Na Copa do Catar, Alemanha combina herdeiros do 7 a 1 no Brasil e do fracasso na Rússia; saiba como

Eliminada na fase de grupos em 2018, a Alemanha iniciou o ciclo para a Copa do Mundo do Catar, enfrentando ninguém menos do que a então campeã França, como se nada tivesse acontecido: poucas novidades na convocação e quase nenhuma no time titular, à exceção do novo posicionamento de Kimmich, transferido da lateral-direita para a função de volante. E é ainda desse jeito, com mudanças conservadoras em um projeto que teve seu ápice no 7 a 1 sobre o Brasil em 2014, que a seleção alemã estreia no Mundial de 2022, contra o Japão, às 10h (de Brasília) desta quarta-feira – sem o prestígio de outrora, mas apostando no próprio taco.

– Sabemos que não fizemos nada na última Copa. Estou convencido de que venceremos amanhã (hoje) – resumiu Kimmich, hoje um dos líderes da equipe, em entrevista coletiva na véspera da estreia.

O ritmo lento na renovação pós-fracasso em 2018 foi um dos combustíveis para as críticas ao técnico Joachim Löw, mantido no cargo até a Eurocopa disputada em junho de 2021, quando a Alemanha foi eliminada sem uma vitória sequer.

Àquela altura, o time titular ainda tinha cinco remanescentes da conquista da Copa de 2014: o goleiro Neuer, os zagueiros Ginter e Hummels, o volante Kroos e o meia-atacante Müller. Com a demissão do treinador após a Euro, assumiu a seleção alemã o então treinador do Bayern de Munique, Hansi Flick, que tinha sido auxiliar técnico de Löw no Mundial do Brasil.

Na convocação para o Catar, Flick reabilitou de forma surpreendente o meio-campista Mario Götze, autor do gol do título contra a Argentina no Maracanã, e que vinha fora da seleção há cinco anos. Além de Götze, seguem no elenco três remanescentes de 2014: Ginter, Neuer e Müller, os dois últimos como prováveis titulares.

Os ecos do 7 a 1 vão além do campo e bola. Os alemães escolheram se hospedar no extremo norte do Catar, em um resort isolado na cidade de Al Ruwais, a 110 km da capital Doha – onde estão a maioria das seleções e dos estádios, inclusive o Khalifa, palco da estreia da Alemanha. Lembra a opção alemã por se preparar em 2014 em um vilarejo de Santa Cruz Cabrália, na Bahia, acessível por balsa. A diferença é que, na época, o centro de treinamento construído para receber a seleção – com recursos da própria Federação Alemã de Futebol – foi convertido em resort após a Copa.

Flick manteve alguns titulares da Copa de 2018, como o zagueiro Süle e o meia Goretzka, e inicialmente o esquema com três zagueiros costurado por Löw no início deste ciclo. Nos últimos jogos, contudo, retornou a um esquema com quatro defensores mais próximo ao 4-2-3-1 vitorioso em 2014. Müller, que faz parte da seleção desde a Copa de 2010, tende a ser reposicionado no comando do ataque diante dos desfalques do centroavante Timo Werner e do meia-atacante Marco Reus, fora do Catar por lesões.

O maior frescor no time titular da Alemanha deve vir com Jamal Musiala, meia-atacante de 19 anos que foi lançado no time principal do Bayern ainda sob a gestão de Flick e tornou-se sensação na última temporada. Na estreia, Musiala pode jogar mais centralizado ou aberto na esquerda no lugar de Sané, que vinha com problemas físicos e só estará liberado para atuar na segunda rodada.

Discreta em sua preparação para a Copa e tímida nas inovações táticas – muito mais voltadas para dar a solidez defensiva que faltou em 2018 do que em cunhar um estilo diferenciado como foi o de pressão e velocidade em 2014 –, a Alemanha chamou mais atenção pelo embate ferrenho entre a federação de futebol nacional e a Fifa envolvendo o uso da braçadeira com os dizeres “One Love”, em apoio aos direitos LGBTQIAP+.

Antes da estreia no Catar, a imprensa alemã deu enorme cobertura ao assunto e ao veto determinado pela Fifa, classificado como “chantagem” por dirigentes alemães devido à ameaça de cartões e sanções disciplinares para os atletas. A federação alemã chegou a avaliar uma ação junto à Corte Arbitral do Esporte (CAS) para assegurar que o capitão Neuer pudesse usar a braçadeira sem correr riscos.

– A forma como as punições foram ameaçadas foi decisiva (para o recuo). Acho lamentável que hoje não se possa mais se manifestar pelos direitos humanos – disse o técnico Flick.

Ficha do jogo:

Alemanha: Neuer, Kehrer, Süle, Rüdiger e Raum; Kimmich, Goretzka, Hofmann (Gundogan), Musiala e Gnabry; Müller (Havertz)

Japão: Gonda, Sakai, Tomiyasu, Yoshida e Nagatomo; Shibasaki, Endo e Kamada; Ito, Asano (Maeda) e Minamino (Kubo)

Local: Estádio Internacional Khalifa (Doha). Horário: 10h (de Brasília). Árbitro: Ivan Barton (ELS). Transmissão: TV Globo, Sportv, Globoplay e Fifa+