resposta, ouviu cobranças do presidente americano.

— A Autoridade Palestina tem um trabalho importante a fazer, se me permite dizer. Agora é a hora de fortalecer as instituições palestinas para melhorar a governança, transparência e responsabilidade — disse Biden. — É a hora de liberar o incrível potencial do povo palestino através do maior engajamento da sociedade civil para combater a corrupção, avançar em direitos e liberdades e melhorar os serviços comunitários.

Em busca de petróleo

Depois da visita à Cisjordânia, onde também anunciou um pacote de ajuda de US$ 100 milhões aos hospitais palestinos, Biden segue para a Arábia Saudita, a escala mais aguardada da viagem.

As relações entre os dois países estão estremecidas, em especial pelas críticas feitas pela Casa Branca à situação dos direitos humanos. Durante a campanha à Presidência, Biden chegou a dizer que a Arábia Saudita era um “Estado pária”, e um relatório de inteligência dos EUA divulgado em 2021 apontou o príncipe herdeiro, Mohammed bin Salman, como o responsável por autorizar a execução do jornalista Jamal Khashoggi, em 2018, em Istambul.

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Mas as intensas mudanças geopolíticas forçaram a Casa Branca a adotar um tom mais conciliador: a guerra na Ucrânia e a posterior decisão americana de suspender as compras de petróleo russo levaram à uma alta dos preços dos combustíveis, um fator que pode significar a derrota dos democratas nas eleições legislativas de novembro.

Inicialmente, um encontro de Biden e Bin Salman não estava previsto, mas os dois estarão na mesma sala na noite desta sexta-feira, durante uma reunião de trabalhp do presidente americano com ministros do governo saudita. No sábado, Biden participa de uma cúpula com líderes das monarquias árabes do Golfo Pérsico e países árabes como o Egito.

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Ali, deve pressionar as nações produtoras de petróleo para que aumentem seus níveis de produção, de forma a amenizar a recente alta dos preços: hoje, o barril do tipo Brent está sendo cotado em torno de US$ 100. Contudo, analistas questionam se as monarquias árabes têm a capacidade de elevar a produção a ponto de interferir, de maneira sensível, nos preços internacionais.

Antes da chegada do americano, em aparente sinal de boa vontade, o governo saudita anunciou a abertura de seu espaço aéreo a empresas de todos os países, incluindo Israel, em uma decisão considerada histórica pela Casa Branca. Os EUA vêm trabalhando pela aproximação de sauditas e israelenses, na mesma lógica dos chamados Acordos de Abraão, mas Riad sinalizou que qualquer decisão do tipo será tomada a longo prazo.

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