Na Coreia do Sul, Doria diz que lista de Fachin desgasta políticos tradicionais

ALENCAR IZIDORO, ENVIADO ESPECIAL

SEUL, COREIA DO SUL (FOLHAPRESS) - O prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), disse nesta quarta-feira (12) que a abertura de inquérito determinada pelo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) e relator da Lava Jato, Edson Fachin, contra ministros, senadores, governadores e deputados desgasta "de certa forma" políticos tradicionais, inclusive do próprio PSDB.

"Embora investigação não signifique punição, é sempre um desgaste para a classe política de forma geral", disse Doria, que costuma se definir como gestor, e não político.

A declaração foi dada pelo tucano ao chegar em Seul, na Coreia do Sul, após ser questionado sobre um possível desgaste de caciques do PSDB, como os senadores Aécio Neves e José Serra, cotados para a disputa da Presidência da República e do governo de São Paulo, respectivamente.

Neste começo de mandato, com alta popularidade, Doria tem sido cogitado por tucanos como uma opção para esses dois cargos nas eleições de 2018, motivando rusgas com aliados do governador Geraldo Alckmin (PSDB), seu padrinho político.

Oficialmente, Doria tem dito que Alckmin é seu candidato a presidente. Questionado sobre a citação de delatores sobre depósitos na conta de um cunhado de Alckmin, o prefeito saiu em defesa do tucano, embora tenha dito de forma geral que é preciso sempre investigar.

"O governador Geraldo Alckmin é um homem decente, um homem honesto, um homem correto, um dos melhores políticos do país. Ela vai saber formular sua defesa e tenho absoluta confiança nas suas respostas."

Questionado sobre como agiria na condição de presidente da República devido à abertura de inquérito contra oito ministros do governo Michel Temer, Doria disse ser preciso avaliar a gravidade de cada caso, mas que, em algumas circunstâncias, poderia ser adequado um afastamento temporário do cargo.

"De maneira genérica não faz sentido punir antecipadamente. Dependendo da gravidade, ideal seria, em circunstâncias pontuais, um afastamento temporário, não a demissão. Para que, enquanto o processo está sendo investigado, aquela pessoa estar preservada e ao mesmo ter o direito de ampla defesa", afirmou o prefeito, ressalvando que essa posição "não é linear", "cada caso é um caso".

Doria saiu em defesa da Lava Jato. "[A abertura de inquéritos] mancha evidentemente aqueles que não procederam bem. Mas não afeta a democracia, ao contrário, fortalece a democracia brasileira."

INVESTIGAÇÃO

O ministro Edson Fachin determinou a abertura de inquérito contra oito ministros do governo Michel Temer (PMDB), 24 senadores e 39 deputados federais. Serão abertas 76 investigações pedidas pela Procuradoria-Geral da República após as delações da Odebrecht.

Entre os citados estão os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), e do Senado, Eunício Oliveira (PMDB). Dois dos principais aliados de Temer, Eliseu Padilha (Casa Civil) e Moreira Franco (Secretaria-Geral), também estão na lista, que abrange ainda os senadores Romero Jucá e Rena Calheiros, do PMDB, e Aécio Neves (PSDB).

No total a relação tem 98 nomes e inclui três governadores e um ministro do Tribunal de Contas da União. Algumas suspeitas da Procuradoria são corrupção, falsidade ideológica, lavagem de dinheiro, fraude e cartel. Fachin remeteu 201 outros casos a tribunais de instâncias inferiores envolvendo citados sem foro no Supremo -entre os mencionados estão os ex-presidentes Lula, Dilma Rousseff e Fernando Henrique Cardoso.

Os inquéritos iniciam longo trâmite. Investigarão o teor das delações, que precisarão de provas adicionais para tornar-se efetivas. Ainda há as fases de denúncia e do processo, com ampla defesa, antes do julgamento.

VIAGEM

A viagem de Doria a Seul é a segunda missão internacional do prefeito. Antes, ele havia feito turnê pelo Oriente Médio em fevereiro. Além de buscar experiências exitosas, Doria pretende atrair parcerias e investidores para seu plano de privatizações e concessões.

A visita à Coreia do Sul, com a maioria das despesas pagas pela Prefeitura de Seul, ocorre num momento de turbulência política no país devido ao impeachment e à prisão da presidente da República, Park Geun-hye, num escândalo com repercussão equivalente a uma "Lava Jato coreana".

Doria tem em sua agenda de compromissos visitas a conglomerados que estão no epicentro da crise, principalmente a Samsung, cujo herdeiro e principal cabeça do grupo, Lee Jae-yong, foi preso acusado de dar cerca de US$ 50 milhões a fundações de uma amiga da presidente em troca de favores. A empresa nega as acusações.