Na COP27, Macron diz que Guerra da Ucrânia não vai sacrificar metas climáticas

SHARM EL-SHEIKH, EGITO (FOLHAPRESS) - "Não vamos sacrificar nossas metas climáticas diante da guerra", afirmou o presidente da França, Emmanuel Macron, em discurso nesta segunda-feira (7) na cerimônia de abertura da COP27, conferência do clima da ONU, que vai até o próximo dia 18, em Sharm el-Sheikh, no Egito.

Na fala, Macron reafirmou o compromisso de reduzir pela metade as emissões de gases-estufa até 2030, por meio de investimento em energia limpa.

No contexto da Guerra da Ucrânia, os europeus são criticados por investir em novas produções de combustíveis fósseis que devem operar nos próximos anos. Alegam, entretanto, que estão acelerando a transição energética para renováveis e que os novos investimentos em fósseis devem antecipar o pico de emissões do bloco.

A preocupação com esse cenário ficou explícita no discurso do secretário-geral da ONU, António Guterres. "Estamos em uma estrada para o inferno climático com o pé ainda no acelerador", afirmou.

Até a terça (8), discursam na cúpula dos líderes 110 chefes de Estado e de governo, incluindo desde potências econômicas como Alemanha e França até os países mais vulneráveis ao clima, como a ilha de Tuvalu.

O presidente Jair Bolsonaro (PL) não compareceu à COP27. Na última edição do evento --a COP26, na Escócia--, ele participou através de um vídeo gravado.

Já Lula --que foi o primeiro presidente brasileiro a participar de uma COP do clima, em 2009-- é esperado na segunda semana da COP27, quando o presidente americano, Joe Biden, também deve passar pela conferência.

"Parabenizo o recém-eleito presidente Lula por renovar os compromissos em parar o desmatamento", afirmou o primeiro-ministro de Portugal, António Costa, em discurso na tarde desta segunda em uma reunião de chefes de Estado, para uma audiência composta por líderes de países africanos e europeus, incluindo a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente da Espanha, Pedro Sánchez.

A eleição de Lula e seus anúncios de retomada do compromisso climático do Brasil também motivaram elogios nos bastidores da COP. Diplomatas de países europeus afirmaram à Folha que a mudança de governo no Brasil é uma boa notícia para as negociações do clima.

Os discursos dos líderes mundiais nesta segunda-feira prezaram por apresentar engajamento na ação climática. Além de destacar seus compromissos, os países tentaram mostrar disposição para contornar a desconfiança entre os blocos de negociação e criar mais união nesta COP.

No entanto, os recados dos líderes também acabam por reforçar os argumentos que travam as negociações climáticas: a falta de financiamento, requisitado pelos países em desenvolvimento, e a insuficiência das metas de redução de emissões no mundo.

"A guerra na Ucrânia não pode ser desculpa para atrasar compromissos, mas um impulso para acelerar a transição", afirmou Pedro Sánchez, da Espanha. "Devemos responder à ignorância com ambição e determinação."

Al Gore, que foi vice-presidente dos Estados Unidos, também enfatizou que a guerra não pode atrasar as ações.

"As nações ricas do mundo não deveriam ser enganadas pela absoluta necessidade de responder à falta de energia fóssil --causada pela cruel guerra lançada pela Rússia na Ucrânia-- como uma desculpa para trancar compromissos de longo prazo com ainda mais dependência e vício em combustíveis fósseis", disse.

Também coube, por outro lado, em parte dos discursos, a defesa à continuidade dos uso dos combustíveis fósseis, uma posição já defendida pelo bloco em desenvolvimento.

"Queremos continuar, a médio prazo, a usar os recursos naturais como o gás natural, menos poluente, gerador de financiamento de ações de adaptação e resiliência climática", afirmou o presidente de Moçambique, Filipe Nyusi. "Estamos a trabalhar no binômio equilíbrio e desenvolvimento", completou.

Representantes de países em desenvolvimento também bateram repetidamente na tecla do financiamento climático, reforçando a necessidade de os países ricos cumprirem suas metas. O pedido é considerado por negociadores do G77+China uma condição para a retomada da confiança e da cooperação.

"Não há outra escolha que não seja a cooperação. Não houve progresso no último ano. Não basta aumentar a ambição [das metas] se não implementarmos", criticou o vice-presidente da Indonésia, Ma'ruf Amin.